O Mundo começa no azul, depois daquelas montanhas
Josanne
Francisca Morais Bezerra - Professora
Doutora Plena da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC. Presidente da
Academia Grapiúna de Artes e Letras – AGRAL
Há
livros que procuram dizer alguma coisa sobre o mundo. Outros buscam
compreendê-lo. Existem, porém, obras mais raras: aquelas que alteram, quase
imperceptivelmente, o lugar de onde passamos a contemplar a existência. Não
acrescentam apenas novas ideias ao pensamento; modificam a própria experiência
da percepção.
Depois
delas, o mundo permanece aparentemente o mesmo. As árvores continuam
enraizadas, os rios seguem o seu curso, as montanhas conservam a antiga
quietude e as aves persistem atravessando o céu. No entanto, já não conseguimos
contemplá-lo da mesma maneira. Alguma coisa se deslocou. Não porque a realidade
tenha mudado, mas porque a linguagem devolveu ao olhar sua capacidade
primordial de espantar-se.
É
nesse instante que a poesia começa.
Ela
não nasce da necessidade de ornamentar o real, tampouco da pretensão de
construir um universo paralelo destinado a consolar o homem de suas perdas. Sua
vocação é mais antiga e mais profunda: restituir às coisas sua condição
inaugural, fazendo com que o mundo reapareça diante de nós como se ainda
estivesse em processo de criação.
A
poesia não acrescenta beleza ao existente; revela a beleza que o hábito tornou
invisível.
Talvez
por isso toda verdadeira obra poética produza em nós uma sensação paradoxal: a
de regressar a um lugar onde jamais estivemos. Reconhecemos aquilo que lemos e,
ao mesmo tempo, experimentamos a impressão de encontrá-lo pela primeira vez.
Essa estranha familiaridade constitui um dos grandes mistérios da arte. O poema
não cria apenas imagens; recria a própria possibilidade de ver.
Edmund
Husserl propôs à filosofia um retorno "às coisas mesmas", suspendendo
os automatismos que recobrem nossa percepção cotidiana. A poesia realiza
movimento semelhante por outro caminho. Ela interrompe, ainda que por um
instante, a ilusão de que conhecemos inteiramente o mundo e restitui às coisas
a intensidade que a familiaridade havia silenciosamente encoberto.
É
então que a palavra reencontra sua natureza primeira.
Os
grandes poetas não descrevem simplesmente o mundo. Ampliam sua possibilidade de
existir. A linguagem cotidiana tende a estabilizar significados; o poema
devolve-lhes movimento. Não explica o mistério: impede que ele desapareça sob o
excesso das explicações.
Filosofia
e poesia caminham próximas desde suas origens. A primeira interroga o ser por
meio do conceito; a segunda, pela imagem. Uma procura compreender
discursivamente; a outra torna sensível aquilo que nenhuma definição consegue
esgotar. Ambas nascem da mesma inquietação: compreender o lugar humano diante
da existência.
Como
observou Octavio Paz, o poema devolve o homem a uma dimensão inaugural da
linguagem e do mundo. Cada verdadeiro poema desloca discretamente o centro da
realidade e, nesse pequeno deslocamento, inaugura uma nova forma de presença.
Assim
compreendida, a poesia deixa de ser apenas um gênero literário entre outros.
Converte-se
em uma forma singular de conhecimento.
Não
um conhecimento que reduz o real a definições, mas aquele que reconhece, na
metáfora, uma das formas mais profundas de produção de sentido. Como observa
Paul Ricoeur, o poema não encerra o significado: inaugura uma experiência
interpretativa. Cada leitura torna-se um novo acontecimento da obra.
Talvez
por isso determinados livros permaneçam vivos muito depois de publicados.
Deixam de pertencer apenas ao tempo em que foram escritos para ingressar
naquela longa conversação da cultura em que cada geração reencontra perguntas
que julgava novas. Como compreendeu Hans-Georg Gadamer, toda leitura realiza um
encontro entre horizontes: a obra chega até nós trazendo o seu tempo, e nós a
recebemos a partir do nosso. O livro permanece; quem muda somos nós.
Ler
nunca significa regressar exatamente ao mesmo livro.
Significa
descobrir que, de algum modo, ele cresceu conosco.
É
nesse horizonte que deve ser situado O Mundo começa no azul, depois daquelas
montanhas.
Desde
os primeiros poemas, torna-se evidente que não estamos diante de uma simples
reunião de textos líricos. Há nesta obra uma arquitetura invisível que organiza
imagens, ritmos e símbolos. Amor, infância, morte, religiosidade, memória,
cidades, rios, montanhas, pássaros, tambores, música, viagem, silêncio e
esperança reaparecem continuamente, não como temas isolados, mas como elementos
de uma mesma respiração poética.
Talvez
resida justamente aí uma das singularidades mais profundas da escrita de Carlos
Kahê.
À
primeira vista, o azul anunciado no título parece ocupar o centro da obra. Uma
leitura mais atenta, porém, revela outra configuração. O azul não constitui um
ponto de chegada, mas um ponto de fuga. Tudo caminha em sua direção sem jamais
possuí-lo completamente. As montanhas não encerram o horizonte: anunciam aquilo
que permanece além delas. Os rios conduzem ao tempo. As estradas aproximam
experiências. Os pássaros tornam visível o antigo desejo humano de ultrapassar
os próprios limites.
O
mundo, afinal, não começa onde já chegamos.
Começa
sempre um pouco além.
Talvez
seja exatamente essa a promessa inscrita no título.
Existem
títulos que apenas identificam uma obra. Outros já constituem, por si mesmos,
um primeiro poema. O Mundo começa no azul, depois daquelas montanhas
pertence, inequivocamente, a essa segunda categoria.
Antes
mesmo de conhecermos seus versos, somos convidados a atravessar uma experiência
de linguagem. O título não descreve apenas uma paisagem; formula,
silenciosamente, uma hipótese sobre a própria existência.
O
mundo não começa onde estamos.
Começa
sempre além.
A
poesia restitui ao horizonte sua condição de promessa. Onde o pensamento
acredita encontrar um limite, o poema descobre uma passagem.
As
montanhas evocadas pelo título não funcionam como barreiras.
Funcionam
como limiares.
Marcam
o ponto em que a experiência presente deixa de bastar e começa aquilo que ainda
permanece por descobrir. Desde antigas tradições, a montanha simboliza
revelação e transformação. Carlos Kahê reinscreve essa força simbólica em sua
própria paisagem poética sem reproduzi-la. Em seus poemas, a ascensão acontece
pela memória, pela contemplação, pelo afeto e pela palavra. Cada poema pode ser
lido como uma discreta travessia interior.
É
nesse ponto que o azul adquire sua dimensão mais profunda.
Na
tradição artística, essa cor frequentemente se associa ao infinito, à
contemplação e à transcendência. Nesta obra, porém, o azul representa sobretudo
aquilo que permanece adiante de nós: o espaço da possibilidade, a região onde o
mundo continua inacabado.
Quanto
mais caminhamos em sua direção, mais ele se afasta, como acontece com o próprio
horizonte. Esse permanente adiamento, entretanto, não é uma frustração. É a
condição da esperança.
O
horizonte não existe para ser possuído.
Existe
para manter vivo o movimento da caminhada.
Essa
compreensão modifica profundamente a leitura do livro.
À
primeira vista, poderíamos imaginar que sua arquitetura repousa sobre grandes
temas: infância, amor, memória, morte, religiosidade, natureza ou identidade
regional. Todos eles atravessam os poemas, mas nenhum constitui, isoladamente,
seu princípio organizador.
O
que confere unidade à obra é outra coisa.
É
o movimento.
Tudo
circula.
Os
rios.
As
aves.
As
estradas.
As
cidades.
As
vozes.
Os
tambores.
As
canções.
As
viagens.
Os
afetos.
As
lembranças.
Até
mesmo os mortos continuam caminhando discretamente entre os vivos, como
presenças que o tempo não conseguiu extinguir.
Não
encontramos aqui uma poesia de imagens imóveis.
Encontramos
uma poesia da travessia.
Essa
mobilidade manifesta-se também na geografia do livro. Embora profundamente
enraizada no Sul da Bahia, a obra jamais se deixa limitar por um único
território. Suas paisagens dialogam com outras tradições culturais, literárias
e artísticas. O espaço geográfico deixa de obedecer aos limites do mapa para
converter-se em espaço da imaginação.
É
justamente essa abertura que impede qualquer leitura estreitamente
regionalista.
A
Bahia presente nestes poemas não surge como simples cenário ou repertório
folclórico. Torna-se experiência sensível da paisagem. O território
transforma-se em linguagem; as cidades, em memória; os rios, em medida do
tempo; as montanhas, em figura da distância entre aquilo que somos e aquilo que
ainda podemos vir a ser.
A
geografia deixa de indicar apenas lugares.
Passa
a revelar estados da consciência.
Talvez
por isso o livro produza uma impressão tão singular. Em seus poemas, as
paisagens parecem adquirir pensamento e memória. As árvores recordam. Os rios
narram. O vento transporta vozes antigas. A chuva restitui presenças. As
montanhas interrogam silenciosamente o caminhante.
Natureza
e consciência deixam de ocupar esferas separadas.
Uma
passa a respirar dentro da outra.
Existe,
assim, uma secreta continuidade entre o movimento da terra e o movimento da
existência.
Cada
rio prepara outra travessia.
Cada
montanha anuncia outro horizonte.
Cada
estrada conduz a uma nova memória.
Cada
pássaro prolonga um antigo desejo de liberdade.
Cada
poema abre caminho para o seguinte.
Pouco
a pouco, o leitor percebe que não está diante de cinquenta e seis composições
independentes, mas de um organismo poético cuja unidade nasce da circulação
contínua de seus símbolos.
É
então que compreendemos a verdadeira força do título.
O
azul jamais designa apenas uma cor.
Nem
apenas um céu.
Nem
apenas uma paisagem.
Representa
a região da existência onde o mundo permanece aberto ao inesperado.
Talvez
por isso continue existindo sempre depois daquelas montanhas.
Porque
a poesia, assim como o horizonte, nunca termina onde nossos olhos conseguem
alcançar.
Silenciosamente,
uma palavra atravessa todo este livro.
Nem
sempre aparece escrita. Muitas vezes permanece escondida entre uma paisagem, um
rio, uma árvore, uma canção, uma rua ou uma voz que insiste em sobreviver ao
tempo.
Essa
palavra é memória.
Não
apenas lembrança do passado.
Mas
permanência.
Como
compreendeu Henri Bergson, o passado continua vivendo naquilo que somos. Também
em Carlos Kahê a memória não recompõe um arquivo; mantém diferentes tempos
convivendo na mesma experiência poética. A infância dialoga com a maturidade.
Os mortos permanecem entre os vivos. As cidades guardam vozes antigas. O ontem
infiltra-se continuamente no hoje.
Por
isso, esta não é uma poesia voltada para trás.
É
uma poesia que faz o passado caminhar.
Nada
parece definitivamente encerrado.
Tudo
continua respirando sob novas formas.
Essa
compreensão aproxima a obra de uma tradição importante da poesia brasileira.
Encontramos ressonâncias possíveis em Drummond, Bandeira, Jorge de Lima, Manoel
de Barros e Adélia Prado. Não como influência direta, mas como diálogo. Carlos
Kahê preserva uma voz própria, nascida do Sul da Bahia, capaz de transformar a
paisagem regional em paisagem da consciência e de alcançar, a partir dela, uma
dimensão verdadeiramente universal.
É
nesse movimento que a poesia de Carlos Kahê alcança sua maior amplitude.
Ao
longo da leitura, percebemos que o livro estabelece uma circulação permanente
entre diferentes experiências culturais. A tradição afro-brasileira dialoga com
outros universos literários e artísticos; a religiosidade popular encontra a
reflexão filosófica; a oralidade encontra a escrita; o rio encontra a cidade; o
quintal comunica-se com o mundo. A Bahia permanece intensamente presente, mas
nunca fechada sobre si mesma. Ao contrário, abre-se continuamente ao encontro
de outras geografias, outras vozes e outras memórias.
Essa
abertura confere à obra uma notável amplitude cultural. O poeta parece
compreender que nenhuma identidade permanece viva quando se isola. As culturas
respiram porque dialogam. Também a memória necessita desse movimento: quando
deixa de circular, transforma-se em vestígio; quando continua sendo recriada,
permanece cultura viva.
Poucas
linguagens exprimem essa circulação de maneira tão intensa quanto a música.
Não
por acaso, ela atravessa discretamente todo este livro.
Mesmo
quando não aparece explicitamente nomeada, sustenta o ritmo de muitos poemas.
Existe uma pulsação que aproxima a escrita da respiração, da canção, da
cadência da fala e das tradições da oralidade. As imagens retornam como motivos
musicais; os símbolos reaparecem enriquecidos pela experiência da leitura, como
acontece numa composição em que uma mesma melodia ressurge sob diferentes
harmonias.
Por
isso, dificilmente esta obra pode ser lida como uma reunião ocasional de
poemas.
Ela
possui arquitetura.
Cada
texto estabelece relações com os demais.
Cada
imagem prepara novas ressonâncias.
Cada
símbolo regressa transformado.
O
livro respira como uma única obra.
Não
encontramos apenas cinquenta e cinco poemas.
Encontramos
cinquenta e cinco movimentos de uma mesma composição poética.
Talvez
seja essa uma das razões pelas quais a leitura produz uma impressão tão
singular. Não acompanhamos apenas a memória de um poeta. Participamos da
memória de uma cultura e, mais do que isso, de uma experiência profundamente
humana, na qual indivíduo, paisagem, linguagem e história permanecem
inseparáveis.
É
nesse ponto que a poesia de Carlos Kahê ultrapassa os limites do testemunho
pessoal.
Ela
deixa de revelar apenas uma existência.
Passa
a sugerir uma maneira de habitar o mundo.
Talvez
seja essa uma das vocações das obras destinadas à permanência.
Elas
não nos ensinam apenas a recordar.
Ensinam-nos
a continuar vivendo aquilo que parecia perdido.
Nenhum
grande livro se oferece inteiramente à primeira leitura.
Há
obras que comunicam imediatamente aquilo que desejam dizer. Outras pedem
demora. Exigem retorno. Permanecem abertas a novas descobertas.
O
Mundo começa no azul, depois daquelas montanhas pertence a essa tradição.
Cada
reencontro com seus poemas modifica discretamente nossa compreensão do
conjunto. Um verso revela profundidades inesperadas. Uma imagem transforma-se
em símbolo. Uma palavra regressa revestida de novos sentidos. Pouco a pouco,
compreendemos que o verdadeiro movimento da obra acontece também dentro daquele
que a lê.
Como
observaram Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser, a leitura nunca consiste apenas
em receber um significado já concluído. Toda obra permanece aberta à
participação do leitor. É nesse diálogo silencioso que a literatura continua
vivendo através do tempo.
A
poesia de Carlos Kahê realiza esse processo com delicadeza.
Ela
não impõe uma única interpretação.
Sugere.
Insinua.
Convida.
Seus
poemas não conduzem o leitor por um caminho inteiramente delimitado.
Abrem-lhe
veredas.
Cada
imagem conserva liberdade suficiente para acolher diferentes experiências de
leitura. Um rio poderá significar memória, tempo, infância, viagem ou
esperança. Uma montanha poderá representar obstáculo, ascensão ou horizonte. O
azul poderá sugerir transcendência, liberdade, promessa ou o mistério que
permanece além de todas as palavras.
Essa
abertura constitui uma das condições de permanência da obra literária.
Os
livros que atravessam o tempo raramente o fazem porque oferecem respostas
definitivas. Permanecem vivos porque continuam produzindo perguntas. Cada
geração reencontra neles inquietações diferentes, porque conservam uma reserva
de sentido que nunca se esgota.
Como
observa Paul Ricoeur, a leitura também é abertura para mundos possíveis. Não
lemos apenas para compreender um texto, mas para ampliar nossa compreensão da
existência.
É
isso que acontece neste livro.
Ao
acompanhar seus poemas, não atravessamos apenas paisagens.
Atravessamos
modos de olhar.
Ao
final da leitura, percebemos que não aprendemos apenas alguma coisa sobre o
universo poético de Carlos Kahê.
Descobrimos,
talvez, alguma coisa sobre nós mesmos.
Essa
é uma das realizações mais altas da poesia.
Ela
não produz apenas identificação.
Produz
reconhecimento.
O
leitor deixa de perguntar apenas quem fala no poema para perceber que, de algum
modo, também é interrogado por ele.
É
nesse sentido que a poesia de Carlos Kahê dialoga com uma das tradições mais
fecundas da lírica brasileira. Ha ressonâncias possíveis em poetas consagrados,
acima citados, mas são aproximações, não filiações. Sua voz nasce de outra
experiência histórica, cultural e geográfica e ingressa na tradição sem
renunciar ao território de onde fala.
Há
ainda uma qualidade particularmente significativa em sua escrita.
A
erudição jamais se transforma em espetáculo.
As
referências culturais, filosóficas, religiosas e artísticas aparecem
incorporadas à própria experiência poética. Não se oferecem como demonstração
de conhecimento, mas como ampliação do campo de ressonância das imagens. A
cultura aproxima o leitor da obra, em vez de afastá-lo.
Num
tempo marcado pela velocidade e pela dispersão, a poesia de Carlos Kahê realiza
um gesto discretamente contracultural.
Ela
devolve ao leitor o direito da lentidão.
Seus
versos pedem contemplação.
Não
foram feitos apenas para ser lidos.
Precisam
ser habitados.
Ler
este livro significa aceitar outro ritmo.
O
ritmo da escuta.
O
ritmo da memória.
O
ritmo da paisagem.
O
ritmo das coisas que amadurecem lentamente.
Talvez
por isso a releitura ocupe lugar tão importante na experiência poética.
Reler
não significa repetir uma leitura.
Significa
regressar ao mesmo poema depois que a vida nos transformou.
O
texto permanece.
Nós
mudamos.
E
é justamente nesse encontro entre a permanência da obra e a transformação do
leitor que a literatura revela uma de suas forças mais profundas.
E,
quando regressamos a determinados livros, descobrimos que eles também parecem
ter atravessado o tempo. Não porque suas palavras tenham mudado, mas porque
novos sentidos se tornaram possíveis no encontro entre aquilo que o texto
conserva e aquilo que a vida acrescentou ao leitor.
O
Mundo começa no azul, depois daquelas montanhas convida a esse tipo de permanência.
Não
é um livro que se atravesse com pressa.
É
um livro ao qual se regressa.
Um
poema hoje.
Outro
amanhã.
Um
verso guardado na memória.
Uma
imagem reencontrada durante uma caminhada.
Uma
palavra que retorna quando contemplamos uma montanha ou percebemos, no fim da
tarde, uma tonalidade de azul que julgávamos conhecer.
É
assim que determinados livros deixam de ocupar apenas as estantes.
Passam
a ocupar a memória.
E,
quando isso acontece, a literatura transforma-se em experiência vivida.
No
fundo, toda grande poesia nos ensina a olhar novamente.
É
também isso que esta obra realiza.
Depois
de sua leitura, o céu permanece azul.
As
montanhas continuam erguidas.
Os
rios seguem seu curso.
As
cidades conservam suas ruas.
Entretanto,
já não são exatamente os mesmos.
Porque
também o leitor deixou de ser.
A
verdadeira literatura opera transformações silenciosas.
Não
modifica o mundo pela força.
Modifica
nossa maneira de percebê-lo.
Toda
grande obra literária realiza, ao fim, um gesto discreto.
Ela
nos devolve ao mundo.
Ao
longo destas páginas, acompanhamos rios, montanhas, cidades, pássaros, árvores,
tambores, canções, lembranças, encontros e despedidas. Percorremos geografias
exteriores e interiores que, pouco a pouco, revelam uma dimensão universal da
experiência humana.
Nada
existe isoladamente.
Cada
imagem responde a outra.
Cada
poema prolonga um caminho.
Cada
memória permanece aberta ao futuro.
Talvez
esteja aí uma das conquistas mais delicadas da escrita de Carlos Kahê.
Ela
nos recorda que existir não significa apenas ocupar um lugar.
Significa
pertencer a uma corrente.
Somos
atravessados por vozes que nos antecederam, por afetos que nos constituíram e
por paisagens que continuam respirando dentro de nós.
Nesse
sentido, este livro celebra mais do que a memória.
Celebra
a continuidade da vida.
Aquilo
que parecia perdido reaparece sob novas formas.
A
infância permanece na maturidade.
Os
mortos permanecem naquilo que deixaram em nós.
A
cultura renova-se sempre que um legado é recebido, reinterpretado e
transmitido.
Talvez
seja por isso que Carlos Kahê não escreva para afirmar certezas.
Escreve
para conservar perguntas.
Seus
poemas não encerram o mistério.
Convidam-nos
a habitá-lo.
Num
tempo marcado pela velocidade e pela dispersão, sua poesia devolve à linguagem
a vocação da contemplação.
Recorda-nos
que compreender exige demora.
Que
ouvir exige silêncio.
Que
a beleza raramente se revela àquele que apenas passa.
É
preciso permanecer.
Ler
não significa apenas percorrer páginas.
Significa
permitir que elas nos atravessem.
É
essa experiência que aguarda o leitor deste livro.
Ao
iniciá-lo, talvez imagine encontrar apenas poemas.
Encontrará
muito mais.
Encontrará
uma poesia profundamente enraizada na terra baiana e, justamente por isso,
capaz de ultrapassar suas fronteiras.
Porque
o universal, em literatura, não nasce da renúncia às próprias raízes.
Nasce
da fidelidade a elas.
Quando
uma obra mergulha profundamente em seu lugar de origem, encontra aquilo que
pode ser reconhecido por qualquer leitor.
É
assim que uma rua pode conter o mundo.
Que
um rio pode falar do tempo.
Que
uma árvore pode guardar uma genealogia.
Que
uma montanha pode representar todas as distâncias.
Que
uma lembrança particular pode despertar a memória de alguém desconhecido.
A
literatura não precisa renunciar às raízes para alcançar o mundo.
Pode
alcançá-lo justamente porque mergulha nelas.
Carlos
Kahê compreende essa verdade.
Sua
poesia nasce das águas, das estradas, das montanhas, das vozes e da memória do
Sul da Bahia, mas recusa qualquer confinamento regional. O território não
funciona como fronteira.
Funciona
como origem.
E
toda verdadeira origem contém uma possibilidade de viagem.
Talvez
seja por isso que, depois de tantas páginas, rios, pássaros, cidades, vozes,
tambores, lembranças e caminhos, seja necessário regressar ao princípio.
Regressar
ao azul.
Regressar
às montanhas.
Regressar
àquela frase que, antes mesmo do primeiro poema, já nos havia colocado em
movimento:
O
Mundo começa no azul, depois daquelas montanhas.
Agora,
porém, já não a lemos da mesma maneira.
No
início, talvez víssemos apenas uma bela imagem.
Depois
da travessia, percebemos que ela contém uma poética.
O
mundo nunca começa exatamente onde acreditamos que começa.
Há
sempre alguma coisa depois.
Depois
da montanha, o azul.
Depois
do azul, outro horizonte.
Depois
do horizonte, aquilo que ainda não sabemos nomear.
É
precisamente porque não conseguimos nomeá-lo inteiramente que continuamos
caminhando.
Talvez
seja essa a mais bela promessa deste livro.
Sempre
existe outra montanha.
Outro
horizonte.
Outra
paisagem.
Outra
memória.
Outra
palavra.
Outro
poema.
O
azul permanece diante de nós não como um lugar que um dia possuiremos, mas como
a promessa de que a existência jamais se esgota naquilo que já conhecemos.
A
poesia não elimina o mistério.
Também
não precisa explicá-lo.
Ensina-nos
algo talvez mais difícil:
permanecer
diante dele.
Contemplá-lo.
Escutá-lo.
Aceitar
que existem dimensões da experiência que não precisam ser inteiramente
decifradas para serem profundamente verdadeiras.
Quando
aprendemos a habitar esse território, compreendemos que o mundo continua
começando, todos os dias, um pouco além da última montanha.
Que
o leitor aceite, portanto, este convite.
Não
para encontrar respostas.
Mas
para caminhar.
Que
atravesse estas páginas como quem percorre uma paisagem sem desejar conhecê-la
depressa demais.
Que
escute os rios.
Que
acompanhe os pássaros.
Que
reconheça as vozes.
Que
se detenha diante das montanhas.
E
que, quando finalmente encontrar o azul, não pergunte apenas onde ele termina.
Pergunte-se
o que começa depois dele.
Porque
existem livros que terminam quando fechamos a última página.
E
existem livros que apenas então começam.
Este
é um deles.
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