sexta-feira, 7 de agosto de 2026

 

 

 Livro de Poesias: Carlos Kahê

 

O Mundo começa no azul, depois daquelas montanhas

 

Ensaio:

Josanne Francisca Morais Bezerra - Professora Doutora Plena da Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC. Presidente da Academia Grapiúna de Artes e Letras – AGRAL

 

Há livros que procuram dizer alguma coisa sobre o mundo. Outros buscam compreendê-lo. Existem, porém, obras mais raras: aquelas que alteram, quase imperceptivelmente, o lugar de onde passamos a contemplar a existência. Não acrescentam apenas novas ideias ao pensamento; modificam a própria experiência da percepção.

Depois delas, o mundo permanece aparentemente o mesmo. As árvores continuam enraizadas, os rios seguem o seu curso, as montanhas conservam a antiga quietude e as aves persistem atravessando o céu. No entanto, já não conseguimos contemplá-lo da mesma maneira. Alguma coisa se deslocou. Não porque a realidade tenha mudado, mas porque a linguagem devolveu ao olhar sua capacidade primordial de espantar-se.

É nesse instante que a poesia começa.

Ela não nasce da necessidade de ornamentar o real, tampouco da pretensão de construir um universo paralelo destinado a consolar o homem de suas perdas. Sua vocação é mais antiga e mais profunda: restituir às coisas sua condição inaugural, fazendo com que o mundo reapareça diante de nós como se ainda estivesse em processo de criação.

A poesia não acrescenta beleza ao existente; revela a beleza que o hábito tornou invisível.

Talvez por isso toda verdadeira obra poética produza em nós uma sensação paradoxal: a de regressar a um lugar onde jamais estivemos. Reconhecemos aquilo que lemos e, ao mesmo tempo, experimentamos a impressão de encontrá-lo pela primeira vez. Essa estranha familiaridade constitui um dos grandes mistérios da arte. O poema não cria apenas imagens; recria a própria possibilidade de ver.

Edmund Husserl propôs à filosofia um retorno "às coisas mesmas", suspendendo os automatismos que recobrem nossa percepção cotidiana. A poesia realiza movimento semelhante por outro caminho. Ela interrompe, ainda que por um instante, a ilusão de que conhecemos inteiramente o mundo e restitui às coisas a intensidade que a familiaridade havia silenciosamente encoberto.

É então que a palavra reencontra sua natureza primeira.

Os grandes poetas não descrevem simplesmente o mundo. Ampliam sua possibilidade de existir. A linguagem cotidiana tende a estabilizar significados; o poema devolve-lhes movimento. Não explica o mistério: impede que ele desapareça sob o excesso das explicações.

Filosofia e poesia caminham próximas desde suas origens. A primeira interroga o ser por meio do conceito; a segunda, pela imagem. Uma procura compreender discursivamente; a outra torna sensível aquilo que nenhuma definição consegue esgotar. Ambas nascem da mesma inquietação: compreender o lugar humano diante da existência.

Como observou Octavio Paz, o poema devolve o homem a uma dimensão inaugural da linguagem e do mundo. Cada verdadeiro poema desloca discretamente o centro da realidade e, nesse pequeno deslocamento, inaugura uma nova forma de presença.

Assim compreendida, a poesia deixa de ser apenas um gênero literário entre outros.

Converte-se em uma forma singular de conhecimento.

Não um conhecimento que reduz o real a definições, mas aquele que reconhece, na metáfora, uma das formas mais profundas de produção de sentido. Como observa Paul Ricoeur, o poema não encerra o significado: inaugura uma experiência interpretativa. Cada leitura torna-se um novo acontecimento da obra.

Talvez por isso determinados livros permaneçam vivos muito depois de publicados. Deixam de pertencer apenas ao tempo em que foram escritos para ingressar naquela longa conversação da cultura em que cada geração reencontra perguntas que julgava novas. Como compreendeu Hans-Georg Gadamer, toda leitura realiza um encontro entre horizontes: a obra chega até nós trazendo o seu tempo, e nós a recebemos a partir do nosso. O livro permanece; quem muda somos nós.

Ler nunca significa regressar exatamente ao mesmo livro.

Significa descobrir que, de algum modo, ele cresceu conosco.

É nesse horizonte que deve ser situado O Mundo começa no azul, depois daquelas montanhas.

Desde os primeiros poemas, torna-se evidente que não estamos diante de uma simples reunião de textos líricos. Há nesta obra uma arquitetura invisível que organiza imagens, ritmos e símbolos. Amor, infância, morte, religiosidade, memória, cidades, rios, montanhas, pássaros, tambores, música, viagem, silêncio e esperança reaparecem continuamente, não como temas isolados, mas como elementos de uma mesma respiração poética.

Talvez resida justamente aí uma das singularidades mais profundas da escrita de Carlos Kahê.

À primeira vista, o azul anunciado no título parece ocupar o centro da obra. Uma leitura mais atenta, porém, revela outra configuração. O azul não constitui um ponto de chegada, mas um ponto de fuga. Tudo caminha em sua direção sem jamais possuí-lo completamente. As montanhas não encerram o horizonte: anunciam aquilo que permanece além delas. Os rios conduzem ao tempo. As estradas aproximam experiências. Os pássaros tornam visível o antigo desejo humano de ultrapassar os próprios limites.

O mundo, afinal, não começa onde já chegamos.

Começa sempre um pouco além.

Talvez seja exatamente essa a promessa inscrita no título.

Existem títulos que apenas identificam uma obra. Outros já constituem, por si mesmos, um primeiro poema. O Mundo começa no azul, depois daquelas montanhas pertence, inequivocamente, a essa segunda categoria.

Antes mesmo de conhecermos seus versos, somos convidados a atravessar uma experiência de linguagem. O título não descreve apenas uma paisagem; formula, silenciosamente, uma hipótese sobre a própria existência.

O mundo não começa onde estamos.

Começa sempre além.

A poesia restitui ao horizonte sua condição de promessa. Onde o pensamento acredita encontrar um limite, o poema descobre uma passagem.

As montanhas evocadas pelo título não funcionam como barreiras.

Funcionam como limiares.

Marcam o ponto em que a experiência presente deixa de bastar e começa aquilo que ainda permanece por descobrir. Desde antigas tradições, a montanha simboliza revelação e transformação. Carlos Kahê reinscreve essa força simbólica em sua própria paisagem poética sem reproduzi-la. Em seus poemas, a ascensão acontece pela memória, pela contemplação, pelo afeto e pela palavra. Cada poema pode ser lido como uma discreta travessia interior.

É nesse ponto que o azul adquire sua dimensão mais profunda.

Na tradição artística, essa cor frequentemente se associa ao infinito, à contemplação e à transcendência. Nesta obra, porém, o azul representa sobretudo aquilo que permanece adiante de nós: o espaço da possibilidade, a região onde o mundo continua inacabado.

Quanto mais caminhamos em sua direção, mais ele se afasta, como acontece com o próprio horizonte. Esse permanente adiamento, entretanto, não é uma frustração. É a condição da esperança.

O horizonte não existe para ser possuído.

Existe para manter vivo o movimento da caminhada.

Essa compreensão modifica profundamente a leitura do livro.

À primeira vista, poderíamos imaginar que sua arquitetura repousa sobre grandes temas: infância, amor, memória, morte, religiosidade, natureza ou identidade regional. Todos eles atravessam os poemas, mas nenhum constitui, isoladamente, seu princípio organizador.

O que confere unidade à obra é outra coisa.

É o movimento.

Tudo circula.

Os rios.

As aves.

As estradas.

As cidades.

As vozes.

Os tambores.

As canções.

As viagens.

Os afetos.

As lembranças.

Até mesmo os mortos continuam caminhando discretamente entre os vivos, como presenças que o tempo não conseguiu extinguir.

Não encontramos aqui uma poesia de imagens imóveis.

Encontramos uma poesia da travessia.

Essa mobilidade manifesta-se também na geografia do livro. Embora profundamente enraizada no Sul da Bahia, a obra jamais se deixa limitar por um único território. Suas paisagens dialogam com outras tradições culturais, literárias e artísticas. O espaço geográfico deixa de obedecer aos limites do mapa para converter-se em espaço da imaginação.

É justamente essa abertura que impede qualquer leitura estreitamente regionalista.

A Bahia presente nestes poemas não surge como simples cenário ou repertório folclórico. Torna-se experiência sensível da paisagem. O território transforma-se em linguagem; as cidades, em memória; os rios, em medida do tempo; as montanhas, em figura da distância entre aquilo que somos e aquilo que ainda podemos vir a ser.

A geografia deixa de indicar apenas lugares.

Passa a revelar estados da consciência.

Talvez por isso o livro produza uma impressão tão singular. Em seus poemas, as paisagens parecem adquirir pensamento e memória. As árvores recordam. Os rios narram. O vento transporta vozes antigas. A chuva restitui presenças. As montanhas interrogam silenciosamente o caminhante.

Natureza e consciência deixam de ocupar esferas separadas.

Uma passa a respirar dentro da outra.

Existe, assim, uma secreta continuidade entre o movimento da terra e o movimento da existência.

Cada rio prepara outra travessia.

Cada montanha anuncia outro horizonte.

Cada estrada conduz a uma nova memória.

Cada pássaro prolonga um antigo desejo de liberdade.

Cada poema abre caminho para o seguinte.

Pouco a pouco, o leitor percebe que não está diante de cinquenta e seis composições independentes, mas de um organismo poético cuja unidade nasce da circulação contínua de seus símbolos.

É então que compreendemos a verdadeira força do título.

O azul jamais designa apenas uma cor.

Nem apenas um céu.

Nem apenas uma paisagem.

Representa a região da existência onde o mundo permanece aberto ao inesperado.

Talvez por isso continue existindo sempre depois daquelas montanhas.

Porque a poesia, assim como o horizonte, nunca termina onde nossos olhos conseguem alcançar.

Silenciosamente, uma palavra atravessa todo este livro.

Nem sempre aparece escrita. Muitas vezes permanece escondida entre uma paisagem, um rio, uma árvore, uma canção, uma rua ou uma voz que insiste em sobreviver ao tempo.

Essa palavra é memória.

Não apenas lembrança do passado.

Mas permanência.

Como compreendeu Henri Bergson, o passado continua vivendo naquilo que somos. Também em Carlos Kahê a memória não recompõe um arquivo; mantém diferentes tempos convivendo na mesma experiência poética. A infância dialoga com a maturidade. Os mortos permanecem entre os vivos. As cidades guardam vozes antigas. O ontem infiltra-se continuamente no hoje.

Por isso, esta não é uma poesia voltada para trás.

É uma poesia que faz o passado caminhar.

Nada parece definitivamente encerrado.

Tudo continua respirando sob novas formas.

Essa compreensão aproxima a obra de uma tradição importante da poesia brasileira. Encontramos ressonâncias possíveis em Drummond, Bandeira, Jorge de Lima, Manoel de Barros e Adélia Prado. Não como influência direta, mas como diálogo. Carlos Kahê preserva uma voz própria, nascida do Sul da Bahia, capaz de transformar a paisagem regional em paisagem da consciência e de alcançar, a partir dela, uma dimensão verdadeiramente universal.

É nesse movimento que a poesia de Carlos Kahê alcança sua maior amplitude.

Ao longo da leitura, percebemos que o livro estabelece uma circulação permanente entre diferentes experiências culturais. A tradição afro-brasileira dialoga com outros universos literários e artísticos; a religiosidade popular encontra a reflexão filosófica; a oralidade encontra a escrita; o rio encontra a cidade; o quintal comunica-se com o mundo. A Bahia permanece intensamente presente, mas nunca fechada sobre si mesma. Ao contrário, abre-se continuamente ao encontro de outras geografias, outras vozes e outras memórias.

Essa abertura confere à obra uma notável amplitude cultural. O poeta parece compreender que nenhuma identidade permanece viva quando se isola. As culturas respiram porque dialogam. Também a memória necessita desse movimento: quando deixa de circular, transforma-se em vestígio; quando continua sendo recriada, permanece cultura viva.

Poucas linguagens exprimem essa circulação de maneira tão intensa quanto a música.

Não por acaso, ela atravessa discretamente todo este livro.

Mesmo quando não aparece explicitamente nomeada, sustenta o ritmo de muitos poemas. Existe uma pulsação que aproxima a escrita da respiração, da canção, da cadência da fala e das tradições da oralidade. As imagens retornam como motivos musicais; os símbolos reaparecem enriquecidos pela experiência da leitura, como acontece numa composição em que uma mesma melodia ressurge sob diferentes harmonias.

Por isso, dificilmente esta obra pode ser lida como uma reunião ocasional de poemas.

Ela possui arquitetura.

Cada texto estabelece relações com os demais.

Cada imagem prepara novas ressonâncias.

Cada símbolo regressa transformado.

O livro respira como uma única obra.

Não encontramos apenas cinquenta e cinco poemas.

Encontramos cinquenta e cinco movimentos de uma mesma composição poética.

Talvez seja essa uma das razões pelas quais a leitura produz uma impressão tão singular. Não acompanhamos apenas a memória de um poeta. Participamos da memória de uma cultura e, mais do que isso, de uma experiência profundamente humana, na qual indivíduo, paisagem, linguagem e história permanecem inseparáveis.

É nesse ponto que a poesia de Carlos Kahê ultrapassa os limites do testemunho pessoal.

Ela deixa de revelar apenas uma existência.

Passa a sugerir uma maneira de habitar o mundo.

Talvez seja essa uma das vocações das obras destinadas à permanência.

Elas não nos ensinam apenas a recordar.

Ensinam-nos a continuar vivendo aquilo que parecia perdido.

Nenhum grande livro se oferece inteiramente à primeira leitura.

Há obras que comunicam imediatamente aquilo que desejam dizer. Outras pedem demora. Exigem retorno. Permanecem abertas a novas descobertas.

O Mundo começa no azul, depois daquelas montanhas pertence a essa tradição.

Cada reencontro com seus poemas modifica discretamente nossa compreensão do conjunto. Um verso revela profundidades inesperadas. Uma imagem transforma-se em símbolo. Uma palavra regressa revestida de novos sentidos. Pouco a pouco, compreendemos que o verdadeiro movimento da obra acontece também dentro daquele que a lê.

Como observaram Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser, a leitura nunca consiste apenas em receber um significado já concluído. Toda obra permanece aberta à participação do leitor. É nesse diálogo silencioso que a literatura continua vivendo através do tempo.

A poesia de Carlos Kahê realiza esse processo com delicadeza.

Ela não impõe uma única interpretação.

Sugere.

Insinua.

Convida.

Seus poemas não conduzem o leitor por um caminho inteiramente delimitado.

Abrem-lhe veredas.

Cada imagem conserva liberdade suficiente para acolher diferentes experiências de leitura. Um rio poderá significar memória, tempo, infância, viagem ou esperança. Uma montanha poderá representar obstáculo, ascensão ou horizonte. O azul poderá sugerir transcendência, liberdade, promessa ou o mistério que permanece além de todas as palavras.

Essa abertura constitui uma das condições de permanência da obra literária.

Os livros que atravessam o tempo raramente o fazem porque oferecem respostas definitivas. Permanecem vivos porque continuam produzindo perguntas. Cada geração reencontra neles inquietações diferentes, porque conservam uma reserva de sentido que nunca se esgota.

Como observa Paul Ricoeur, a leitura também é abertura para mundos possíveis. Não lemos apenas para compreender um texto, mas para ampliar nossa compreensão da existência.

É isso que acontece neste livro.

Ao acompanhar seus poemas, não atravessamos apenas paisagens.

Atravessamos modos de olhar.

Ao final da leitura, percebemos que não aprendemos apenas alguma coisa sobre o universo poético de Carlos Kahê.

Descobrimos, talvez, alguma coisa sobre nós mesmos.

Essa é uma das realizações mais altas da poesia.

Ela não produz apenas identificação.

Produz reconhecimento.

O leitor deixa de perguntar apenas quem fala no poema para perceber que, de algum modo, também é interrogado por ele.

É nesse sentido que a poesia de Carlos Kahê dialoga com uma das tradições mais fecundas da lírica brasileira. Ha ressonâncias possíveis em poetas consagrados, acima citados, mas são aproximações, não filiações. Sua voz nasce de outra experiência histórica, cultural e geográfica e ingressa na tradição sem renunciar ao território de onde fala.

Há ainda uma qualidade particularmente significativa em sua escrita.

A erudição jamais se transforma em espetáculo.

As referências culturais, filosóficas, religiosas e artísticas aparecem incorporadas à própria experiência poética. Não se oferecem como demonstração de conhecimento, mas como ampliação do campo de ressonância das imagens. A cultura aproxima o leitor da obra, em vez de afastá-lo.

Num tempo marcado pela velocidade e pela dispersão, a poesia de Carlos Kahê realiza um gesto discretamente contracultural.

Ela devolve ao leitor o direito da lentidão.

Seus versos pedem contemplação.

Não foram feitos apenas para ser lidos.

Precisam ser habitados.

Ler este livro significa aceitar outro ritmo.

O ritmo da escuta.

O ritmo da memória.

O ritmo da paisagem.

O ritmo das coisas que amadurecem lentamente.

Talvez por isso a releitura ocupe lugar tão importante na experiência poética.

Reler não significa repetir uma leitura.

Significa regressar ao mesmo poema depois que a vida nos transformou.

O texto permanece.

Nós mudamos.

E é justamente nesse encontro entre a permanência da obra e a transformação do leitor que a literatura revela uma de suas forças mais profundas.

E, quando regressamos a determinados livros, descobrimos que eles também parecem ter atravessado o tempo. Não porque suas palavras tenham mudado, mas porque novos sentidos se tornaram possíveis no encontro entre aquilo que o texto conserva e aquilo que a vida acrescentou ao leitor.

O Mundo começa no azul, depois daquelas montanhas convida a esse tipo de permanência.

Não é um livro que se atravesse com pressa.

É um livro ao qual se regressa.

Um poema hoje.

Outro amanhã.

Um verso guardado na memória.

Uma imagem reencontrada durante uma caminhada.

Uma palavra que retorna quando contemplamos uma montanha ou percebemos, no fim da tarde, uma tonalidade de azul que julgávamos conhecer.

É assim que determinados livros deixam de ocupar apenas as estantes.

Passam a ocupar a memória.

E, quando isso acontece, a literatura transforma-se em experiência vivida.

No fundo, toda grande poesia nos ensina a olhar novamente.

É também isso que esta obra realiza.

Depois de sua leitura, o céu permanece azul.

As montanhas continuam erguidas.

Os rios seguem seu curso.

As cidades conservam suas ruas.

Entretanto, já não são exatamente os mesmos.

Porque também o leitor deixou de ser.

A verdadeira literatura opera transformações silenciosas.

Não modifica o mundo pela força.

Modifica nossa maneira de percebê-lo.

Toda grande obra literária realiza, ao fim, um gesto discreto.

Ela nos devolve ao mundo.

Ao longo destas páginas, acompanhamos rios, montanhas, cidades, pássaros, árvores, tambores, canções, lembranças, encontros e despedidas. Percorremos geografias exteriores e interiores que, pouco a pouco, revelam uma dimensão universal da experiência humana.

Nada existe isoladamente.

Cada imagem responde a outra.

Cada poema prolonga um caminho.

Cada memória permanece aberta ao futuro.

Talvez esteja aí uma das conquistas mais delicadas da escrita de Carlos Kahê.

Ela nos recorda que existir não significa apenas ocupar um lugar.

Significa pertencer a uma corrente.

Somos atravessados por vozes que nos antecederam, por afetos que nos constituíram e por paisagens que continuam respirando dentro de nós.

Nesse sentido, este livro celebra mais do que a memória.

Celebra a continuidade da vida.

Aquilo que parecia perdido reaparece sob novas formas.

A infância permanece na maturidade.

Os mortos permanecem naquilo que deixaram em nós.

A cultura renova-se sempre que um legado é recebido, reinterpretado e transmitido.

Talvez seja por isso que Carlos Kahê não escreva para afirmar certezas.

Escreve para conservar perguntas.

Seus poemas não encerram o mistério.

Convidam-nos a habitá-lo.

Num tempo marcado pela velocidade e pela dispersão, sua poesia devolve à linguagem a vocação da contemplação.

Recorda-nos que compreender exige demora.

Que ouvir exige silêncio.

Que a beleza raramente se revela àquele que apenas passa.

É preciso permanecer.

Ler não significa apenas percorrer páginas.

Significa permitir que elas nos atravessem.

É essa experiência que aguarda o leitor deste livro.

Ao iniciá-lo, talvez imagine encontrar apenas poemas.

Encontrará muito mais.

Encontrará uma poesia profundamente enraizada na terra baiana e, justamente por isso, capaz de ultrapassar suas fronteiras.

Porque o universal, em literatura, não nasce da renúncia às próprias raízes.

Nasce da fidelidade a elas.

Quando uma obra mergulha profundamente em seu lugar de origem, encontra aquilo que pode ser reconhecido por qualquer leitor.

É assim que uma rua pode conter o mundo.

Que um rio pode falar do tempo.

Que uma árvore pode guardar uma genealogia.

Que uma montanha pode representar todas as distâncias.

Que uma lembrança particular pode despertar a memória de alguém desconhecido.

A literatura não precisa renunciar às raízes para alcançar o mundo.

Pode alcançá-lo justamente porque mergulha nelas.

Carlos Kahê compreende essa verdade.

Sua poesia nasce das águas, das estradas, das montanhas, das vozes e da memória do Sul da Bahia, mas recusa qualquer confinamento regional. O território não funciona como fronteira.

Funciona como origem.

E toda verdadeira origem contém uma possibilidade de viagem.

Talvez seja por isso que, depois de tantas páginas, rios, pássaros, cidades, vozes, tambores, lembranças e caminhos, seja necessário regressar ao princípio.

Regressar ao azul.

Regressar às montanhas.

Regressar àquela frase que, antes mesmo do primeiro poema, já nos havia colocado em movimento:

O Mundo começa no azul, depois daquelas montanhas.

Agora, porém, já não a lemos da mesma maneira.

No início, talvez víssemos apenas uma bela imagem.

Depois da travessia, percebemos que ela contém uma poética.

O mundo nunca começa exatamente onde acreditamos que começa.

Há sempre alguma coisa depois.

Depois da montanha, o azul.

Depois do azul, outro horizonte.

Depois do horizonte, aquilo que ainda não sabemos nomear.

É precisamente porque não conseguimos nomeá-lo inteiramente que continuamos caminhando.

Talvez seja essa a mais bela promessa deste livro.

Sempre existe outra montanha.

Outro horizonte.

Outra paisagem.

Outra memória.

Outra palavra.

Outro poema.

O azul permanece diante de nós não como um lugar que um dia possuiremos, mas como a promessa de que a existência jamais se esgota naquilo que já conhecemos.

A poesia não elimina o mistério.

Também não precisa explicá-lo.

Ensina-nos algo talvez mais difícil:

permanecer diante dele.

Contemplá-lo.

Escutá-lo.

Aceitar que existem dimensões da experiência que não precisam ser inteiramente decifradas para serem profundamente verdadeiras.

Quando aprendemos a habitar esse território, compreendemos que o mundo continua começando, todos os dias, um pouco além da última montanha.

Que o leitor aceite, portanto, este convite.

Não para encontrar respostas.

Mas para caminhar.

Que atravesse estas páginas como quem percorre uma paisagem sem desejar conhecê-la depressa demais.

Que escute os rios.

Que acompanhe os pássaros.

Que reconheça as vozes.

Que se detenha diante das montanhas.

E que, quando finalmente encontrar o azul, não pergunte apenas onde ele termina.

Pergunte-se o que começa depois dele.

Porque existem livros que terminam quando fechamos a última página.

E existem livros que apenas então começam.

Este é um deles.

 

 

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