Fernando
Pessoa
Quantos
seres habitam dentro de nós?
Quem
é você quando ninguém está olhando?
Quem
é você quando até você se esquece de si mesmo?
Não.
Isso não é só uma crise existencial.
Pode
ser uma radiografia da alma humana que pode se desdobrar em atos, palavras,
versos e atitudes.
“Viver
não é necessário. Necessário é criar.
Bernardo
Soares, múltiplo de Fernando Pessoa escreveu isto, no livro do Desassossego.
Há
quem passe noites acordado, perguntando quem de fato habita o corpo que ele
habita.
Fernando
Pessoa pode ter dito que havia dias em que ele se olhava no espelho, sem saber exatamente
quem o estava olhando de volta.
Parece
delírio dramático. Crise de identidade adolescente. Sim. Mas é uma sensação
visceral profunda, existencial de perceber que dentro de nós não há uma
entidade única e sólida, mas uma verdadeira assembleia de vozes, uma polifonia
de desejos, aspirações e reações que se chocam com o nosso ponto central.
Há
quem acredite que, se pararmos para nos escutar, possivelmente encontraremos personagens
que se revezam em nosso comportamento. Basta ver as nossas reações e atitudes.
Fernando
Pessoa não só percebeu. Ele deu nomes a essas presenças. Deu-lhes história,
estilo, ideologia, signo, e foi além da literatura: ele fez da sua própria
existência uma arquitetura de identidades.
O
poeta Pessoa, foi nascida em Lisboa, em 1888. Um homem cuja vida transcorreu
entre a burocracia do escritório e o abismo da metafísica. Ele não se casou,
não teve filhos e viveu entre livros e papéis. Morreu cedo, aos 47 anos e nesse
curto intervalo de existência, ele produziu um acervo plural, inquietantes, multifacetado,
sem parâmetros na língua portuguesa. Em seu bojo criativo e inquieto, ele fez ressaltar
os famosos heterônimos: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e
Bernardo Soares, além de muitos outros.
Destes
mais notáveis, a cada um ele projetou uma biografia, com doutrinas distintas e
filosofias próprias. Cada com um com seu estilo literário autêntico. Esta
talvez fosse sua obsessão e método. Sobretudo, reconhecimento radical de que o seu
fazer literário extrapolava a essência, e se transformava numa construção
frágil, mutável e fluída. Bem, dali, se
isso tudo soasse distante ou poético demais, tudo seria desaguado em seu feito.
Na
vida prática, pode haver alguém que já se pegou desejando ser outra pessoa, ou se
sentiu estrangeiro dentro da sua própria rotina. Há quem voe a pensamentos não
reconhecíveis, mas que insistem em habitar o seu imaginário.
Como
estamos falando de Fernando Pessoa, vamos nos restringir ao seu processo
criativo. Ele deu forma ao caos interno, e sua própria pena escreveu: “Tudo
quanto vivi e sonhei ou li, tudo isso sou eu. Essa frase parece simples,
mas ela esconde uma revelação filosófica devastadora. Nós somos feitos, não
apenas do que experimentamos, mas, também do que imaginamos; possivelmente do
que recusamos ou desejamos; e até do que esquecemos.
O
nosso itinerário de vida pode não ser uma linha contínua. Pode ser um
arquipélago de fragmentos flutuantes. Pessoa dizia que ele mesmo, por diversas
vezes, percebeu-se reagindo com espanto há coisas que ele mesmo fazia. Era como
se o autor da ação fosse um outro, um alguém que agiu sobre as suas vontades, antecipando-o,
falando por ele. Muitas vezes se sentiu confiante e ousado, e a esse mistério
ou espírito impostor, ele deu o nome de Álvaro de Campos.
Nas
euforias, nos momentos em que desejava tomar o mundo com as mãos, ele deu a
esse, o nome de Ricardo Reis. Ricardo, ao mesmo tempo em que se assemelhava a uma
locomotiva, em outros ele acordava contemplativo, preferindo a medida o
silêncio a moderação. Entretanto, quando acordava brigado com o mundo, e ao pôr
a escova na boca, ele desejava desaparecer ou internar-se em um anonimato
melancólico, ele se entregava a Bernardo Soares: este aceitava o tédio como
forma superior de lucidez. E essas configurações não se projetavam apenas por
estados de espírito; também, por expressões originadas de alguém retido naquele
sentimento; e que se revezavam conforme o mundo exigia, e isso o obrigava a manter
uma coerência inquebrável entre aquilo que era, e aquilo que se mostrava.
Em
Além do Bem e do Mal, Nietzsche diz que todo o profundo espírito precisa de uma
máscara. Pessoa compreendeu isso com uma profundidade rara. Nunca houve um EU
definitivo. Há versões que se alteram, conforme a circunstância; conforme a dor,
conforme a motivação. Os heterônimos, portanto, não foram criados para ser uma
fuga da realidade, mas uma forma de dar vida às vidas que nele se projetava. Mergulho fundo que não o obrigava a fugir de
si mesmo; pelo contrário, investigava-se até o osso; até o grito mudo da alma.
Ler
os poemas de Fernando Pessoa é a maneira de estender a Literatura ao diário
íntimo da multiplicidade humana. Dizem que esta é a chave que pouca gente
segura com firmeza, pois não há virtude em ser apenas um. O mundo com sua
lógica simplificadora tenta nos encaixar em rótulos. Arquétipos. Categorias. A
alma humana é irreduzível. Aquele que insiste em ser sempre o mesmo, que nunca
se permite ser outro, que nunca escuta as suas contradições internas, esses
correm o maior dos riscos, pois tornam-se um personagem de si mesmo.
Pessoa,
apesar da vida anônima, engendrou em sua obra a visão da coragem de deixar de
ser alguém para ser todos. Ele entendeu isto e resolveu não fingir ou fingir-se
de louco, ele renunciou à coerência, ao aceitar que dentro dele havia
movimentos. A mente moderna é um labirinto onde o próprio Minotauro somos nós.
Nós
andamos por corredores internos, escuros ouvindo ecos das nossas próprias
decisões, sem saber de onde vieram, nem para onde nos leva. Pessoa nos coloca
diante de um espelho de ângulos múltiplos, impossível de capturar com um único
olhar.
Álvaro
de Campos escreveu: “Sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha
altura”.
É
a sua maneira de anunciar a revolta do espírito contra as amarras do corpo, da
carne, da identidade. Ele nos impõe a pensar que, desde o primeiro choro, o EU
lírico deixa de ser uma unidade e passa a ser um território em disputa
constante. E não é isso que vivemos todos os dias? Vivemos um teatro permanente,
onde encenamos papéis diversos para plateias invisíveis. Em sua vasta obra, ele
nos entrega uma cosmogonia de subjetividades; um universo inteiro encapsulado
num só corpo, sempre à beira da ruptura.
Alberto Caeiro foi o mestre dos seus heterônimos.
Ele representava uma espécie de profeta pastoral, que rejeita a metafísica, despreza
as abstrações e abraça a concretude do mundo visível.
Caeiro
é aquele que ensina que pensar é estar doente dos olhos. Ele é o antídoto ao
excesso de consciência e o veneno da super interpretação. Tudo é o que é. Um
campo é apenas um campo. Um rio não é metáfora para o tempo. O rio é água
corrente e mais nada. Há uma beleza brutal e libertadora aí. Ao mesmo tempo, há
um incômodo que exige que paremos de procurar significado onde só existe a
evidência do ser.
No
extremo oposto, Ricardo Reis, classicista, estoico, admirador de Horácio,
oferece a elegância da renúncia; a contenção como virtude. Seu tom é o da voz
que fala em baixa frequência; que prefere o domínio das paixões ao
extravasamento sábio; Ricardo é o que se contenta com o espetáculo do mundo e
escreve: “Mas será mesmo possível contentar-se com isso quando o mundo
dentro de nós é uma tempestade contínua?”
Ele
tenta conter o mar com uma taça de vinho. Nomear o caos com versos lapidados em
ouro frio. Seu lirismo é quase um exercício de negação, e, ainda assim,
profundamente humano. Quantas vezes diante do excesso de sentir, a gente não
deseja apenas calar, fingir que a calma é possível; fingir que estamos acima do
tumulto?
Álvaro
de Campos é o nervo exposto. É o grito urbano, o engenheiro da alma dilacerada.
Seus poemas são explosões; sua linguagem é febril, sua emoção é combustível. Em
Ode Triunfal, ele exalta a máquina, a velocidade, os motores como se quisesse
fundir-se ao metal e escapar do peso insuportável de ser gente. Álvaro é a alma
do século vinte gritando no vazio da industrialização, da modernidade, da perda
do sagrado.
No
fundo, tudo o que ele quer é não sentir: “Não sou nada. Nunca serei nada”.
Diz ele em Tabacaria, e não há ali pose ou exagero. É a verdade crua de uma
lucidez que corrói. É o que sobra,
quando o sentido desabafa; quando todas as certezas se mostram frágeis; quando
até o próprio nome parece um peso. Campos é a face que emerge, quando a ilusão
de controle desaparece.
Bernardo
Soares, autor do livro do Desassossego – um diário fragmentado de sensações e pensamentos
quase vazios, é talvez o mais próximo de Pessoa, por ser silencioso, por ser o
homem que caminha pelas ruas, sem deixar rastro. Bernardo vive no interstício,
entre a vigília e o sonho, e os seus escritos não contam uma história; eles
esboçam um estado de alma: “Tenho em mim um universo, mas não sei de que as estrelas
são feitas”. Essa frase poderia ser
um sussurro perdido no ruído da vida. Pode ser uma confissão universal, porque,
no fundo, não sabemos quem somos nem o que queremos nem de onde viemos.
Soares
é a voz de todos que caminham no automático; dos que vivem na superfície e
encontram nas suas profundezas mares revoltosos – de pensamentos ou desejos –
mas sempre revoltosos. Em cada um desses heterônimos há um modo de se estar no
mundo, porém há também o modo e o medo de não os poder carregar.
Essa
polifonia interior não é anomalia: é regra. A unidade em nós é uma ilusão
confortável.
Não
é sobre medo ou coragem. Não é também uma teoria condenatória, pode ser uma
dúvida em estado de sensação que permanece silenciosa. E ela começa cedo desde
a infância, justo instante em que somos empurrados para dentro dos moldes: ser
bom aluno, ser obediente, ser forte, gentil, competitivo, bem-sucedido e sensato.
Este são nossos cadáveres vivos: escolha o seu. Cada um de nós carrega pesos de
expectativas imprudentes; todos nós aprendemos a nos adaptar, a recortar partes
de nós que incomodam, que não combinam com a nossa natureza. Se bate o
desespero, começamos a nos performar, a vestir máscaras com frequência, que até
esquecemos de levar o nosso rosto para debaixo delas.
Fernando
Pessoa inverteu as regras: em vez de esconder seus rostos múltiplos ele os
nomeou, assinou suas vozes com nomes distintos como se a dizer isso é potência,
e é tão imensa que o levou a ser muitos sem poder ser nenhum. Atenção, porque a
sociedade exige coerência, linearidade, respostas claras. Literatura brinca com
esse tipo de lucidez, e o ser humano é um organismo contraditório, de vontades
opostas e emoções que se sabotam.
A
teoria pregada aqui não foi feita para caber em narrativa simples. Pessoa
compreendeu isso com um senso quase profético, de não buscar a síntese; não
cogitar de conciliação. Ele se achando livre, preferia o conflito, a colisão
entre os seus e a inquietação era sua bússola.
Em
uma carta célebre, ele escreveu: “Tenho em mim todos os sonhos do mundo e quem
carrega todos os sonhos do mundo carrega também todos os abismos porque sonhar
é arriscar-se ao impossível e o impossível cobra caro; cobra com insônia,
angústia, desapego e solidão. O mundo lá fora, com sua pressa e pragmatismo,
ridiculariza essa sensibilidade profunda; chama de confuso quem se contradiz;
chama de perdido, quem ousa duvidar de si, mas há a dúvida, essa maravilhosa e
dolorosa maneira de pensamento.
A
dúvida nos mantém humanos. Ela nos impede de cair no dogmatismo, na rigidez
emocional, na estupidez satisfeita. Pessoa foi um colecionador de pontos de
vista. Em vez de disfarce, cada heterônimo tinha um olhar específico sobre o
mundo. Enquanto o mundo exigia estabilidade, ele entregava o desequilíbrio;
enquanto o mundo celebrava verdades absolutas ele cultivava a dúvida eterna.
Talvez, por isso, a sua obra permaneça tão atual e tão necessária.
Vivemos
tempos em que se cobra uma identidade coesa, uma narrativa pessoal vendável, o
marketing de si mesmo, além de minibiografias como declaração ou aferição de importâncias.
Mas, para que servem essas exaltações, cara pálida? quando continuamos impactados
por forças que não compreendemos, patamares e roteiros de mundos que jamais
conseguiremos pisar?
Ainda
há uma criança dentro de nós que quer colo; há um rebelde em nós, que deseja
explodir; há um poeta que sussurra, há um vento operário que repete tarefas de
tédio. Ignorar tudo isso é negar a própria respiração. Por isso, não ignore as
vozes internas. Escute-as. Dê-lhes espaço para que falem ou criem e terás a
certeza de que há uma coragem rara nesse gesto; coragem de abdicar de uma
imagem sólida de si mesmo para abraçar o mistério; coragem de se desconstruir,
sem prometer reconstrução.
“A
minha alma é um tumulto de gente passando, e me atravessa como uma navalha
delicada”. Essa frase está no livro Desassossego. É uma sensação que pode
ocorrer a cada um de nós. Há dias ou momentos em que a gente não se reconhece. Agimos
por impulso. A força extraordinária vem e nos atravessa. Não estamos (aqui)
tratando de esquizofrenia. Mas, a nossa voz soa estranha, e os pensamentos
parecem vir de outra mente e chegamos até a cometer atitudes que naquele
momento fogem ao nosso controle. Não fomos feitos para ser coerentes o tempo
inteiro. Há em nós uma vastidão que assusta. Se soubermos mapear essa vastidão
com a única bússola confiável, a da sensibilidade, a transformaremos em poesia.
As
palavras de um poeta sensível têm a capacidade dos bisturis, de cortar o verniz
da superfície e expor o que está por baixo do caos magnífico, que compõe o
nosso ser. Isso o incomoda? O bastante é saber que vivemos uma eterna busca,
que seja, mas que nos leve a entender da física nuclear ao verdadeiro nome que
os monges deram à rosa. Não importa. Importa é buscar a estabilidade diária:
esta é uma busca eterna; esta é a característica essencial da consciência do
ser humano: buscar equilíbrios, quando somos múltiplos. Temos vozes múltiplas. Buscamos
os mundos de sonhos vivendo no inferno.
Há
essa espécie de tragédia silenciosa de viver tentando encontrar uma versão
definitiva de nós mesmos, ou seja, encapsular a alma de uma forma que nos agrade;
que se encaixe e que sirva aos olhos do outro como um produto que se pode
comprar, descrever, etiquetar. E nunca esquecer de que o ser humano é um projeto inacabado, e não
veio ao mundo para ser fixo. Pelo contrário, somos marés, mutações ou
metamorfose sucessivas.
Fernando
Pessoa se recusou a trair essa verdade em nome da conveniência, porque, ao
invés de mascarar essa multiplicidade ele escancarava seus inúmeros espíritos:
permitia que cada um deles escrevesse, sentisse, sonhasse, sofresse. Era como
se cada parte sua tivesse o direito de existir por inteiro, mesmo que isso
custasse a coesão de uma identidade única, e talvez por isso, sua obra seja tão
incômoda por desmontar a ilusão confortável da unidade pessoal, embora saibamos
que a sociedade não quer dar espetáculo.
Na
realidade dura da vida, tudo precisa ter uma narrativa clara que saiba conviver
com a normalidade. Pessoa, neste parâmetro, representa uma anomalia vital que não
cabe em sinopses; não serve ao marketing existencial. Ele é o oposto da selfie:
ele é um sujeito que se desfaz, enquanto escreve. Era o homem que dizia sem
ironia, sinto-me múltiplo; sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos
que torcem para reflexos falsos; uma realidade que não está em ninguém e está
em todos.
Essa frase poética é uma radiografia da alma moderna,
pois vivemos cercados de espelhos ou redes sociais; expectativas familiares,
profissões, amores, fracassos, e cada um refletindo um fragmento diferente,
contraditório e incompleto, que nos leva a debatermos com o simples desejo de sermos
únicos, numa realidade em que somos muitos.
O
erro, talvez esteja em tentarmos escolher algo que seja profundo e libertador,
quando não há um eu eterno aguardando ser descoberto. Pessoa não buscava no
centro, ele acolhia os seus extremos. Sua genialidade não estava em resolver-se,
mas em criar espaço para cada parte sua ganhar voz, papel, respiração,
portanto, ler Pessoa é abrir um livro em que cada página foi escrita por uma
alma diferente; não há linearidade nem harmonia no sentido clássico. Há um caos
orquestrado, uma polifonia existencial que exige do leitor, não apenas atenção,
mas entrega:
Cada
heterônimo, cada fragmento de texto não está ali para ser entendido como
personagem mas como o mundo interior autônomo; constelações afetivas, cada uma
com seu próprio céu e suas próprias tempestades.
Nós, leitores, nos vemos refletidos nessa arquitetura complexa porque no fundo também carregamos essas vozes há dias em que queremos desaparecer como Caeiro buscando paz no silêncio das folhas outros em que ansiamos por um discurso racional controlado como reis fingindo que o mundo é um palco digno de métrica e contenção amanhã sem que acordamos como Campos em fúria cheios de sede por velocidade intensidade ruptura E há noites em que como Soares apenas observamos o tédio e ator caminhando lado a lado como velhos conhecidos pessoa esse espelho estilhaçado que não nos devolve um reflexo mas uma constelação de rostos e cada um deles nos conhece melhor do que gostaríamos de admitir mas não se engane isso não é uma celebração da confusão é na verdade uma ética do autoconhecimento radical pessoa nos convida a abandonar as fórmulas prontas a desconfiar das certezas a mergulhar nesse abismo interior onde tudo coexiste medo e coragem ternura esse mesmo desejo e fuga porque só quando temos coragem de olhar para a pluralidade que nos habita é que começamos de fato a entender o que significa ser e não é confortável é brutal é como abrir uma ferida com as próprias mãos mas é também a única forma de escapar da mediocridade existencial porque não há nada mais triste do que passar pela vida como um personagem mal escrito raso previsível monótono quando se pode ser um épico fragmentado Fernando Pessoa com todos os seus nomes nos deixou mais do que poesia ele nos deixou um mapa torto e verdadeiro da condição humana um convite à insubmissão psicológica uma recusa firme as estruturas que nos reduzem a um só caminho uma só forma uma só alma isso meu amigo é revolução não com armas ou bandeiras mas com palavras afiadas como lâminas porque ao dizer tenho em mim todos os sonhos do mundo pessoa não está sendo hiperbólico ele está sendo honesto e essa honestidade quando levada às últimas consequências nos obriga a uma escolha ou seguimos fingindo que somos simples ou aceitamos que a complexidade é a mais pura forma de verdade que podemos alcançar o preço de ser múltiplo é muitas vezes a sensação de jamais ser compreendido por completo e Fernando Pessoa sabia disso com uma nitidez que beirava o martírio não era apenas poeta era a confissão viva um homem que ao invés de buscar a aceitação do mundo decidiu construir o seu próprio tribunal interno onde cada um dos seus eus julgava absolvia ou condenava os demais essa auto exposição impiedosa ou isolava não por falta de amor ao outro mas por excesso de profundidade a pessoa não queria ser lido com os olhos ele queria ser respirado com a alma queria que o leitor sentisse o que ele sentia o peso de carregar dentro do peito um coro de vozes cada uma clamando por sentido pois faço por eternidade ele não escrevia para agradar mas para sobreviver a escrita para ele era uma forma de dar conta do caos que lhe atravessava e talvez por isso fosse tão inquieta tão densamente viva era como se a cada verso ele arrancasse uma camada da própria carne na Esperança de que alguém em algum lugar entendesse que viver é uma tarefa insuportavelmente intensa quando se tem a alma aberta demais escrevo porque não sei agir sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram ou metade desse intervalo porque também a vida esse desabafo resume uma tragédia cotidiana que poucos têm coragem de encarar quantas vezes você se sentiu deslocado incompreendido como se sua essência estivesse sempre um passo atrás das palavras que usa para se explicar quantas vezes você se sentiu mais como um intervalo do que como uma presença a verdade é que estamos acostumados a disfarçar o que nos rasga vestimos personagens para o convívio social ajustamos nossas opiniões para evitar conflitos moldamos até nossas emoções para que caibam na embalagem do que é aceitável e assim vamos como equilibristas num fio invisível tentando manter uma coerência que nos adoeceu em silêncio as pessoas se recusava a esse teatro ele aceitava o desequilíbrio como regra e não como exceção e em sua obra especialmente no que escreveu sob o nome de Bernardo Soares há um cansaço melancólico que não é o da fadiga física mas o do espírito saturado de fingimento um cansaço que vem de pensar demais sentir demais ser demais um cansaço que talvez você conheça bem embora raramente admita porque admitir seria romper com a mentira confortável da estabilidade emocional seria dizer em voz alta que há dias em que não se sabe quem se é o que se quer para onde se vai seria confessar que a identidade é fluida que o sentido da vida oscila conforme a estação a lembrança ausência e essa confissão ainda hoje assusta porque vivemos numa cultura que idolatra a certeza a decisão a performance contínua de si mesmo como produto finalizado somos incentivados a montar vitrines de nós mesmos como se houvesse um eu definitivo a ser vendido ignorando que o eu verdadeiro é obra em processo rascunho perpétuo construção inacabadas a pessoa com sua coragem existencial fez na própria indecisão uma linguagem fez a dúvida uma estética fez do abismo um espelho e que espelho em sua escrita não há Redenção fácil não há finais felizes nem soluções para os dilemas da alma a sim uma entrega radical à experiência humana em sua forma mais crua como quando ele afirma com uma serenidade aterradora não sou nada nunca serei nada não posso querer ser nada a partir disso tenho em mim todos os sonhos do mundo percebe o paradoxo ele se reconhece vazio e ao mesmo tempo pleno de possibilidades é essa contradição que o torna tão próximo de nós porque também vivemos entre extremos ora nos sentimos insignificantes hora invencíveis ora nos escondemos do mundo ora queremos gritar para ele tudo o que somos pessoa apenas teve a coragem de escrever isso como te entreter se você chegou até aqui se sentiu essa incômoda familiaridade.
Quem
é você, quando se vê sozinho. Quem vc retira de dentro de si, quando se diante
dos seus medos?