terça-feira, 6 de outubro de 2026

Fernando Pessoa e a pluralidade poética

 


 

Fernando Pessoa

 

Quantos seres habitam dentro de nós?

Quem é você quando ninguém está olhando?

Quem é você quando até você se esquece de si mesmo?

Não. Isso não é só uma crise existencial.

Pode ser uma radiografia da alma humana que pode se desdobrar em atos, palavras, versos e atitudes.

“Viver não é necessário. Necessário é criar.

Bernardo Soares, múltiplo de Fernando Pessoa escreveu isto, no livro do Desassossego.

Há quem passe noites acordado, perguntando quem de fato habita o corpo que ele habita.

Fernando Pessoa pode ter dito que havia dias em que ele se olhava no espelho, sem saber exatamente quem o estava olhando de volta.

Parece delírio dramático. Crise de identidade adolescente. Sim. Mas é uma sensação visceral profunda, existencial de perceber que dentro de nós não há uma entidade única e sólida, mas uma verdadeira assembleia de vozes, uma polifonia de desejos, aspirações e reações que se chocam com o nosso ponto central.

Há quem acredite que, se pararmos para nos escutar, possivelmente encontraremos personagens que se revezam em nosso comportamento. Basta ver as nossas reações e atitudes.

Fernando Pessoa não só percebeu. Ele deu nomes a essas presenças. Deu-lhes história, estilo, ideologia, signo, e foi além da literatura: ele fez da sua própria existência uma arquitetura de identidades.

O poeta Pessoa, foi nascida em Lisboa, em 1888. Um homem cuja vida transcorreu entre a burocracia do escritório e o abismo da metafísica. Ele não se casou, não teve filhos e viveu entre livros e papéis. Morreu cedo, aos 47 anos e nesse curto intervalo de existência, ele produziu um acervo plural, inquietantes, multifacetado, sem parâmetros na língua portuguesa. Em seu bojo criativo e inquieto, ele fez ressaltar os famosos heterônimos: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares, além de muitos outros.

Destes mais notáveis, a cada um ele projetou uma biografia, com doutrinas distintas e filosofias próprias. Cada com um com seu estilo literário autêntico. Esta talvez fosse sua obsessão e método. Sobretudo, reconhecimento radical de que o seu fazer literário extrapolava a essência, e se transformava numa construção frágil, mutável e fluída.  Bem, dali, se isso tudo soasse distante ou poético demais, tudo seria desaguado em seu feito.

Na vida prática, pode haver alguém que já se pegou desejando ser outra pessoa, ou se sentiu estrangeiro dentro da sua própria rotina. Há quem voe a pensamentos não reconhecíveis, mas que insistem em habitar o seu imaginário.

Como estamos falando de Fernando Pessoa, vamos nos restringir ao seu processo criativo. Ele deu forma ao caos interno, e sua própria pena escreveu: “Tudo quanto vivi e sonhei ou li, tudo isso sou eu. Essa frase parece simples, mas ela esconde uma revelação filosófica devastadora. Nós somos feitos, não apenas do que experimentamos, mas, também do que imaginamos; possivelmente do que recusamos ou desejamos; e até do que esquecemos.

O nosso itinerário de vida pode não ser uma linha contínua. Pode ser um arquipélago de fragmentos flutuantes. Pessoa dizia que ele mesmo, por diversas vezes, percebeu-se reagindo com espanto há coisas que ele mesmo fazia. Era como se o autor da ação fosse um outro, um alguém que agiu sobre as suas vontades, antecipando-o, falando por ele. Muitas vezes se sentiu confiante e ousado, e a esse mistério ou espírito impostor, ele deu o nome de Álvaro de Campos.

Nas euforias, nos momentos em que desejava tomar o mundo com as mãos, ele deu a esse, o nome de Ricardo Reis. Ricardo, ao mesmo tempo em que se assemelhava a uma locomotiva, em outros ele acordava contemplativo, preferindo a medida o silêncio a moderação. Entretanto, quando acordava brigado com o mundo, e ao pôr a escova na boca, ele desejava desaparecer ou internar-se em um anonimato melancólico, ele se entregava a Bernardo Soares: este aceitava o tédio como forma superior de lucidez. E essas configurações não se projetavam apenas por estados de espírito; também, por expressões originadas de alguém retido naquele sentimento; e que se revezavam conforme o mundo exigia, e isso o obrigava a manter uma coerência inquebrável entre aquilo que era, e aquilo que se mostrava.

Em Além do Bem e do Mal, Nietzsche diz que todo o profundo espírito precisa de uma máscara. Pessoa compreendeu isso com uma profundidade rara. Nunca houve um EU definitivo. Há versões que se alteram, conforme a circunstância; conforme a dor, conforme a motivação. Os heterônimos, portanto, não foram criados para ser uma fuga da realidade, mas uma forma de dar vida às vidas que nele se projetava.  Mergulho fundo que não o obrigava a fugir de si mesmo; pelo contrário, investigava-se até o osso; até o grito mudo da alma.

Ler os poemas de Fernando Pessoa é a maneira de estender a Literatura ao diário íntimo da multiplicidade humana. Dizem que esta é a chave que pouca gente segura com firmeza, pois não há virtude em ser apenas um. O mundo com sua lógica simplificadora tenta nos encaixar em rótulos. Arquétipos. Categorias. A alma humana é irreduzível. Aquele que insiste em ser sempre o mesmo, que nunca se permite ser outro, que nunca escuta as suas contradições internas, esses correm o maior dos riscos, pois tornam-se um personagem de si mesmo.

Pessoa, apesar da vida anônima, engendrou em sua obra a visão da coragem de deixar de ser alguém para ser todos. Ele entendeu isto e resolveu não fingir ou fingir-se de louco, ele renunciou à coerência, ao aceitar que dentro dele havia movimentos. A mente moderna é um labirinto onde o próprio Minotauro somos nós.

Nós andamos por corredores internos, escuros ouvindo ecos das nossas próprias decisões, sem saber de onde vieram, nem para onde nos leva. Pessoa nos coloca diante de um espelho de ângulos múltiplos, impossível de capturar com um único olhar.

Álvaro de Campos escreveu: “Sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura”.

É a sua maneira de anunciar a revolta do espírito contra as amarras do corpo, da carne, da identidade. Ele nos impõe a pensar que, desde o primeiro choro, o EU lírico deixa de ser uma unidade e passa a ser um território em disputa constante. E não é isso que vivemos todos os dias? Vivemos um teatro permanente, onde encenamos papéis diversos para plateias invisíveis. Em sua vasta obra, ele nos entrega uma cosmogonia de subjetividades; um universo inteiro encapsulado num só corpo, sempre à beira da ruptura.

 Alberto Caeiro foi o mestre dos seus heterônimos. Ele representava uma espécie de profeta pastoral, que rejeita a metafísica, despreza as abstrações e abraça a concretude do mundo visível.

Caeiro é aquele que ensina que pensar é estar doente dos olhos. Ele é o antídoto ao excesso de consciência e o veneno da super interpretação. Tudo é o que é. Um campo é apenas um campo. Um rio não é metáfora para o tempo. O rio é água corrente e mais nada. Há uma beleza brutal e libertadora aí. Ao mesmo tempo, há um incômodo que exige que paremos de procurar significado onde só existe a evidência do ser.

No extremo oposto, Ricardo Reis, classicista, estoico, admirador de Horácio, oferece a elegância da renúncia; a contenção como virtude. Seu tom é o da voz que fala em baixa frequência; que prefere o domínio das paixões ao extravasamento sábio; Ricardo é o que se contenta com o espetáculo do mundo e escreve: “Mas será mesmo possível contentar-se com isso quando o mundo dentro de nós é uma tempestade contínua?”

Ele tenta conter o mar com uma taça de vinho. Nomear o caos com versos lapidados em ouro frio. Seu lirismo é quase um exercício de negação, e, ainda assim, profundamente humano. Quantas vezes diante do excesso de sentir, a gente não deseja apenas calar, fingir que a calma é possível; fingir que estamos acima do tumulto?

Álvaro de Campos é o nervo exposto. É o grito urbano, o engenheiro da alma dilacerada. Seus poemas são explosões; sua linguagem é febril, sua emoção é combustível. Em Ode Triunfal, ele exalta a máquina, a velocidade, os motores como se quisesse fundir-se ao metal e escapar do peso insuportável de ser gente. Álvaro é a alma do século vinte gritando no vazio da industrialização, da modernidade, da perda do sagrado.

No fundo, tudo o que ele quer é não sentir: “Não sou nada. Nunca serei nada”. Diz ele em Tabacaria, e não há ali pose ou exagero. É a verdade crua de uma lucidez que corrói.  É o que sobra, quando o sentido desabafa; quando todas as certezas se mostram frágeis; quando até o próprio nome parece um peso. Campos é a face que emerge, quando a ilusão de controle desaparece.

Bernardo Soares, autor do livro do Desassossego – um diário fragmentado de sensações e pensamentos quase vazios, é talvez o mais próximo de Pessoa, por ser silencioso, por ser o homem que caminha pelas ruas, sem deixar rastro. Bernardo vive no interstício, entre a vigília e o sonho, e os seus escritos não contam uma história; eles esboçam um estado de alma: “Tenho em mim um universo, mas não sei de que as estrelas são feitas”.  Essa frase poderia ser um sussurro perdido no ruído da vida. Pode ser uma confissão universal, porque, no fundo, não sabemos quem somos nem o que queremos nem de onde viemos.

Soares é a voz de todos que caminham no automático; dos que vivem na superfície e encontram nas suas profundezas mares revoltosos – de pensamentos ou desejos – mas sempre revoltosos. Em cada um desses heterônimos há um modo de se estar no mundo, porém há também o modo e o medo de não os poder carregar.

Essa polifonia interior não é anomalia: é regra. A unidade em nós é uma ilusão confortável.

Não é sobre medo ou coragem. Não é também uma teoria condenatória, pode ser uma dúvida em estado de sensação que permanece silenciosa. E ela começa cedo desde a infância, justo instante em que somos empurrados para dentro dos moldes: ser bom aluno, ser obediente, ser forte, gentil, competitivo, bem-sucedido e sensato. Este são nossos cadáveres vivos: escolha o seu. Cada um de nós carrega pesos de expectativas imprudentes; todos nós aprendemos a nos adaptar, a recortar partes de nós que incomodam, que não combinam com a nossa natureza. Se bate o desespero, começamos a nos performar, a vestir máscaras com frequência, que até esquecemos de levar o nosso rosto para debaixo delas.

Fernando Pessoa inverteu as regras: em vez de esconder seus rostos múltiplos ele os nomeou, assinou suas vozes com nomes distintos como se a dizer isso é potência, e é tão imensa que o levou a ser muitos sem poder ser nenhum. Atenção, porque a sociedade exige coerência, linearidade, respostas claras. Literatura brinca com esse tipo de lucidez, e o ser humano é um organismo contraditório, de vontades opostas e emoções que se sabotam.

A teoria pregada aqui não foi feita para caber em narrativa simples. Pessoa compreendeu isso com um senso quase profético, de não buscar a síntese; não cogitar de conciliação. Ele se achando livre, preferia o conflito, a colisão entre os seus e a inquietação era sua bússola.

Em uma carta célebre, ele escreveu: “Tenho em mim todos os sonhos do mundo e quem carrega todos os sonhos do mundo carrega também todos os abismos porque sonhar é arriscar-se ao impossível e o impossível cobra caro; cobra com insônia, angústia, desapego e solidão. O mundo lá fora, com sua pressa e pragmatismo, ridiculariza essa sensibilidade profunda; chama de confuso quem se contradiz; chama de perdido, quem ousa duvidar de si, mas há a dúvida, essa maravilhosa e dolorosa maneira de pensamento.

A dúvida nos mantém humanos. Ela nos impede de cair no dogmatismo, na rigidez emocional, na estupidez satisfeita. Pessoa foi um colecionador de pontos de vista. Em vez de disfarce, cada heterônimo tinha um olhar específico sobre o mundo. Enquanto o mundo exigia estabilidade, ele entregava o desequilíbrio; enquanto o mundo celebrava verdades absolutas ele cultivava a dúvida eterna. Talvez, por isso, a sua obra permaneça tão atual e tão necessária.

Vivemos tempos em que se cobra uma identidade coesa, uma narrativa pessoal vendável, o marketing de si mesmo, além de minibiografias como declaração ou aferição de importâncias. Mas, para que servem essas exaltações, cara pálida? quando continuamos impactados por forças que não compreendemos, patamares e roteiros de mundos que jamais conseguiremos pisar?

Ainda há uma criança dentro de nós que quer colo; há um rebelde em nós, que deseja explodir; há um poeta que sussurra, há um vento operário que repete tarefas de tédio. Ignorar tudo isso é negar a própria respiração. Por isso, não ignore as vozes internas. Escute-as. Dê-lhes espaço para que falem ou criem e terás a certeza de que há uma coragem rara nesse gesto; coragem de abdicar de uma imagem sólida de si mesmo para abraçar o mistério; coragem de se desconstruir, sem prometer reconstrução.

“A minha alma é um tumulto de gente passando, e me atravessa como uma navalha delicada”. Essa frase está no livro Desassossego. É uma sensação que pode ocorrer a cada um de nós. Há dias ou momentos em que a gente não se reconhece. Agimos por impulso. A força extraordinária vem e nos atravessa. Não estamos (aqui) tratando de esquizofrenia. Mas, a nossa voz soa estranha, e os pensamentos parecem vir de outra mente e chegamos até a cometer atitudes que naquele momento fogem ao nosso controle. Não fomos feitos para ser coerentes o tempo inteiro. Há em nós uma vastidão que assusta. Se soubermos mapear essa vastidão com a única bússola confiável, a da sensibilidade, a transformaremos em poesia.

As palavras de um poeta sensível têm a capacidade dos bisturis, de cortar o verniz da superfície e expor o que está por baixo do caos magnífico, que compõe o nosso ser. Isso o incomoda? O bastante é saber que vivemos uma eterna busca, que seja, mas que nos leve a entender da física nuclear ao verdadeiro nome que os monges deram à rosa. Não importa. Importa é buscar a estabilidade diária: esta é uma busca eterna; esta é a característica essencial da consciência do ser humano: buscar equilíbrios, quando somos múltiplos. Temos vozes múltiplas. Buscamos os mundos de sonhos vivendo no inferno.

Há essa espécie de tragédia silenciosa de viver tentando encontrar uma versão definitiva de nós mesmos, ou seja, encapsular a alma de uma forma que nos agrade; que se encaixe e que sirva aos olhos do outro como um produto que se pode comprar, descrever, etiquetar. E nunca esquecer de que  o ser humano é um projeto inacabado, e não veio ao mundo para ser fixo. Pelo contrário, somos marés, mutações ou metamorfose sucessivas.  

Fernando Pessoa se recusou a trair essa verdade em nome da conveniência, porque, ao invés de mascarar essa multiplicidade ele escancarava seus inúmeros espíritos: permitia que cada um deles escrevesse, sentisse, sonhasse, sofresse. Era como se cada parte sua tivesse o direito de existir por inteiro, mesmo que isso custasse a coesão de uma identidade única, e talvez por isso, sua obra seja tão incômoda por desmontar a ilusão confortável da unidade pessoal, embora saibamos que a sociedade não quer dar espetáculo.

Na realidade dura da vida, tudo precisa ter uma narrativa clara que saiba conviver com a normalidade. Pessoa, neste parâmetro, representa uma anomalia vital que não cabe em sinopses; não serve ao marketing existencial. Ele é o oposto da selfie: ele é um sujeito que se desfaz, enquanto escreve. Era o homem que dizia sem ironia, sinto-me múltiplo; sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexos falsos; uma realidade que não está em ninguém e está em todos.

 Essa frase poética é uma radiografia da alma moderna, pois vivemos cercados de espelhos ou redes sociais; expectativas familiares, profissões, amores, fracassos, e cada um refletindo um fragmento diferente, contraditório e incompleto, que nos leva a debatermos com o simples desejo de sermos únicos, numa realidade em que somos muitos.

O erro, talvez esteja em tentarmos escolher algo que seja profundo e libertador, quando não há um eu eterno aguardando ser descoberto. Pessoa não buscava no centro, ele acolhia os seus extremos. Sua genialidade não estava em resolver-se, mas em criar espaço para cada parte sua ganhar voz, papel, respiração, portanto, ler Pessoa é abrir um livro em que cada página foi escrita por uma alma diferente; não há linearidade nem harmonia no sentido clássico. Há um caos orquestrado, uma polifonia existencial que exige do leitor, não apenas atenção, mas entrega:

Cada heterônimo, cada fragmento de texto não está ali para ser entendido como personagem mas como o mundo interior autônomo; constelações afetivas, cada uma com seu próprio céu e suas próprias tempestades.

Nós, leitores, nos vemos refletidos nessa arquitetura complexa porque no fundo também carregamos essas vozes há dias em que queremos desaparecer como Caeiro buscando paz no silêncio das folhas outros em que ansiamos por um discurso racional controlado como reis fingindo que o mundo é um palco digno de métrica e contenção amanhã sem que acordamos como Campos em fúria cheios de sede por velocidade intensidade ruptura E há noites em que como Soares apenas observamos o tédio e ator caminhando lado a lado como velhos conhecidos pessoa esse espelho estilhaçado que não nos devolve um reflexo mas uma constelação de rostos e cada um deles nos conhece melhor do que gostaríamos de admitir mas não se engane isso não é uma celebração da confusão é na verdade uma ética do autoconhecimento radical pessoa nos convida a abandonar as fórmulas prontas a desconfiar das certezas a mergulhar nesse abismo interior onde tudo coexiste medo e coragem ternura esse mesmo desejo e fuga porque só quando temos coragem de olhar para a pluralidade que nos habita é que começamos de fato a entender o que significa ser e não é confortável é brutal é como abrir uma ferida com as próprias mãos mas é também a única forma de escapar da mediocridade existencial porque não há nada mais triste do que passar pela vida como um personagem mal escrito raso previsível monótono quando se pode ser um épico fragmentado Fernando Pessoa com todos os seus nomes nos deixou mais do que poesia ele nos deixou um mapa torto e verdadeiro da condição humana um convite à insubmissão psicológica uma recusa firme as estruturas que nos reduzem a um só caminho uma só forma uma só alma isso meu amigo é revolução não com armas ou bandeiras mas com palavras afiadas como lâminas porque ao dizer tenho em mim todos os sonhos do mundo pessoa não está sendo hiperbólico ele está sendo honesto e essa honestidade quando levada às últimas consequências nos obriga a uma escolha ou seguimos fingindo que somos simples ou aceitamos que a complexidade é a mais pura forma de verdade que podemos alcançar o preço de ser múltiplo é muitas vezes a sensação de jamais ser compreendido por completo e Fernando Pessoa sabia disso com uma nitidez que beirava o martírio não era apenas poeta era a confissão viva um homem que ao invés de buscar a aceitação do mundo decidiu construir o seu próprio tribunal interno onde cada um dos seus eus julgava absolvia ou condenava os demais essa auto exposição impiedosa ou isolava não por falta de amor ao outro mas por excesso de profundidade a pessoa não queria ser lido com os olhos ele queria ser respirado com a alma queria que o leitor sentisse o que ele sentia o peso de carregar dentro do peito um coro de vozes cada uma clamando por sentido pois faço por eternidade ele não escrevia para agradar mas para sobreviver a escrita para ele era uma forma de dar conta do caos que lhe atravessava e talvez por isso fosse tão inquieta tão densamente viva era como se a cada verso ele arrancasse uma camada da própria carne na Esperança de que alguém em algum lugar entendesse que viver é uma tarefa insuportavelmente intensa quando se tem a alma aberta demais escrevo porque não sei agir sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram ou metade desse intervalo porque também a vida esse desabafo resume uma tragédia cotidiana que poucos têm coragem de encarar quantas vezes você se sentiu deslocado incompreendido como se sua essência estivesse sempre um passo atrás das palavras que usa para se explicar quantas vezes você se sentiu mais como um intervalo do que como uma presença a verdade é que estamos acostumados a disfarçar o que nos rasga vestimos personagens para o convívio social ajustamos nossas opiniões para evitar conflitos moldamos até nossas emoções para que caibam na embalagem do que é aceitável e assim vamos como equilibristas num fio invisível tentando manter uma coerência que nos adoeceu em silêncio as pessoas se recusava a esse teatro ele aceitava o desequilíbrio como regra e não como exceção e em sua obra especialmente no que escreveu sob o nome de Bernardo Soares há um cansaço melancólico que não é o da fadiga física mas o do espírito saturado de fingimento um cansaço que vem de pensar demais sentir demais ser demais um cansaço que talvez você conheça bem embora raramente admita porque admitir seria romper com a mentira confortável da estabilidade emocional seria dizer em voz alta que há dias em que não se sabe quem se é o que se quer para onde se vai seria confessar que a identidade é fluida que o sentido da vida oscila conforme a estação a lembrança ausência e essa confissão ainda hoje assusta porque vivemos numa cultura que idolatra a certeza a decisão a performance contínua de si mesmo como produto finalizado somos incentivados a montar vitrines de nós mesmos como se houvesse um eu definitivo a ser vendido ignorando que o eu verdadeiro é obra em processo rascunho perpétuo construção inacabadas a pessoa com sua coragem existencial fez na própria indecisão uma linguagem fez a dúvida uma estética fez do abismo um espelho e que espelho em sua escrita não há Redenção fácil não há finais felizes nem soluções para os dilemas da alma a sim uma entrega radical à experiência humana em sua forma mais crua como quando ele afirma com uma serenidade aterradora não sou nada nunca serei nada não posso querer ser nada a partir disso tenho em mim todos os sonhos do mundo percebe o paradoxo ele se reconhece vazio e ao mesmo tempo pleno de possibilidades é essa contradição que o torna tão próximo de nós porque também vivemos entre extremos ora nos sentimos insignificantes hora invencíveis ora nos escondemos do mundo ora queremos gritar para ele tudo o que somos pessoa apenas teve a coragem de escrever isso como te entreter se você chegou até aqui se sentiu essa incômoda familiaridade.

Quem é você, quando se vê sozinho. Quem vc retira de dentro de si, quando se diante dos seus medos?

 


Machado de Assis

 


Machado de Assis e a natureza humana

 

Imagine que você conhece um homem educado, sofisticado, aparentemente inofensivo, ele sorri, discursa com elegância, e parece compreender o mundo com uma lucidez invejável, mas, por trás desse verniz, ele esconde um espírito corrosivo, um olhar cético, que vê o ser humano como um animal ridículo, patético, em suas pretensões de grandeza.

Você confiaria nesse homem?

E se esse homem for você?

A alma não tem segredo que o comportamento não revele. A grande ironia de Machado de Assis é que ao ler suas obras, você não está apenas observando personagens, você está se olhando no espelho. Seu talento era brutal e ele sabia que a natureza humana é uma dança entre vaidade e fraqueza, entre ambição e a autossabotagem. Sua genialidade consistia em desmontar, peça por peça, a ilusão que cada um de nós constrói sobre si mesmo.

Machado nos despia de nossas máscaras sociais com uma precisão cirúrgica: expunha a hipocrisia latente que permeia as nossas ações mais banais. Em Memórias póstumas de Brás Cubas, o protagonista, o defunto-autor, narra sua vida sem o menor pudor moral, e não há tentativa de redenção e nenhum vestígio de remorso, pelo contrário, Brás Cubas se orgulha de suas falhas, e trata sua mediocridade com ironia refinada, e expõe suas ambições frustradas como se fossem conquistas: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Ele diz no fim do livro.

É uma confissão cínica, mas ao mesmo tempo, uma das verdades mais cortantes sobre a existência humana, porque no fundo, o que somos, senão passageiros de um jogo sem regras fixas, tentando de alguma forma deixar um vestígio que justifique nossa passagem pelo mundo, mas a ironia mais cruel desse romance não está apenas no protagonista, mas, no leitor.

Você se identifica com Brás Cubas, você ri com ele, e o acompanha em sua jornada egocêntrica, talvez até concordando com algumas de suas observações ácidas sobre a sociedade, e é nesse momento que Machado de Assis lhe aplica um golpe certeiro. Aqui, você pode rir, mas saiba que a sua risada é um riso nervoso, um desconforto disfarçado de humor, porque no fundo você percebe que também tem um pouco desse personagem.

Quantas vezes você já tomou decisões motivadas pelo orgulho?

Quantas vezes manipulou os outros, sem perceber ou justificou atitudes egoístas com verniz de racionalidade? É exatamente aí que a literatura machadiana se torna um campo minado. Você caminha por suas páginas, achando que está apenas apreciando uma boa história, mas de repente se vê envolvido em um dilema moral, que o coloca contra a parede. Se você estivesse na posição de Brás Cubas faria diferente ou melhor? Se você tivesse poder suficiente para agir, sem medo de represálias, ainda manteria intacto e seus princípios?

Ao analisar o fenômeno do mal banal, Hanna Arendt observou que os piores crimes podem ser cometidos, não por monstros, mas por pessoas absolutamente comuns, que simplesmente deixam de refletir sobre suas ações, e Machado já apontava (mais de meio século antes) para esse abismo. A  pergunta que ele nos impõe, não é simples, e não se trata apenas de questionar se seria mais corruptos cínicos ou oportunistas se tivéssemos a chance; o que ele nos força a encarar é a fragilidade da nossa própria moralidade. Será que somos íntegros, porque de fato possuímos uma ética inabalável ou será que apenas nunca estivemos na posição de sermos testados de verdade?

Nietzsche em, Além do bem e do mal, diz que todo homem tem o direito de conhecer até que ponto pode descer. Machado sem precisar afirmar isso diretamente, já demonstrava o mesmo princípio. Ele compreendia que o ser humano não é bom ou mau, por essência, mas um amálgama caótico de impulsos contraditórios, sempre oscilando entre a conveniência e a virtude; e é por isso que suas histórias continuam tão vivas; porque, ao contrário das narrativas convencionais que oferecem heróis e vilões bem definidos, Machado nos entrega personagens que poderiam ser qualquer um de nós, e isso é perturbador.

Ler memórias póstumas de Brás Cubas não é apenas um exercício literário, mas um convite a encarar a própria consciência. O livro não nos permite o conforto da neutralidade, ou você admite que já se comportou como Brás Cubas, em algum momento da vida... ou mente para si mesmo? Então sejamos honestos: se você tivesse o poder de fazer tudo sem consequências, você seria diferente de Brás Cubas? Ou será que o que nos impede de sermos tão mesquinhos quanto ele, não é um senso moral elevado, mas, o medo do julgamento alheio?

Esta é uma pergunta que incomoda, mas que precisa ser feita afinal de que adianta passar pela vida, sem filhos, sem deixar um legado, e ainda assim transmitir adiante o pior da natureza humana?

O ser humano é uma criatura obcecada por certezas: gostamos de acreditar que sabemos distinguir o certo do errado, e conseguimos separar a verdade da ilusão, mas, e se no fim das contas estivermos apenas prisioneiros das nossas próprias interpretações?

E se aquilo que chamamos de realidade for apenas um reflexo distorcido do que queremos enxergar?

Essa que é a grande armadilha de dom casmurro.

Os grandes escritores não entregam respostas. Eles nos obrigam caminhar pelo terreno pantanoso da dúvida, e a encarar o fato de que a nossa percepção pode ser tão falha quanto nossas emoções, mas esse não é o único aspecto da natureza humana que Machado nos presenteia com sua narrativa.

A história de Bentinho e Capitu é um experimento cruel sobre os limites da subjetividade. Bentinho é um homem consumido pela insegurança. Bentinho é um prisioneiro de sua própria mente paranoica. Ele conta sua versão dos fatos em uma narrativa marcada por um ciúme corrosivo e uma necessidade desesperada de controle; mas, será que podemos confiar nele? Será que a sua visão não está distorcida pelo medo de ser traído, ou pela angústia de perder aquilo que acredita possuir?

De acordo com Freud, nós projetamos os nossos medos nos outros. Aquilo que condenamos no próximo, pode ser um reflexo do que não conseguimos aceitar em nós mesmos.

E se Bentinho não foi traído?

E se ele não passou de vítima do próprio delírio?

Neste aspecto ele fere uma mulher independente, destruída por um espírito possessivo.

A genialidade do romance está no fato de que nunca saberemos a resposta.

Machado não nos entrega a verdade de bandeja. A verdade em si é um conceito nebuloso, pois não há fatos, apenas interpretações. E o que importa não é se Capitu traiu ou não, mas o que essa dúvida diz sobre nós, porque a questão real não está no livro, mas na forma como o leitor reage a ele.

Se você acredita cegamente em Bentinho, talvez seja porque reconheça, nele, algo de si mesmo.

Se desconfia da culpa de Capitu, talvez seja porque já sentiu na pele o peso de um julgamento injusto.

E se você oscila entre uma versão e outra, então, parabéns. Você entendeu que o mundo não se divide entre verdades absolutas e mentiras implacáveis. O mundo conversa com percepções subjetivas, todas contaminadas por emoções, desejos e traumas. O ciúme de Bentinho não é apenas uma insegurança romântica. É um sintoma da nossa necessidade de controle, da dificuldade em aceitar que o outro é um ser independente, com desejos e vontades próprias.

A sociedade sempre tentou domesticar as mulheres: impor a elas papéis rígidos que as transformassem em espelhos, em que os homens pudessem se admirar.

Capitu com seus olhos ditos “de ressaca” desafia essa lógica. Ela não é uma donzela passiva e não se encaixa no molde da mulher submissa, que aceita seu destino, sem resistência; e, talvez seja exatamente isso, que a torna tão perigosa para Bentinho, que não quer apenas o seu amor; ele quer a garantia absoluta de que ela pertença a ele, e que nunca o enganará; e nunca o abandonará.

Esse tipo de garantia não existe, nem de um lado, nem de outro.

Se pensarmos bem Capitu foi julgada, não apenas, por Bentinho, mas por toda a sociedade ao seu redor. Seu crime não foi comprovado, mas a suspeita foi suficiente para destruí-la.

Quantas vezes isso já aconteceu na história de muitos?

Quantas mulheres e homens foram condenados sem provas, apenas, porque desafiaram as expectativas alheias.

Quantos Bentinhos preferiram destruir aquilo que amavam, a viver com a angústia da incerteza?

Você já se viu nessa posição?

Você já teve medo de perder alguém, a ponto de criar paranoias em sua própria mente?

Você já desconfiou de algo, sem nenhuma prova concreta, apenas por que o ciúme sussurrava em seu ouvido?

Você já foi vítima desse tipo de julgamento? Já teve sua reputação manchada por boatos e suspeitas infundadas?

A verdade é que todos nós somos Bentinho, em algum momento da vida.

Todos já nos deixamos consumir por dúvidas; já enxergamos traições, onde talvez só houvesse coincidências, e todos em algum nível já fomos Capitu, também acusados, incompreendidos, reféns da versão que os outros criaram sobre nós?

E se a grande lição de Dom Casmurro não for sobre fidelidade, mas sobre a incapacidade humana de lidar com a ambiguidade?

Sobre o medo visceral que sentimos diante da incerteza?

Machado de Assis nos força a encarar um dilema cruel:

O que é mais insuportável; ser enganado ou nunca ter certeza da verdade?

O mundo não é regido pela bondade, mas pela força, essa é uma verdade incômoda, cruel, difícil de aceitar.

Machado de Assis nunca esteve interessado em pintar um retrato cor-de-rosa da realidade.

Em Quincas Borba, ele nos apresenta uma filosofia de nome cômico, mas de implicações brutais: o humanitismo. O que vem a ser isso?

De acordo com Machado, humanitismo é um sistema de pensamento onde a vitória é o único critério de justiça; e o fracasso é a prova de que alguém não era digno de sobreviver.

Parece absurdo? Olhe ao seu redor.

O mundo que habitamos não é essencialmente o mesmo que o cão, Quincas Borba, ladrou ao seu mestre.

O sucesso só exalta o vencedor. Não importa o caminho que ele percorreu.

O fracasso condena o derrotado, independentemente das circunstâncias que o levaram até lá.

Rubião, o ingênuo herdeiro do filósofo enlouquecido, é um estudo de caso sobre como a inocência e a falta de astúcia são sentenças de morte em uma sociedade onde os mais espertos devoram os mais fracos.

Ele acreditava na amizade, confiava cegamente nas intenções alheias, e se entregou ao jogo da vida, sem perceber que estava cercado por predadores.

E o que acontece? Pouco a pouco, o vimos ser destroçado pelos supostos amigos, que não hesitaram em o explorar; manipular, sugar, até que não restasse mais nada.

É uma lição dolorosa? Pressuposto. Afinal, o mundo pertence aos dissimulados; aos que compreendem que a moralidade é um véu frágil que se rasga diante do desejo de poder, e o mais perverso é que no fundo todos sabemos disso, e apenas fingimos não saber, porque, admitir essa verdade nos tornaria cúmplices.

Nietzsche escreveu que o homem de ação não se atormenta com a moralidade.

Ele impõe sua vontade ao mundo, e Machado de Assis, décadas antes, já expunha esse princípio, de maneira brilhante.

Os vencedores não se preocupam em justificar seus atos, porque a própria vitória já os justifica.

Napoleão, Alexandre, César e todos os grandes conquistadores da história foram ao mesmo tempo, heróis e tiranos; amados por aqueles que se beneficiaram de suas façanhas e odiados pelos que pereceram em seu caminho.

Mas qual deles foi julgado como um fracassado? Nenhum.

O fracasso não tem direito a narrativa. Só o vencedor escreve sua versão dos fatos.

E você onde se encaixa nisso tudo?

Você se vê como Rubião? Um ingênuo herdeiro, jogado às feras; ou secretamente admira aqueles que jogam o jogo com frieza, e afasta por estratégia um falso desapego?

Talvez você queira acreditar que é possível vencer sem pisar em ninguém.

Talvez, você acredita que existe um caminho nobre para o sucesso.

Talvez até haja, mas sejamos realistas: quantas pessoas chegam ao topo usando somente das boas intenções?

No Tabuleiro da vida, dizem os enxadristas, que os peões são os primeiros a cair; e não se iludam: o mundo não recompensa a pureza. Recompensa a habilidade de jogar, conforme as regras invisíveis, que realmente governam a sociedade.

O Humanitismo, essa teoria absurda, que transforma a competição em um princípio sagrado, realmente soa tão distante da nossa realidade?

É só olhar para o mercado de trabalho; para a política, para a cultura das redes sociais, onde a busca por status transforma pessoas em personagens, mudando suas vidas, para caber no espetáculo da aprovação pública.

O que vale mais? Ser talentoso ou saber se vender?

Ser justo ou ser forte? E no fim, o que diferencia um homem que sobe na vida de um que desmorona no caminho?

Seria mérito esforço ou simplesmente, a sorte de ter nascido com um instinto afiado para o jogo da sobrevivência?

Rubião perdeu tudo, porque acreditou que o mundo seguia uma lógica moral e acreditou que gentileza seria recompensada, e que confiança era um valor seguro que as pessoas ao seu redor compartilhavam. Pura ingenuidade.

 A verdade é que a selva social não tolera os desarmados.

Vale mais uma pergunta: Quando foi a última vez que alguém o enganou? Lógico que nenhuma dessas perguntas pedem respostas públicas. Elas devem ser inseridas em suas autoanálises.

 Quando foi a última vez que acreditou em promessas que nunca se cumpriram, ou pior, quando foi que percebeu que a bondade, por si só, não era suficiente para protegê-lo?

Machado de Assis nos lança mais um dilema desconfortável:

Para sobreviver, precisamos abandonar a ingenuidade. Mas ao fazer isso, o que nos resta, se nos tornamos frios e estratégicos? Ainda somos humanos?

E se nos recusarmos a jogar o jogo, será que não estamos fadados a ser apenas mais um Rubião, tragado pelo mundo sem piedade?

O destino de um homem não é escrito pela sorte, mas pelas suas escolhas e muitas vezes pelas escolhas que os outros fazem por ele.

Machado de Assis compreendia como poucos a forma sutil quase invisível, com que o meio esculpe os indivíduos; definindo quem acende e quem é condenado à insignificância.

Mas a pergunta que persiste em sua obra é ainda mais cruel:

E se aquilo que chamamos de livre arbítrio não passar de uma ilusão conveniente?

E se os caminhos que tomamos forem apenas respostas automáticas aos fios invisíveis que nos manipulam desde o nascimento?

Em seu livro, Esaú e Jacó, ele desconstrói a noção romântica do destino, como algo grandioso e transcendental. Nesse livro, acompanhamos os irmãos Pedro e Paulo, gêmeos, que desde a infância encararam forças opostas: um, conservador e pragmático; o outro, revolucionário e inquieto.

Isto poderia ser um drama épico sobre grandes ideias e embates filosóficos, mas Machado em sua ironia afiada revela a verdade incômoda: essa dualidade não nasce da essência dos personagens, mas das circunstâncias.

Eles não são opostos por convicção, mas por serem jogados em lados distintos de um Tabuleiro, cujas regras eles nunca entenderam completamente; e o mais irônico de tudo é que, no fundo, eles são idênticos em sua mediocridade; reféns do mesmo jogo de vaidade, tão previsível

É impossível ler essa obra sem lembrar da famosa frase de Schopenhauer: “o homem pode fazer o que quer fazer, mas não pode querer o que quer ser”.

Nossas paixões nossas inclinações políticas nossos desejos mais íntimos tudo isso pode parecer resultado de escolhas racionais, mas será que realmente é o ambiente em que crescemos, as pessoas que nos cercam, as ideias que absorvemos, sem perceber, que moldam cada decisão que tomamos?

E no fim, passamos a vida nos convencendo de que somos autores da nossa própria história, quando na verdade talvez sejamos apenas personagens secundários de uma peça escrita muito antes de nascermos. E não se enganem, vocês também carregam dentro de si, essas amarras invisíveis.

Suas opiniões políticas, sua visões de mundo, seus sonhos e ambições, quantos deles foram realmente escolhidos por você, e quantos foram herdados sem questionamentos, aceitos como verdades absolutas, simplesmente, porque eles foram apresentados às suas vidas, desde cedo, e essa é a tragédia humana que Machado expõe com precisão cirúrgica.

Acreditamos ser donos do nosso destino, mas na maioria das vezes estamos apenas seguindo um roteiro já escrito.

Pedro e Paulo lutaram como se suas ideologias fossem grandiosas, mas no fundo, eles foram apenas dois homens presos a um conflito que os ultrapassara; que existiria, com ou sem eles, pois  já estava em movimento, antes que pudessem entender sua própria existência.

Se essa constatação o incomoda, ótimo, porque incomodar significa que talvez haja uma chance de escapar dessa armadilha, e um nível de lucidez que poucos alcançam, devido à sua capacidade de questionar.

Cada certeza de desconstruir, cada pensamento confortável, admitir que aquilo que acreditamos seja a nossa identidade, pode não passar de um reflexo do meio que nos moldou.

Estou pensando em Foucault: “O primeiro castigo imposto a um prisioneiro é fazê-lo acreditar que a prisão é sua casa”. Quantas dessas prisões invisíveis você carrega, e quantas decisões você já tomou, acreditando que eram suas? Quando na verdade eram apenas ecos de influências externas.

Leia o livro e pare para analisar que a grande provocação, em Esaú e Jacó, não é apenas sobre política, dualidade ou conflitos ideológicos: é sobre a própria natureza da liberdade.

Porque, se tudo que somos é produto do meio, se nossas escolhas são apenas reflexos de forças, que mal compreendemos, então o que significa de fato ser livre?

Liberdade é apenas uma ilusão necessária, para que não enlouqueçamos diante da realidade, onde somos manipulados o tempo todo? Ou existe em algum lugar, um espaço de autonomia genuína, um momento em que podemos romper essas correntes invisíveis, e decidir verdadeiramente quem somos?

E agora? Quantas das suas certezas são realmente suas?

E se amanhã você acordasse e descobrisse que tudo o que acredita, sobre si mesmo, foi apenas um produto das circunstâncias; você continuaria vivendo da mesma maneira ou finalmente começaria a questionar cada escolha que já fizeste?

Vem aí, mais uma cruel das constatações machadianas: não importa se tentemos nos libertar das correntes invisíveis, que nos aprisiona, pois haverá sempre uma força maior, uma estrutura oculta que nos moldará e nos conduzirá, sem que sequer percebamos. É o que chamamos de identidade de essência de vontade própria, que pode não ser mais do que uma ilusão refinada, uma peça de teatro bem ensaiada, onde desempenhamos papéis que nos foram atribuídos, antes mesmo, de termos consciência de nós mesmos.

A pergunta que Memórias póstumas de Brás Cubas lança contra o leitor:

O que sobra do homem, quando arrancamos dele todos os véus da hipocrisia, do orgulho e da vaidade?

O que restaria de você, se tudo aquilo que acredita ser, fosse na verdade uma construção artificial?

Brás Cubas é o narrador de sua própria vida. A voz não é a de um homem arrependido nem a de um sábio que aprendeu grandes lições ao longo de sua existência; pelo contrário, ele ri da própria mediocridade. Zomba de si mesmo e de todos ao seu redor.

Sua narrativa é um testamento do fracasso humano; mas um fracasso sem dor, sem melodrama e passa a ser uma constatação fria e irônica, de quem viveu sem propósito, sem ter realmente conquistado nada de substancial, e ainda (assim) acha graça disso, pois não busca a redenção e não espera a simpatia; ele apenas expõe com um cinismo sinistro, a falta de sentido de sua trajetória.

Esta é a grande sacada do romance, Brás Cubas. Antítese do herói tradicional, pois não sofre uma grande transformação, não se ilumina no fim da jornada, não encontra um significado profundo para sua existência, e tanto ele não impõe a nos olharmos no espelho, nem nos impinge a nos perguntar: Será que somos tão diferentes?  Será que não passamos a vida acumulando ambições vazias, correndo atrás de status, reconhecimento de pequenas vitórias, que no fim das contas não significam absolutamente nada?

Como dizia Pascal, “Toda a infelicidade dos homens provém de uma única coisa: não saber ficar em repouso dentro de um quarto; nós precisamos da ilusão de que estamos indo a algum lugar e de que nossas conquistas importam, de que há um sentido maior por trás de tudo, mas e se não houver?

E se a existência for apenas um desfile de futilidades? Um teatro onde cada um se esforça para parecer mais importante do que realmente é?

A ironia de Machado é devastadora, porque nos força a encarar essa possibilidade sem nos dar nenhum consolo.

Em Memórias póstumas, não há destino glorioso, não há justiça cósmica, não há aprendizado edificante; apenas um morto que narra sua vida, sem nostalgia, sem arrependimento, sem sequer um pingo de romantismo; e talvez esse seja o golpe mais duro perceber que o mundo não precisa de grandes dramas para continuar girando.

Pessoas morrem, suas histórias terminam, e o tempo segue indiferente. Ele nos joga na cara, a ideia incômoda de que talvez a única maneira de escapar da dor da existência, seja não deixar rastros, não prolongar o sofrimento, para as próximas gerações; e se formos honestos, teremos que admitir algo de libertador nesse niilismo, porque se nada realmente importa; então não há obrigação de corresponder às expectativas de seguir regras arbitrárias, de se curvar às pressões sociais que nos sufocam, mas ao mesmo tempo, há algo de aterrorizante nisso, porque se nada tem sentido, qual a razão de continuarmos?

Por que levantar da cama todas as manhãs?

Por que insistir em amar e em construir, em sonhar?

Kierkegaard dizia que “O desespero supremo é o homem perceber que é livre, porque a liberdade radical o obriga a criar seu próprio significado”. Talvez seja exatamente isso que Machado nos sugere: se não há um propósito absoluto, cabe a nós inventarmos um.

 Últimas reflexões:  

O que me faz continuar, e o que me impede de ser mais um Brás Cubas, rindo do vazio da existência? Será se encontrei um significado real, ou apenas me agarro às mesmas ilusões que ele zombava, se tudo fosse arrancado de mim? Status, ambições, identidade... Restaria alguma coisa ou apenas a constatação de que, no fim, sempre fomos personagens de uma história que nunca esteve sob o nosso controle?

 


 

Dostoievski – e o Idiota Moderno

 

Você já se sentiu um idiota?

Quem de nós, já não deixou um determinado ambiente, pisando nas alturas, vestindo a pele de um idiota?

Sim. Aquele tolo mesmo. O idiota no sentido mais existencial da palavra.

E por que algo que corrói a nossa alma nos deixa assim?

Porque as sutilezas, sobretudo a nossa áurea sensível, percebem o absurdo da vida, e naqueles instantes, os sentimentos aflorados, é mais fácil enxergar a miséria, do que a beleza do mundo.

Todos nós, em algum instante de nossas vidas nos sentimos assim.

Se todos concordam, parabéns. Todos nós já flertamos com o pensamento de Dostoiévski:

Dostoievski, o homem, o pensador, o escritor que fez do seu livro, O Idiota, um dos arquétipos mais complexos da literatura e da filosofia.

Na visão de Dostoievski, ser idiota é a única saída para a sociedade doente em que vivemos.

Ele não escreveu para adoçar a alma com uma possível beleza. Não. Ele nunca se arvorou em salvar

o mundo.

Ele escreveu para ferir, para abrir feridas que preferimos manter fechadas.

Suas palavras são bisturis afiados que cortam fundo a carne da existência humana.

Em seu romance, O Idiota, ele não se limita a contar uma história. Ali, o russo defende uma tese filosófica embasada em tragédia, em estudo brutal sobre o que acontece, quando um homem genuinamente bom é jogado no meio de um mundo que só entende a linguagem do egoísmo e da corrupção.

O príncipe Michkin, figura central da narrativa, é o último romântico de um tempo que já havia trocado a paixão pela moeda; a bondade pelo cálculo e a inocência pela esperteza cínica.

Qual foi o erro do seu personagem?

Foi acreditar na pureza de coração, em uma sociedade que aprendeu a esmagar tudo o que não pode explorar.

Michkin era para os outros personagens, um tolo, um alienígena emocional. Para os seus pares, ele não passava de um erro de programação, num sistema que só aceita jogadores dispostos a trapacear.

A pergunta que Dostoiévski nos força a encarar é desconcertante.

 

Quem é de fato o verdadeiro idiota?

 

O homem que se mantém íntegro e paga o preço de ser correto, ou aqueles que traem, manipulam e corrompem a própria alma, para sobreviver?

O que mais inquieta, em Michkin, não é apenas sua ingenuidade, mas a sua capacidade de enxergar a dor alheia com uma sensibilidade quase sobrenatural.

Michkin não vê apenas a miséria dos outros. Ele sente essa miséria, como se fosse sua – este fato é o que o filósofo romeno, Emil Cioran, chamou de o tormento de existir:

 

Tormento do existir o vem a ser?

 

É aquela capacidade rara e devastadora de experimentar a angústia do outro, como se fosse sua.

E é exatamente essa característica que o torna alguém tão insuportável, para aqueles que o rodeiam.

Michkin expõe suas máscaras, desmonta as suas defesas, arranca as suas ilusões de controle,

mas não acusa, não grita, nada impõe.

A sua mera presença é um espelho cruel revelador da feiura dos outros.

Nietzsche, que foi um leitor ávido de Dostoiévski, disse que ninguém mente tanto quanto o indignado. A indignação, muitas vezes, não é uma resposta à injustiça, mas um escudo contra a própria culpa.

Sabem aquelas reações: Estou bem, estou bem, estou calmo, quando nada está?

Michkin desperta essa indignação nos outros, pelo fato de ser um lembrete constante de que há algo de errado no modo como vivemos.

Essa lembrança é insuportável para quem já se acomodou ao jogo da hipocrisia social.

 

Mártir sem santidade

 

A história de um idiota parece seguir a trajetória de um mártir, mas sem a glória da santidade.

Michkin não é venerado, não é admirado e nem compreendido.

Ele é, no máximo, tolerado por alguns, ridicularizados por muitos e destruído por quase todos.

A bondade dele não o torna um herói triunfante, e sim, um cordeiro à espera do abate.

Seu amor pela beleza e sua compaixão ilimitada são vistas como fraquezas perigosas.

Por quê?

Por serem vulnerabilidades que só podem terminar em tragédia.

O pior que pode nos acontecer é aceitar que Dostoiévski está certo.

Talvez o mundo (realmente) não tenha espaço para os Michkin da vida.

A bondade absoluta não apenas desafia o status quo. Ela o ameaça.

Ela mostra que o jogo pode ser jogado de outra forma, e isso é insuportável para quem já aprendeu a vencer trapaceando.

 

E nós?

Onde nos encaixamos, nessa história?

 

Nós seriamos capazes de agir, como Michkin?

Nós seríamos capazes de aliarmos aos que o desprezam?

Vivemos num tempo em que o cinismo é confundido com inteligência, e a frieza com maturidade.

 

Simplesmente, rimos da ingenuidade, zombamos da esperança, e celebramos a esperteza como se ela fosse sinônimo de sabedoria.

 

 

A esperteza e o vazio

 

Mas será que essa suposta esperteza nos traria/ou trouxe algo, além de um vazio

difícil de suportar?

Dostoiévski nos obriga a encarar essa questão, sem nos dar respostas fáceis.

O mais inquietante é que, no fundo, já sabemos a resposta.

Sabemos que Michkin não é o idiota, o idiota somos nós, que passamos a vida

justificando a nossa própria falta de coragem.

A tragédia do príncipe Michkin não reside apenas em sua bondade, mas no tempo e lugar

em que ele existe.

 

 

A Rússia e Dostoievski

 

A Rússia do século dezenove não era um solo fértil, para as almas puras.

Era, reconhecidamente, um território de transição febril, onde o velho e o novo travaram

uma batalha silenciosa e cruel.

Se um de nós tentar sair do seu habitat.

Do mundo em que trabalhamos uma vida, o mundo asséptico criado

para junto aos nossos filhos, envelhecermos.

Se colocarmos o pé lá fora, ou perscrutá-lo de algum ponto limpo, a vida que corre

Pelo vasto mundo pode ser essa Rússia do século dezenove.

Onde a aristocracia tentava se manter no poder, enquanto os ideais revolucionários sopravam

como ventos de um futuro incerto e inevitável.

A fé ortodoxa, que um dia dera sentido à identidade russa, começava a ruir

sob o peso da modernidade e do pensamento niilista.

 

Foi nesse caldeirão de tensão que Dostoievski moldou seus personagens,

dando-lhes vozes que ecoavam dúvidas e medos, e os dilemas de uma época em colapso.

 

Império Russo

 

E ninguém compreendia esse colapso melhor do que o próprio autor.

Dostoiévski não era um mero observador distante do caos social e espiritual que o cercava.

Ele foi uma de suas vítimas.

Sua vida foi marcada por uma sequência de abismos.

Condenado à morte, por envolvimento com um grupo de intelectuais subversivos,

aos olhos do Império Russo, ele viu sua execução ser cancelada no último instante,

Trocada por anos de trabalhos forçados na Sibéria.

Ali, em meio aos criminosos e miseráveis, Dostoiévski testemunhou as profundezas

da alma humana, sem os adornos das convenções sociais.

Não havia máscaras entre os condenados.

Havia a verdade nua e brutal da existência.

Foi nesse inferno gelado, que ele descobriu que a degradação e a redenção

podiam caminhar, lado a lado, e que a monstruosidade e a santidade eram apenas

dois lados da mesma moeda.

Essa experiência moldou sua obra de maneira irrevogável.

 

A literatura russa no tempo de Dostoievski

 

Se abordarmos a História, na Literatura Russa, faremos outra palestra,

Uma vez que Napoleão alugou a mente dos escritores – vários – especialmente, Dostoievski,

Que o enalteceu em muitas de suas obras.

Retornando ao nosso texto, os escritores de então buscavam entender o homem através da razão.

Dostoiévski mergulhou na escuridão do inconsciente, antecipando ideias, que Freud e Jung

formulariam décadas depois.

Dostoievski compreendeu que o ser humano não é regido apenas pela lógica.

O homem é regido, também, por forças subterrâneas, paixões indomáveis,

desejos inconfessáveis e contradições insuportáveis.

 

Estilo realista

 

Seu realismo não era apenas social, mas psicológico. Cada personagem que criou,

era uma anatomia viva do espírito humano. Uma confissão disfarçada de ficção,

onde Michkin, o protagonista de O Idiota, era talvez a sua criação mais perturbadora.

Por quê?

 

A Bondade na concepção do mundo

 

Justamente, por encarnar algo que a sociedade sempre fingiu valorizar, mas no fundo desprezava.

O problema é que a bondade absoluta não se encaixava mais nas engrenagens do mundo.

O próprio Dostoiévski parecia cético quanto à possibilidade de um homem puro sobreviver,

sem ser dilacerado.

Michkin, com sua compaixão sem reservas, e sua incapacidade de julgar, funcionou como um espelho que refletia a hipocrisia dos que os cercavam.

Ele não acusa ninguém, porém a sua simples existência expunha a miséria moral dos outros.

Por isso, foi ridicularizado, explorado e por fim esmagado.

A bondade desarma os cínicos, e um cínico desarmado não sente gratidão.

Ele sente raiva.

Como escreveu o Baudelaire, “O mundo só perdoa aqueles que o deixam confortável

em sua própria podridão”.

Michkin não oferece esse conforto.

Ele representa uma possibilidade diferente de existência e essa possibilidade

é intolerável para aqueles que já fizeram concessões demais para manter suas máscaras intactas.

Dostoiévski compreende essa mecânica perversa melhor do que ninguém.

Ele via no ser humano, não uma criatura racional em busca da verdade, mas, um ser

de pulsões capazes de se agarrar a ilusões destrutivas, apenas para evitar encarar seu próprio vazio.

 

Inocência e esperteza

 

Em O Idiota, Dostoievski não nos dá um vilão óbvio. Todos os seus personagens, de alguma forma,

são vítimas de algozes ou prisioneiros de um sistema de valores, que premiam a esperteza e despreza a inocência.

O romance é no fim das contas um experimento brutal.

O que acontece quando jogamos um homem puro num mundo corrompido?

O resultado é que o homem puro não transforma o mundo.

O mundo o devora antes.

Se há algo que o idiota nos ensina é que a bondade, longe de ser uma virtude reverenciada,

ela é muitas vezes tratada como um erro de cálculo. Uma falha estrutural no tecido

da sobrevivência.

 

A história de Michkin, não é apenas um relato de ingenuidade esmagada pela realidade.

Ela é um estudo daquilo que acontece, quando alguém se recusa a adotar as máscaras

que o mundo exige numa sociedade movida pelo jogo de aparências, e pela competição velada.

 

Nesses ambientes, qualquer um que se recusa a jogar, torna-se alvo fácil.

O príncipe não é odiado por ser ruim, nem invejado por ser superior.

Ele é desprezado, porque não segue as regras invisíveis que sustentam a convivência

entre os que aprenderam a disfarçar suas intenções.

 

Michkin não sabe manipular. Michkin não entende as nuances das falsas cortesias.

Ele não percebe o perigo da sinceridade absoluta.

Como resultado, não apenas se torna vítima dos outros. Ele passa a ser um lembrete

incômodo de tudo o que os seus pares abandonaram, em nome da sobrevivência.

 

 

 

 

O preço de ser autêntico

 

Essa dinâmica não se limita ao romance de Dostoiévski.

Basta olhar ao redor para ver que o mundo continua funcionando exatamente

da mesma maneira.

Vivemos em um mundo onde aprendemos que há um preço a se pagar pela autenticidade.

E que a transparência emocional pode ser uma sentença de morte simbólica.

Aquele que não domina a arte da dissimulação, aquele que não aprende a jogar

o jogo social, inevitavelmente se torna um estranho no ambiente corporativo:

amizade família e trabalho.

Nesses espaços existe um código tácito que define o que pode ou não ser dito, e estabelece

os limites do que é aceitável sentir e poder expressar.

 

O Idiota, de Dostoiévski, é aquele livro que ignora esses códigos.

Ele prefere agir, como se as palavras realmente tivessem valor.

Como se a compaixão não fosse apenas um conceito abstrato, mas uma prática cotidiana,

e acontece com ele, o mesmo que acontece com qualquer um que decide ser honesto

em um mundo de negociantes

Passa a ficar isolado, humilhado, usado e descartado.

 

A bondade vista como erro

 

A lógica que rege essa estrutura social perversa é simples:

A bondade sem astúcia não é vista como uma virtude, mas como um erro de estratégia.

Há uma crença implícita de que o mundo não pode ser mudado.

Cabe a cada um adaptar-se a ele.

 

Se todos se aproveitam uns dos outros, então aquele que não o faz estará

em desvantagem:

A ovelha negra* de Italo Calvino

 

Havia um país onde todos eram ladrões. À noite, cada habitante saía, com a gazua e a lanterna, e ia

arrombar a casa de um vizinho, e voltava de madrugada, carregado, e, lógico, ele ia encontrar a sua

casa arrombada.

E assim todos viviam em paz e sem prejuízo: um roubava o outro, e este, um terceiro, e assim por

diante, até que se chegava ao último que roubava o primeiro.

O comércio naquele país era praticado só com trapaça: tanto por quem vendia como por quem

comprava.

O governo era uma associação de delinquentes vivendo à custa dos súditos, e os súditos por sua vez

só se preocupavam em fraudar o governo.

Assim, a vida prosseguia e não havia ricos nem pobres.

Ora, não se sabe como, ocorre que aparece um imigrante, e o idiota era honesto.

Por isso, há países enxotando imigrantes acorrentados.

À noite, em vez de sair com o saco e a lanterna, esse homem ficava em casa fumando e lendo

romances. Vejam, só! Não tinha o que fazer?

Vinham os ladrões, viam a luz acesa e não subiam. Essa situação durou algum tempo.

Depois foi preciso fazê-lo compreender que, se quisesse viver sem fazer nada, não seria aquela

a boa razão para não deixar os outros trabalhassem em paz.

 Cada noite que ele passava em casa, uma família não comeria no dia seguinte.  Diante desses

argumentos, o homem honesto não teve o que objetar, e passou a sair à noite, e só voltava de

madrugada. Mas, o que adiantava, se ele não roubava?  Era honesto. Era um perdido.

Não havia nada o que fazer.

Ele caminhava até a ponte e ficava vendo a água passar. Mas, ao voltar para casa, a encontrava

roubada.

Em menos de uma semana, o homem honesto ficou sem um tostão, e sem o que comer, e com a casa

vazia. Até aí, tudo bem, porque era culpa dele. Preguiçoso. Honesto!

Mas o seu comportamento criou um desequilíbrio infame. Se ele deixava que lhe roubassem tudo

e, ao mesmo tempo não roubava, havia alguém que, voltando para casa, a encontrava intacta.

Justamente, a casa que o homem honesto deveria ter roubado.

O fato é que, os que não eram roubados acabaram ficando mais ricos, e em ficando ricos, muitos não

viram mais por que roubar.

E, além disso, os que vinham para roubar a casa do homem honesto sempre a encontravam vazia de

víveres, e, assim iam ficando pobres também.

Enquanto isso, os que tinham se tornado ricos pegaram o costume de irem, também, à ponte, para ver

as águas brilhantes do rio. Isso aumentou a confusão na balança comercial, porque alguns ficaram

ricos, enquanto a maioria ficou pobre.

Aconteceu de os ricos desconfiarem que, indo de noite à ponte viverem os seus entretenimentos,

mais tarde, eles também voltariam a ser pobres. E pensaram:

“Paguemos aos pobres para irem roubar para nós”.

Fizeram-se os contratos, estabeleceram-se os salários, as percentagens.  Naturalmente, eles

continuariam a ser ladrões, mas disfarçados.

Mas, como acontece, os ladrões ricos tornavam-se cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais

pobres.

Havia ricos tão ricos que não precisavam mais roubar e montaram empresas experts em roubos, para

Se tornarem milionários. Aconteceu, destes passarem a ser roubados pelos mais pobres dos pobres e

o que fizeram? Pagaram aos miseráveis para defenderem as suas posses, contra esses novos ladrões; e,

assim, instituíram a polícia. E constituíram as prisões. Em pouco tempo ninguém se lembrava mais

de que nos primórdios, houvera um homem honesto na cidade.

E já não se falava mais em roubar ou ser roubado.

Só se falava de riqueza e pobreza.

Aquele imigrante honesto: logo, morreu de fome.

 

Esta lógica, ainda que brutal possui uma coerência interna: quem não luta pelo seu próprio espaço será empurrado para fora; quem se recusa a manipular, será manipulado; e quem insiste em estender a mão, acabará sendo puxado para o fundo, junto àqueles que tentaram salvar o sistema.

Esta é a lógica do mundo atual.

Michkin, ao longo da narrativa, personifica essa tragédia com dolorosa precisão:

Ele é incapaz de compreender os jogos de interesse, e se recusa a aprender.

Sua crença ingênua, de que a pureza pode triunfar sobre a mesquinhez, o transforma

em um sacrifício vivo: um experimento existencial que Dostoievski compôs com a precisão

cirúrgica de quem conhecia, em primeira mão, a crueldade do mundo, e não sejamos ingênuos:

Essa lógica não mudou com o passar dos séculos.

Os idiotas de hoje continuam existindo, e continuam sendo devorados.

Quem são eles?

São aqueles que não conseguem fingir; que não se importam.

São aqueles que não sabem medir palavras com frieza estratégica.

São aqueles que ainda acreditam que as pessoas podem ser melhores do que realmente são.

E o que se faz com eles?

Riem de sua ingenuidade. Exploram a sua boa vontade. Descartam sua presença.

Tornam-no inconveniente.

Isto não é um conto de fadas moralizante.

Ninguém veio aqui para ser convencido de que a pureza vence no final.

Dostoievski quis fazer do seu romance, um estudo clínico, sobre a maneira como os justos são triturados pelo cinismo coletivo.

 

Ninguém precisa responder

 

Aí vem a única pergunta que me compete, neste momento em que estou disfarçado de filósofo.

A pergunta não é se Michkin poderia ter sobrevivido, hoje.

A pergunta é:

Em sua posição, nós faríamos algo diferente, ou será que, sem perceber, já fazemos parte daqueles que ajudam a esmagar quem ousa ser verdadeiro?

 

 

 

Ninguém precisa responder, porque o espaço não é de questionamentos.

Mas de autoanálise.

A queda de Michkin não acontece de uma vez, como um golpe súbito e definitivo,

É um processo gradual quase inevitável, no qual sua pureza é lentamente corroída

pelo atrito com o mundo, que não sabe lidar com aquilo que não pode usar

ou compreender.

O príncipe não é derrubado por um inimigo declarado,

por uma conspiração bem arquitetada, ou forças externas que buscavam o aniquilar,

deliberadamente:

A sua destruição ocorre da maneira mais sutil, mais insidiosa,

que é a consequência natural de sua presença em um ambiente, onde a bondade absoluta

não encontra um solo em que possa florescer, sem ser pisoteada.

 

Michkin não precisa ser atacado para ser pisoteado: basta existir

para que sua tragédia se desenrole, por si mesma, como um relógio que avança

inexoravelmente, em direção ao colapso final.

 

O grande paradoxo que permeia a narrativa é que Michkin, ao contrário do que

seus detratores imaginaram, ele não era um tolo no sentido intelectual.

É inteligente, perspicaz e profundamente sensível às dores e inquietações

dos que os cercam.

No entanto, sua inteligência não segue os parâmetros da esperteza calculista

nem do pragmatismo social que dominam as interações humanas.

Michkin, não sabe jogar o jogo da sedução, da manipulação, do poder velado:

sua lógica é diferente e quase estranha.

Ele acredita que a sinceridade deve ser o alicerce das relações, e que a compaixão

deve guiar as escolhas, e que a beleza da alma pode redimir, mesmo os mais perversos.

 

Ser natural é a mais difícil das poses

 

É justamente essa convicção que o condena:

Como escreveu Oscar Wilde, “Ser natural é a mais difícil das poses”.

Michkin não posa, não finge, não constrói uma personagem que possa se encaixar

nas expectativas alheias.

Ele simplesmente é. Paradoxalmente, isso o torna insuportável para aqueles

que se acostumaram a viver por trás das máscaras.

Os que cruzam seu caminho, não sabem exatamente como reagir a ele:

Alguns tentam zombar, enquanto outros tentam o explorar.

Poucos são os que, no fundo, sentem uma mistura incômoda de admiração

e de desprezo.  

Rogójin, com sua paixão avassaladora e autodestrutiva, vê nele, algo que gostaria de ser,

mas não consegue.

Nastasya Ffilippovna, consumida pelo fogo da própria ruína, oscila entre vê-lo

como um redentor e um ingênuo patético.

Os outros personagens o tratam como a um enigma: uma peça deslocada no tabuleiro social.

Alguém cuja existência desafia a lógica cruel a que todos já se resignaram.

 É exatamente isso que os perturba.

Michkin não se encaixa na narrativa de que a sobrevivência exige concessões.

Que a virtude não pode coexistir com a realidade, pois sua presença escancara a mentira

que todos prefeririam continuar contando a si mesmos.

Que a corrupção é inevitável e que a bondade pura não passa de uma ilusão infantil.

Mas a verdade é que Michkin não é apenas uma vítima:

Ele é um sintoma, um reflexo das contradições que Dostoievski via na própria humanidade.

Ele é, de certa forma, uma versão extrema de Cristo, um homem que tenta carregar

o fardo do sofrimento alheio, sem pedir nada em troca.

Por isso mesmo, ele se torna insuportável para quem não suporta ser vistos tão de perto.

 

Nada é mais difícil de perdoar do que uma superioridade que nos humilha.

 

Nessa frase de Tocqueville, por mais que não tente se impor, Michkin faz lembrar que a vida poderia ser diferente, que as pessoas poderiam ser melhores que o mundo, e não precisaria ser um jogo constante de dominação e submissão.

No entanto, ele não triunfa.

Não há redenção para Michkin, porque a sua tragédia não é apenas a sua tragédia,

A sua tragédia é de toda a humanidade.

Ele não é o idiota, porque não entende o mundo:

Mas, por entender bem demais, e ainda se recusar a agir, de acordo com as regras

que garantiriam sua sobrevivência.

Diagnóstico? Não há.

Dostoiévski não era um escritor de respostas fáceis.

Ele não consola com mensagem otimista. Nem oferece caminhos de esperança.

Ele nos força a encarar o abismo da nossa própria hipocrisia, ao nos perguntar:

Se encontrássemos um Michkin hoje, será que o trataríamos de maneira diferente, ou continuaríamos a esmagar aqueles que nos fazem lembrar de tudo o que perdemos ao longo do caminho?

Tivemos políticos que abominaram a alfândega.

Relegaram o Ministério da Fazenda a um antro de conspiração insalubre.

Reduziu o Supremo, que aplica as leis, a um covil de covardes.

A conclusão da jornada de Michkin não poderia ser outra, senão a dissolução de sua própria identidade.

Ele não se torna mártir, no sentido clássico, pois sua tragédia não é enobrecedora.

Não há uma redenção catártica, nenhum sacrifício glorificado que inspire os outros a mudarem.

Michkin não morre de forma dramática nem provoca uma revolução moral no coração

daqueles que o destroem:

Sua queda é silenciosa e embalada por um esvaziamento gradual de tudo.

Uma vela consumida pela própria chama.

Ao fim, já não restava nada mais, além do espectro de um homem que tentou permanecer

Íntegro, em um mundo que não tolera aquilo que não pode ser absorvido ou corrompido.

Seu destino não é apenas triste, mas a evidência brutal de que a pureza absoluta não pode coexistir com a complexidade humana sem ser aniquilada.

Dostoiévski nos força a encarar essa verdade, sem concessões.

Ele não nos oferece um consolo tardio, uma moralidade açucarada, que restaure o equilíbrio da história, como fariam outros autores menos cruéis.

Não há uma virada final, onde os vilões percebem seus erros, nem onde os corruptos se arrependam, ou onde o mundo se curve, diante da força de um espírito genuinamente bom.

Michkin termina onde precisava terminar:

Destruído, não porque fez algo de errado. Mas, por não ter feito nada diferente:

Nietzsche nos alertou:

“Aqueles que foram vistos dançando, foram julgados insanos, justo por aqueles que não podiam ouvir a música”.

Michkin dançou sem perceber que para os olhares infiéis, sua dança era ofensiva.

A grande ironia de sua trajetória é que ele nunca tentou impor sua visão de mundo.

Ele não acreditava que poderia forjar a bondade em alguém.

Apenas existia, como deveria ser, acreditando que sua presença e a sua forma de ser

poderia ser suficiente para iluminar as trevas alheias.

E o que faremos com um espelho que nos mostra aquilo que preferíamos não ver?

O quebramos? Rimos dele?

O desprezamos, até que ele seja desfeito em fragmentos irreconhecíveis?

Não há gritos nem uma grande cena final, onde ele desafia aqueles que o traíram.

Seu fim é o de alguém que se esvai.

Que desaparece em um estado de desintegração psíquica, e é reduzido à loucura,

não porque perdeu a razão, mas, porque o mundo ao seu redor o esmagou,

ou porque não havia mais lugar para ele na realidade que o cercava.

Este talvez seja o aspecto mais aterrador de sua história.

Ele não é derrotado por um grande inimigo; por uma força externa esmagadora,

Mas pelo acúmulo de pequenas indiferenças, dos cinismos cotidianos de desprezo

disfarçados de superioridade.

E agora, o que nos resta?

Vou ser repetitivo. Dostoiévski não nos dá respostas.

Ele apenas nos obriga a encarar a pergunta que nunca deixamos de evitar:

Somos nós, os idiotas por termos nos tornados espertos?

 O mundo realmente pode ser salvo pela beleza, ou Dostoievski estava apenas se iludindo?

O poeta inglês, T. S. Eliot, disse:  “O mundo não terminará com uma grande explosão. Mas com um longo e profundo suspiro”.