terça-feira, 6 de outubro de 2026

Machado de Assis

 


Machado de Assis e a natureza humana

 

Imagine que você conhece um homem educado, sofisticado, aparentemente inofensivo, ele sorri, discursa com elegância, e parece compreender o mundo com uma lucidez invejável, mas, por trás desse verniz, ele esconde um espírito corrosivo, um olhar cético, que vê o ser humano como um animal ridículo, patético, em suas pretensões de grandeza.

Você confiaria nesse homem?

E se esse homem for você?

A alma não tem segredo que o comportamento não revele. A grande ironia de Machado de Assis é que ao ler suas obras, você não está apenas observando personagens, você está se olhando no espelho. Seu talento era brutal e ele sabia que a natureza humana é uma dança entre vaidade e fraqueza, entre ambição e a autossabotagem. Sua genialidade consistia em desmontar, peça por peça, a ilusão que cada um de nós constrói sobre si mesmo.

Machado nos despia de nossas máscaras sociais com uma precisão cirúrgica: expunha a hipocrisia latente que permeia as nossas ações mais banais. Em Memórias póstumas de Brás Cubas, o protagonista, o defunto-autor, narra sua vida sem o menor pudor moral, e não há tentativa de redenção e nenhum vestígio de remorso, pelo contrário, Brás Cubas se orgulha de suas falhas, e trata sua mediocridade com ironia refinada, e expõe suas ambições frustradas como se fossem conquistas: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Ele diz no fim do livro.

É uma confissão cínica, mas ao mesmo tempo, uma das verdades mais cortantes sobre a existência humana, porque no fundo, o que somos, senão passageiros de um jogo sem regras fixas, tentando de alguma forma deixar um vestígio que justifique nossa passagem pelo mundo, mas a ironia mais cruel desse romance não está apenas no protagonista, mas, no leitor.

Você se identifica com Brás Cubas, você ri com ele, e o acompanha em sua jornada egocêntrica, talvez até concordando com algumas de suas observações ácidas sobre a sociedade, e é nesse momento que Machado de Assis lhe aplica um golpe certeiro. Aqui, você pode rir, mas saiba que a sua risada é um riso nervoso, um desconforto disfarçado de humor, porque no fundo você percebe que também tem um pouco desse personagem.

Quantas vezes você já tomou decisões motivadas pelo orgulho?

Quantas vezes manipulou os outros, sem perceber ou justificou atitudes egoístas com verniz de racionalidade? É exatamente aí que a literatura machadiana se torna um campo minado. Você caminha por suas páginas, achando que está apenas apreciando uma boa história, mas de repente se vê envolvido em um dilema moral, que o coloca contra a parede. Se você estivesse na posição de Brás Cubas faria diferente ou melhor? Se você tivesse poder suficiente para agir, sem medo de represálias, ainda manteria intacto e seus princípios?

Ao analisar o fenômeno do mal banal, Hanna Arendt observou que os piores crimes podem ser cometidos, não por monstros, mas por pessoas absolutamente comuns, que simplesmente deixam de refletir sobre suas ações, e Machado já apontava (mais de meio século antes) para esse abismo. A  pergunta que ele nos impõe, não é simples, e não se trata apenas de questionar se seria mais corruptos cínicos ou oportunistas se tivéssemos a chance; o que ele nos força a encarar é a fragilidade da nossa própria moralidade. Será que somos íntegros, porque de fato possuímos uma ética inabalável ou será que apenas nunca estivemos na posição de sermos testados de verdade?

Nietzsche em, Além do bem e do mal, diz que todo homem tem o direito de conhecer até que ponto pode descer. Machado sem precisar afirmar isso diretamente, já demonstrava o mesmo princípio. Ele compreendia que o ser humano não é bom ou mau, por essência, mas um amálgama caótico de impulsos contraditórios, sempre oscilando entre a conveniência e a virtude; e é por isso que suas histórias continuam tão vivas; porque, ao contrário das narrativas convencionais que oferecem heróis e vilões bem definidos, Machado nos entrega personagens que poderiam ser qualquer um de nós, e isso é perturbador.

Ler memórias póstumas de Brás Cubas não é apenas um exercício literário, mas um convite a encarar a própria consciência. O livro não nos permite o conforto da neutralidade, ou você admite que já se comportou como Brás Cubas, em algum momento da vida... ou mente para si mesmo? Então sejamos honestos: se você tivesse o poder de fazer tudo sem consequências, você seria diferente de Brás Cubas? Ou será que o que nos impede de sermos tão mesquinhos quanto ele, não é um senso moral elevado, mas, o medo do julgamento alheio?

Esta é uma pergunta que incomoda, mas que precisa ser feita afinal de que adianta passar pela vida, sem filhos, sem deixar um legado, e ainda assim transmitir adiante o pior da natureza humana?

O ser humano é uma criatura obcecada por certezas: gostamos de acreditar que sabemos distinguir o certo do errado, e conseguimos separar a verdade da ilusão, mas, e se no fim das contas estivermos apenas prisioneiros das nossas próprias interpretações?

E se aquilo que chamamos de realidade for apenas um reflexo distorcido do que queremos enxergar?

Essa que é a grande armadilha de dom casmurro.

Os grandes escritores não entregam respostas. Eles nos obrigam caminhar pelo terreno pantanoso da dúvida, e a encarar o fato de que a nossa percepção pode ser tão falha quanto nossas emoções, mas esse não é o único aspecto da natureza humana que Machado nos presenteia com sua narrativa.

A história de Bentinho e Capitu é um experimento cruel sobre os limites da subjetividade. Bentinho é um homem consumido pela insegurança. Bentinho é um prisioneiro de sua própria mente paranoica. Ele conta sua versão dos fatos em uma narrativa marcada por um ciúme corrosivo e uma necessidade desesperada de controle; mas, será que podemos confiar nele? Será que a sua visão não está distorcida pelo medo de ser traído, ou pela angústia de perder aquilo que acredita possuir?

De acordo com Freud, nós projetamos os nossos medos nos outros. Aquilo que condenamos no próximo, pode ser um reflexo do que não conseguimos aceitar em nós mesmos.

E se Bentinho não foi traído?

E se ele não passou de vítima do próprio delírio?

Neste aspecto ele fere uma mulher independente, destruída por um espírito possessivo.

A genialidade do romance está no fato de que nunca saberemos a resposta.

Machado não nos entrega a verdade de bandeja. A verdade em si é um conceito nebuloso, pois não há fatos, apenas interpretações. E o que importa não é se Capitu traiu ou não, mas o que essa dúvida diz sobre nós, porque a questão real não está no livro, mas na forma como o leitor reage a ele.

Se você acredita cegamente em Bentinho, talvez seja porque reconheça, nele, algo de si mesmo.

Se desconfia da culpa de Capitu, talvez seja porque já sentiu na pele o peso de um julgamento injusto.

E se você oscila entre uma versão e outra, então, parabéns. Você entendeu que o mundo não se divide entre verdades absolutas e mentiras implacáveis. O mundo conversa com percepções subjetivas, todas contaminadas por emoções, desejos e traumas. O ciúme de Bentinho não é apenas uma insegurança romântica. É um sintoma da nossa necessidade de controle, da dificuldade em aceitar que o outro é um ser independente, com desejos e vontades próprias.

A sociedade sempre tentou domesticar as mulheres: impor a elas papéis rígidos que as transformassem em espelhos, em que os homens pudessem se admirar.

Capitu com seus olhos ditos “de ressaca” desafia essa lógica. Ela não é uma donzela passiva e não se encaixa no molde da mulher submissa, que aceita seu destino, sem resistência; e, talvez seja exatamente isso, que a torna tão perigosa para Bentinho, que não quer apenas o seu amor; ele quer a garantia absoluta de que ela pertença a ele, e que nunca o enganará; e nunca o abandonará.

Esse tipo de garantia não existe, nem de um lado, nem de outro.

Se pensarmos bem Capitu foi julgada, não apenas, por Bentinho, mas por toda a sociedade ao seu redor. Seu crime não foi comprovado, mas a suspeita foi suficiente para destruí-la.

Quantas vezes isso já aconteceu na história de muitos?

Quantas mulheres e homens foram condenados sem provas, apenas, porque desafiaram as expectativas alheias.

Quantos Bentinhos preferiram destruir aquilo que amavam, a viver com a angústia da incerteza?

Você já se viu nessa posição?

Você já teve medo de perder alguém, a ponto de criar paranoias em sua própria mente?

Você já desconfiou de algo, sem nenhuma prova concreta, apenas por que o ciúme sussurrava em seu ouvido?

Você já foi vítima desse tipo de julgamento? Já teve sua reputação manchada por boatos e suspeitas infundadas?

A verdade é que todos nós somos Bentinho, em algum momento da vida.

Todos já nos deixamos consumir por dúvidas; já enxergamos traições, onde talvez só houvesse coincidências, e todos em algum nível já fomos Capitu, também acusados, incompreendidos, reféns da versão que os outros criaram sobre nós?

E se a grande lição de Dom Casmurro não for sobre fidelidade, mas sobre a incapacidade humana de lidar com a ambiguidade?

Sobre o medo visceral que sentimos diante da incerteza?

Machado de Assis nos força a encarar um dilema cruel:

O que é mais insuportável; ser enganado ou nunca ter certeza da verdade?

O mundo não é regido pela bondade, mas pela força, essa é uma verdade incômoda, cruel, difícil de aceitar.

Machado de Assis nunca esteve interessado em pintar um retrato cor-de-rosa da realidade.

Em Quincas Borba, ele nos apresenta uma filosofia de nome cômico, mas de implicações brutais: o humanitismo. O que vem a ser isso?

De acordo com Machado, humanitismo é um sistema de pensamento onde a vitória é o único critério de justiça; e o fracasso é a prova de que alguém não era digno de sobreviver.

Parece absurdo? Olhe ao seu redor.

O mundo que habitamos não é essencialmente o mesmo que o cão, Quincas Borba, ladrou ao seu mestre.

O sucesso só exalta o vencedor. Não importa o caminho que ele percorreu.

O fracasso condena o derrotado, independentemente das circunstâncias que o levaram até lá.

Rubião, o ingênuo herdeiro do filósofo enlouquecido, é um estudo de caso sobre como a inocência e a falta de astúcia são sentenças de morte em uma sociedade onde os mais espertos devoram os mais fracos.

Ele acreditava na amizade, confiava cegamente nas intenções alheias, e se entregou ao jogo da vida, sem perceber que estava cercado por predadores.

E o que acontece? Pouco a pouco, o vimos ser destroçado pelos supostos amigos, que não hesitaram em o explorar; manipular, sugar, até que não restasse mais nada.

É uma lição dolorosa? Pressuposto. Afinal, o mundo pertence aos dissimulados; aos que compreendem que a moralidade é um véu frágil que se rasga diante do desejo de poder, e o mais perverso é que no fundo todos sabemos disso, e apenas fingimos não saber, porque, admitir essa verdade nos tornaria cúmplices.

Nietzsche escreveu que o homem de ação não se atormenta com a moralidade.

Ele impõe sua vontade ao mundo, e Machado de Assis, décadas antes, já expunha esse princípio, de maneira brilhante.

Os vencedores não se preocupam em justificar seus atos, porque a própria vitória já os justifica.

Napoleão, Alexandre, César e todos os grandes conquistadores da história foram ao mesmo tempo, heróis e tiranos; amados por aqueles que se beneficiaram de suas façanhas e odiados pelos que pereceram em seu caminho.

Mas qual deles foi julgado como um fracassado? Nenhum.

O fracasso não tem direito a narrativa. Só o vencedor escreve sua versão dos fatos.

E você onde se encaixa nisso tudo?

Você se vê como Rubião? Um ingênuo herdeiro, jogado às feras; ou secretamente admira aqueles que jogam o jogo com frieza, e afasta por estratégia um falso desapego?

Talvez você queira acreditar que é possível vencer sem pisar em ninguém.

Talvez, você acredita que existe um caminho nobre para o sucesso.

Talvez até haja, mas sejamos realistas: quantas pessoas chegam ao topo usando somente das boas intenções?

No Tabuleiro da vida, dizem os enxadristas, que os peões são os primeiros a cair; e não se iludam: o mundo não recompensa a pureza. Recompensa a habilidade de jogar, conforme as regras invisíveis, que realmente governam a sociedade.

O Humanitismo, essa teoria absurda, que transforma a competição em um princípio sagrado, realmente soa tão distante da nossa realidade?

É só olhar para o mercado de trabalho; para a política, para a cultura das redes sociais, onde a busca por status transforma pessoas em personagens, mudando suas vidas, para caber no espetáculo da aprovação pública.

O que vale mais? Ser talentoso ou saber se vender?

Ser justo ou ser forte? E no fim, o que diferencia um homem que sobe na vida de um que desmorona no caminho?

Seria mérito esforço ou simplesmente, a sorte de ter nascido com um instinto afiado para o jogo da sobrevivência?

Rubião perdeu tudo, porque acreditou que o mundo seguia uma lógica moral e acreditou que gentileza seria recompensada, e que confiança era um valor seguro que as pessoas ao seu redor compartilhavam. Pura ingenuidade.

 A verdade é que a selva social não tolera os desarmados.

Vale mais uma pergunta: Quando foi a última vez que alguém o enganou? Lógico que nenhuma dessas perguntas pedem respostas públicas. Elas devem ser inseridas em suas autoanálises.

 Quando foi a última vez que acreditou em promessas que nunca se cumpriram, ou pior, quando foi que percebeu que a bondade, por si só, não era suficiente para protegê-lo?

Machado de Assis nos lança mais um dilema desconfortável:

Para sobreviver, precisamos abandonar a ingenuidade. Mas ao fazer isso, o que nos resta, se nos tornamos frios e estratégicos? Ainda somos humanos?

E se nos recusarmos a jogar o jogo, será que não estamos fadados a ser apenas mais um Rubião, tragado pelo mundo sem piedade?

O destino de um homem não é escrito pela sorte, mas pelas suas escolhas e muitas vezes pelas escolhas que os outros fazem por ele.

Machado de Assis compreendia como poucos a forma sutil quase invisível, com que o meio esculpe os indivíduos; definindo quem acende e quem é condenado à insignificância.

Mas a pergunta que persiste em sua obra é ainda mais cruel:

E se aquilo que chamamos de livre arbítrio não passar de uma ilusão conveniente?

E se os caminhos que tomamos forem apenas respostas automáticas aos fios invisíveis que nos manipulam desde o nascimento?

Em seu livro, Esaú e Jacó, ele desconstrói a noção romântica do destino, como algo grandioso e transcendental. Nesse livro, acompanhamos os irmãos Pedro e Paulo, gêmeos, que desde a infância encararam forças opostas: um, conservador e pragmático; o outro, revolucionário e inquieto.

Isto poderia ser um drama épico sobre grandes ideias e embates filosóficos, mas Machado em sua ironia afiada revela a verdade incômoda: essa dualidade não nasce da essência dos personagens, mas das circunstâncias.

Eles não são opostos por convicção, mas por serem jogados em lados distintos de um Tabuleiro, cujas regras eles nunca entenderam completamente; e o mais irônico de tudo é que, no fundo, eles são idênticos em sua mediocridade; reféns do mesmo jogo de vaidade, tão previsível

É impossível ler essa obra sem lembrar da famosa frase de Schopenhauer: “o homem pode fazer o que quer fazer, mas não pode querer o que quer ser”.

Nossas paixões nossas inclinações políticas nossos desejos mais íntimos tudo isso pode parecer resultado de escolhas racionais, mas será que realmente é o ambiente em que crescemos, as pessoas que nos cercam, as ideias que absorvemos, sem perceber, que moldam cada decisão que tomamos?

E no fim, passamos a vida nos convencendo de que somos autores da nossa própria história, quando na verdade talvez sejamos apenas personagens secundários de uma peça escrita muito antes de nascermos. E não se enganem, vocês também carregam dentro de si, essas amarras invisíveis.

Suas opiniões políticas, sua visões de mundo, seus sonhos e ambições, quantos deles foram realmente escolhidos por você, e quantos foram herdados sem questionamentos, aceitos como verdades absolutas, simplesmente, porque eles foram apresentados às suas vidas, desde cedo, e essa é a tragédia humana que Machado expõe com precisão cirúrgica.

Acreditamos ser donos do nosso destino, mas na maioria das vezes estamos apenas seguindo um roteiro já escrito.

Pedro e Paulo lutaram como se suas ideologias fossem grandiosas, mas no fundo, eles foram apenas dois homens presos a um conflito que os ultrapassara; que existiria, com ou sem eles, pois  já estava em movimento, antes que pudessem entender sua própria existência.

Se essa constatação o incomoda, ótimo, porque incomodar significa que talvez haja uma chance de escapar dessa armadilha, e um nível de lucidez que poucos alcançam, devido à sua capacidade de questionar.

Cada certeza de desconstruir, cada pensamento confortável, admitir que aquilo que acreditamos seja a nossa identidade, pode não passar de um reflexo do meio que nos moldou.

Estou pensando em Foucault: “O primeiro castigo imposto a um prisioneiro é fazê-lo acreditar que a prisão é sua casa”. Quantas dessas prisões invisíveis você carrega, e quantas decisões você já tomou, acreditando que eram suas? Quando na verdade eram apenas ecos de influências externas.

Leia o livro e pare para analisar que a grande provocação, em Esaú e Jacó, não é apenas sobre política, dualidade ou conflitos ideológicos: é sobre a própria natureza da liberdade.

Porque, se tudo que somos é produto do meio, se nossas escolhas são apenas reflexos de forças, que mal compreendemos, então o que significa de fato ser livre?

Liberdade é apenas uma ilusão necessária, para que não enlouqueçamos diante da realidade, onde somos manipulados o tempo todo? Ou existe em algum lugar, um espaço de autonomia genuína, um momento em que podemos romper essas correntes invisíveis, e decidir verdadeiramente quem somos?

E agora? Quantas das suas certezas são realmente suas?

E se amanhã você acordasse e descobrisse que tudo o que acredita, sobre si mesmo, foi apenas um produto das circunstâncias; você continuaria vivendo da mesma maneira ou finalmente começaria a questionar cada escolha que já fizeste?

Vem aí, mais uma cruel das constatações machadianas: não importa se tentemos nos libertar das correntes invisíveis, que nos aprisiona, pois haverá sempre uma força maior, uma estrutura oculta que nos moldará e nos conduzirá, sem que sequer percebamos. É o que chamamos de identidade de essência de vontade própria, que pode não ser mais do que uma ilusão refinada, uma peça de teatro bem ensaiada, onde desempenhamos papéis que nos foram atribuídos, antes mesmo, de termos consciência de nós mesmos.

A pergunta que Memórias póstumas de Brás Cubas lança contra o leitor:

O que sobra do homem, quando arrancamos dele todos os véus da hipocrisia, do orgulho e da vaidade?

O que restaria de você, se tudo aquilo que acredita ser, fosse na verdade uma construção artificial?

Brás Cubas é o narrador de sua própria vida. A voz não é a de um homem arrependido nem a de um sábio que aprendeu grandes lições ao longo de sua existência; pelo contrário, ele ri da própria mediocridade. Zomba de si mesmo e de todos ao seu redor.

Sua narrativa é um testamento do fracasso humano; mas um fracasso sem dor, sem melodrama e passa a ser uma constatação fria e irônica, de quem viveu sem propósito, sem ter realmente conquistado nada de substancial, e ainda (assim) acha graça disso, pois não busca a redenção e não espera a simpatia; ele apenas expõe com um cinismo sinistro, a falta de sentido de sua trajetória.

Esta é a grande sacada do romance, Brás Cubas. Antítese do herói tradicional, pois não sofre uma grande transformação, não se ilumina no fim da jornada, não encontra um significado profundo para sua existência, e tanto ele não impõe a nos olharmos no espelho, nem nos impinge a nos perguntar: Será que somos tão diferentes?  Será que não passamos a vida acumulando ambições vazias, correndo atrás de status, reconhecimento de pequenas vitórias, que no fim das contas não significam absolutamente nada?

Como dizia Pascal, “Toda a infelicidade dos homens provém de uma única coisa: não saber ficar em repouso dentro de um quarto; nós precisamos da ilusão de que estamos indo a algum lugar e de que nossas conquistas importam, de que há um sentido maior por trás de tudo, mas e se não houver?

E se a existência for apenas um desfile de futilidades? Um teatro onde cada um se esforça para parecer mais importante do que realmente é?

A ironia de Machado é devastadora, porque nos força a encarar essa possibilidade sem nos dar nenhum consolo.

Em Memórias póstumas, não há destino glorioso, não há justiça cósmica, não há aprendizado edificante; apenas um morto que narra sua vida, sem nostalgia, sem arrependimento, sem sequer um pingo de romantismo; e talvez esse seja o golpe mais duro perceber que o mundo não precisa de grandes dramas para continuar girando.

Pessoas morrem, suas histórias terminam, e o tempo segue indiferente. Ele nos joga na cara, a ideia incômoda de que talvez a única maneira de escapar da dor da existência, seja não deixar rastros, não prolongar o sofrimento, para as próximas gerações; e se formos honestos, teremos que admitir algo de libertador nesse niilismo, porque se nada realmente importa; então não há obrigação de corresponder às expectativas de seguir regras arbitrárias, de se curvar às pressões sociais que nos sufocam, mas ao mesmo tempo, há algo de aterrorizante nisso, porque se nada tem sentido, qual a razão de continuarmos?

Por que levantar da cama todas as manhãs?

Por que insistir em amar e em construir, em sonhar?

Kierkegaard dizia que “O desespero supremo é o homem perceber que é livre, porque a liberdade radical o obriga a criar seu próprio significado”. Talvez seja exatamente isso que Machado nos sugere: se não há um propósito absoluto, cabe a nós inventarmos um.

 Últimas reflexões:  

O que me faz continuar, e o que me impede de ser mais um Brás Cubas, rindo do vazio da existência? Será se encontrei um significado real, ou apenas me agarro às mesmas ilusões que ele zombava, se tudo fosse arrancado de mim? Status, ambições, identidade... Restaria alguma coisa ou apenas a constatação de que, no fim, sempre fomos personagens de uma história que nunca esteve sob o nosso controle?

 


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