Cioran –
Existência
Será que
a vida é mesmo digna de ser vivida ou estamos todos condenados pelo fardo de
existir.
Erro é
acreditar que a finalidade de existirmos se pauta no motivo felicidade.
Ao
filósofo romeno, Emil Cioran, o peso da angústia talvez tenha começado no fato
de ser filho de um padre ortodoxo e uma mãe profundamente melancólica.
Cioran
cresceu num ambiente em que o sofrimento não era uma ideia abstrata, mas uma
realidade praticamente tangível. A dualidade, a espiritualidade e o desespero
marcaram sua trajetória. Moldou um pensamento que iria chocar e fascinar
gerações.
O homem
que escreveu frases como: “A vida é tolerável, apenas, quando a olhamos como
uma tragédia”, um homem desses não tinha interesse em maquiar a realidade
com ilusões ou idealismos. Ele se tornou o arauto de uma verdade brutal, ao
afirmar que a existência é um fardo.
Mas ele não
parou neste poço de desespero.
Pelo
contrário, Cioran transformou o niilismo em um ato quase poético, uma arte de
viver sem amarras ou ilusões. Ele nos faz imaginar a sua coragem em questionar
o que está por trás da fachada do nosso próprio cotidiano.
Em suas
primeiras obras, se pegarmos – Nos cumes do desespero – escrita ainda na juventude,
Cioran já demonstrava sua relação íntima com o tormento, e confessava, sem
vergonha de dizer, que os anos, passados acordados em plenas noites insones moldaram,
não apenas o seu estilo de vida: mudara sua
visão de mundo.
Ele
dizia, que enquanto o sono nos permite esquecer por alguns instantes a tragédia
de viver, a insônia nos põe, cara a cara com ela. Que a insônia é uma lucidez
cruel que nos torna incapazes de ignorar a futilidade de tudo.
Aqui nos
perguntamos: quantas vezes nos deitamos, à noite, com a cabeça no travesseiro e
sentimos aquele vazio que nos consome por dentro?!
Não, aquele
vazio que se resolve com o mergulho infinito, nas redes sociais, ou com mais
uma série de tevê.
Falo
daquele abismo que por um instante faz você questionar o porquê de tudo isso,
porque no fundo no fundo, todos já estivemos lá, e é exatamente esse ponto de
ruptura que Cioran transforma em poesia.
Cioran não
foi um homem consumido pelo ódio, nem pelo desespero absoluto; pelo contrário,
havia nele, uma estranha ternura pela tragédia humana, e ele enxergava a
fragilidade como nossa característica mais essencial - algo que nos une em
nossa condição universal.
Em um de
seus textos, Cioran quis nos dizer que a vida, apesar de não ter significado, nos
liberta para encontrar significado em pequenas coisas; e que paradoxo
fascinante é essa sua aceitação do absurdo. Não era um convite ao abandono, mas
uma chance de reinventar a vida em seus próprios termos.
Ao
abraçar o vazio podemos enfim parar de buscar respostas definitivas e começar a
viver de forma autêntica. Eu, ainda não tenho a coragem de soltar as rédeas das
certezas que me mantêm seguro.
A vida
de Cioran é por si só um exemplo dessa contradição. Apesar de seu profundo
desencanto, ele permaneceu vivo, escrevendo e refletindo até aos 84 anos de
idade.
Como é
possível que um homem que desprezava a existência tenha vivido tanto tempo?!
Talvez,
porque ele compreendia melhor do que ninguém que a vida não é uma jornada em
busca de felicidade, mas uma dança constante entre dor e o alívio vazio e a plenitude.
Ele
dizia que viver era uma doença e a única diferença entre um homem e outro é o
estágio em que se encontra a tal doença. No entanto, afirmar aquilo era sua
maneira de enxergar beleza na doença, porque, segundo ele, o sofrimento em
nossa existência é o que nos torna humanos.
E eu me pergunto,
mais uma vez: qual é o peso que carrego, e se tenho coragem de olhar para esse
peso e o reconhecer; talvez, até rir do absurdo disso tudo, porque no fundo
essa era a grande lição de Cioran: rir do abismo, não porque ele não existe,
mas porque ele está ali, inescapável, e nos cabe apenas decidir como
enfrentá-lo. A obra de Emil Cioran é um convite à desconstrução total, do que
entendemos por existir, e essa desconstrução não é feita com delicadeza, mas
com um bisturi afiado que corta sem anestesia. Se no início de sua trajetória
ele já nos instigava a olhar para a vida com uma lucidez quase dolorosa, suas
obras maduras nos arrastam ainda mais fundo, no labirinto do pensamento humano:
Breviário de decomposição e Silogismos da amargura, são tratados
filosóficos que rejeitam qualquer idealismo, e não oferecem caminhos para a redenção
ou fórmulas para a felicidade; pelo contrário, são livros que rasgam as
cortinas de nossas ilusões, e deixam claro que a existência em sua essência é
um paradoxo que desafia qualquer tentativa de explicação definitiva.
Quem não
já sentiu aquela sensação de que por mais que tentamos organizar a vida, há
sempre algo escapando entre os dedos, como se a própria realidade zombasse da
nossa tentativa de controle. Cioran descreve isso de maneira magistral, e
afirma que nossa busca incessante por sentido é o que nos acorrenta à angústia.
Ao contrário do que pregam muitos filósofos ou religiosos, o sentido da vida,
segundo ele, não é algo que precisamos descobrir ou alcançar. Na verdade, ele
questiona, se esse sentido sequer existe. Tudo o que somos é um grito abafado
no silêncio do universo. Será que não é justamente a incapacidade de aceitar o
vazio, o que nos mantém presos em um ciclo de sofrimento? Na ânsia de preencher
o buraco que sentimos dentro de nós, nos afogamos em trabalhos, relacionamentos
ou prazeres passageiros; mas, nunca nos perguntamos se essa busca incessante é,
em si, uma ilusão?!
E o mais
perturbador é que Cioran não condena essa contradição. Ele a explora, como um
cientista que disseca um organismo vivo. Em um de seus aforismos mais emblemáticos, ele
escreve: “vivemos entre duas eternidades que não nos pertencem”. O que
ele quer dizer com isso? Simplesmente, o passado e o futuro são territórios
inatingíveis. O que somos no presente é uma existência frágil: um sopro de vida
cercado por mistérios, que nunca compreenderemos. No entanto, em vez de buscar
conforto em respostas fáceis, ele nos desafia a olhar para esse abismo de
incerteza, com coragem, ou a resignação de quem sabe que lutar contra o
inevitável é em vão, mas não confunda essa resignação com apatia; ao contrário
do que muitos podem pensar, o pessimismo não é uma entrega ao desespero, mas
uma forma de rebelião contra a superficialidade.
Cioran nos
pede que abandonemos as distrações que nos cegam, e encaremos a vida como ela
realmente é: imperfeita, transitória e cheia de contradições. Há beleza nisso,
mas é uma beleza que exige coragem para ser apreciada, afinal como ele bem
coloca, a consciência é uma ferida que nunca cicatriza. Nós já sentimos isso:
aquela consciência incômoda, de que por mais que se tente, nunca se estará
completo. Porque a vida, ao mesmo tempo em que é um presente, ela carrega o
peso de uma sentença, e é nesse ponto que Cioran nos faz refletir sobre a nossa
obsessão em buscar redenção, seja por meio da religião, da ciência ou até mesmo
do progresso humano.
Ele via
tudo isso como máscara, e nos desencoraja a esconder a verdade nua e crua,
porque não somos heróis de uma jornada épica, mas seres frágeis tentando
encontrar sentido em um universo que não nos oferece garantias. Simplesmente, nos
apegamos a narrativas que nos fazem sentir especiais, além disso, buscamos
significado em tudo, desde as nossas rotinas diárias aos grandes eventos
históricos; tudo isso, na tentativa desesperada de nos colocarmos no centro de
algo maior. Cioran desmonta essa ilusão com uma sinceridade quase cruel, mas,
profundamente libertadora. Ele nos diz: a salvação está em desistir da
necessidade de sermos salvos, talvez seja isso, o que mais incomoda em sua
filosofia. Ela não oferece um final feliz, mas ao mesmo tempo oferece algo
incrivelmente humano.
Em sua
visão, Cioran nos lembra que o sofrimento não é um erro, mas uma condição
inerente à vida. E ao aceitar isso, podemos começar a viver de maneira mais
autêntica, sem a pressão constante de alcançar um ideal que nunca existiu. É desconfortável,
sim, mas também é uma forma de libertação, afinal, o que restaria de nós, se parássemos,
antes de nos agarrar às ilusões, e encarássemos de uma vez por todas, o que
realmente somos. É intrigante pensar como Emil Cioran transformou o ato de
existir em um campo de batalha filosófico, onde a vitória não está em encontrar
respostas, mas em sobreviver à lucidez que essas perguntas impõem. Para ele, o
ato de confrontar o vazio não era um luxo intelectual, mas uma necessidade
visceral; e é aqui que encontramos uma de suas ideias mais subversivas: o
confronto com o absurdo não nos destrói, mas nos torna livres.
Você já
refletiu sobre isso? Sobre como a clareza brutal pode ser uma forma de alívio? É
como arrancar uma venda dos olhos, após anos na escuridão: a luz pode ser
dolorosa, no início, mas logo se percebe que ela traz algo que nenhuma ilusão
pode oferecer: a verdade nua e desarmada. Cioran dizia: é preciso carregar o
peso da vida com uma leveza atingida, pois levar as coisas a sério é já estar
morto, e ironicamente, talvez seja. Ele não escrevia para confortar; muito
menos, para oferecer saídas fáceis. Seus textos são como espelhos deformados,
que revelam, não apenas nossas fragilidades, mas a ridicularidade da condição
humana.
Para ele
o que chamamos de propósito de sentido é uma invenção desesperada. É uma
tentativa de dar forma a um caos que jamais será domado. O que pode ser a vida,
senão o intervalo entre dois nadas? Escreveu ele, como quem já havia abandonado
qualquer esperança de encontrar um ponto fixo no universo. No entanto, ele não
era cínico, no sentido comum da palavra: sua escrita carregava uma intensidade
quase poética; uma vontade de desvendar os paradoxos mais íntimos da alma; e
sabia que ao explorar o abismo, ele também estaria criando uma ponte, não para
atravessá-la, mas para dançar à beira dela, com a coragem de quem não teme cair.
Aí, nos damos conta de como construímos nossas vidas em torno de certezas
frágeis; muitas vezes, sem nem questionar, se elas têm algum fundamento real. Isso
nos leva também a pensar nas vezes em que buscamos conforto em ideias prontas;
em narrativas que prometiam segurança.
Agora,
imagine se por um momento tivéssemos a coragem de desmontar essas crenças e
encarar o que resta. É disso que Cioran fala, quando nos convida a abandonar a
busca por salvação. Não há resposta definitiva aqui, e, talvez seja exatamente
isso o que torna a vida tão terrivelmente fascinante; afinal, o que seria da
existência, se não fosse essa dança constante entre a esperança e o desespero;
entre o peso esmagador da consciência, e os momentos fugazes de alívio?! Cioran
acreditava que o homem é acima de tudo um ser em conflito consigo mesmo: por um
lado, ansiamos por liberdade; por outro, tememos o vazio que essa liberdade
implica. Nós queremos ser senhores do nosso destino, mas não suportamos a
responsabilidade de viver sem amarras. Ele enxergava nisso a essência da
tragédia humana pelo desejo incessante de fugir de nós mesmos, de nos distrair
com qualquer coisa que preencha o silêncio ensurdecedor do existir.
Cioran afirmava
que a vida é apenas uma longa fuga de nós mesmos. E o escreveu com uma lucidez
que parece atravessar os séculos e nos atingiu em cheio; e, no entanto, ao
invés de condenar essa fuga, ele aceitava como parte do que somos, porque o
erro não estava em tentar escapar, mas em acreditar que há um lugar para onde
fugir. É aqui, que ele nos surpreende, pois mesmo em meio a tanto pessimismo,
há em suas palavras uma espécie de convite à celebração do absurdo; não, uma
celebração ingênua, mas uma celebração que reconhece que, apesar de tudo,
continuamos existindo. O fato de respirarmos, rirmos, amarmos e sofrermos, é, por
si só, uma resistência contra o nada.
É como
se ele dissesse que a vida, mesmo em sua aparente inutilidade, ainda vale a
pena ser vivida. Nem que seja para provar que o vazio não tenha a última
palavra, que somos todos anedotas, que a eternidade contará com a indiferença,
e ele dizia, como quem compreende que o riso, mesmo que carregado de desespero,
é uma forma de desafiar o destino; e talvez seja esse o maior legado de Cioran.
A ideia de que mesmo à beira do abismo, ainda podemos rir, e nesse riso,
encontrarmos algo que se assemelhe à liberdade. Para assegurar que a liberdade
verdadeira não era o ideal romântico; mas o estado brutalmente solitário
desprovido de significados impostos. A liberdade
de olhar para a vastidão do universo e aceitar que não somos nada, além de um
lampejo de consciência em meio à indiferença infinita.
E dizia:
liberdade é quando você não espera mais nada da vida; e embora isso possa soar
desolador, à primeira vista, é também profundamente libertador. Pense nisso. Como
seria viver sem as amarras das expectativas, sem o peso esmagador de
corresponder às narrativas, que dizem o que devemos ser, ou o que devemos
alcançar. Cioran via a vida como uma ópera grotesca, na qual insistimos em
interpretar papéis que no fundo sabemos que não tem relevância alguma para o
enredo. Porque esse enredo simplesmente não existe. Não é curioso, como
passamos tanto tempo tentando nos convencer de que há uma ordem universal, que
nos atribui um propósito; e essa liberdade devastadora, no entanto, vem com
custo alto, a exigir que renunciemos à ilusão de permanência; à ideia
reconfortante de que nossas ações ecoam na eternidade. Para ele, viver
plenamente significa abraçar a efemeridade de cada instante, mesmo sabendo que
tudo o que fazemos se perderá no tempo, como uma gota de chuva que desaparece
no oceano.
Ele
escreveu: nada persiste, exceto o absurdo de tudo. Essa frase carregada de uma
ironia amarga, reflete a essência de sua visão: não há consolo? não há legado
que nos redima? apenas o fato incontornável de que a existência é transitória e
que é precisamente essa transitoriedade que a torna única? Mas, e você já se
perguntou o que resta, quando todas as certezas caem por Terra? já tentou
imaginar uma vida vivida sem justificativas? sem tentar desesperadamente
atribuir sentido a cada momento? Cioran não era um profeta do desespero total:
ele sabia que, mesmo no caos mais profundo, existem fagulhas de beleza; mas,
essa beleza não está nas grandes narrativas que criamos; está no detalhe
naquilo que muitas vezes ignoramos, enquanto corremos atrás de significados
grandiosos.
Para ele,
o simples ato de existir já é uma contradição poética: estamos vivos por
acidente, e morremos sem sentido. Esta é uma sentença dura, mas também um
lembrete de que, ao nos desprendermos de nossas ilusões, poderemos, finalmente,
apreciar a vida em sua essência mais crua. Imagine, por exemplo, o quanto
deixamos de perceber, por estarmos sempre tão fixados em metas inalcançáveis,
ou em expectativas que nem sequer são nossas. Quantas vezes deixamos passar os
pequenos milagres do cotidiano, porque estamos ocupados demais, tentando ser
alguém. Cioran não nos diz para abandonar tudo, e nos tornarmos ascetas ou
eremitas, pelo contrário, ele acredita que devemos habitar o paradoxo; viver
sabendo que não há respostas, e ainda assim continuar criando, amando, sentindo.
Em um de seus trechos mais pungentes, ele escreve: “não é o sofrimento que
nos destrói, mas o fato de buscarmos sentido nele”. É uma provocação ousada,
pois vai contra tudo o que nos ensinam, desde cedo, que a dor deve ter um
propósito; que precisamos aprender algo com ela; que devemos transcendê-la.
Para o
filósofo romeno, a dor é apenas dor; e a tentativa de transformá-la em algo
maior é o que amplifica o sofrimento. Conseguiremos, algum dia, aceitar essa
simplicidade cruel? Poderemos aprender a apenas sentir, sem a necessidade
constante de justificar? Olhando para a obra de Cioran, fica claro que ele não
tinha nenhuma pretensão de oferecer soluções, ou respostas definitivas. Ele era,
antes de tudo, um observador implacável da condição humana; alguém que teve
coragem de dizer o que muitos de nós preferimos ignorar; e talvez seja por isso,
que a sua filosofia continua tão relevante; porque no fundo, todos nós
reconhecemos a verdade em suas palavras, mesmo que seja difícil de admitir que
somos frágeis, transitórios em nossas vidas, embora insignificantes, no grande
esquema das coisas, ainda carregamos um brilho peculiar; um tipo de beleza que
só existe, porque sabemos que ela é finita.
Cioran nos
desafia a enxergar essa beleza, mesmo quando ela parece estar encoberta pelo
véu do absurdo, afinal, quem disse que o significado é necessário para que algo
seja valioso? E é justamente nesse convite que está a lucidez radical em que Cioran
se revela; não, como um pessimista absoluto, mas como um cronista da condição
humana; alguém que se posiciona à margem, observando com uma clareza quase
cruel, os paradoxos que nos constituem. Ele nos força a encarar a pergunta que
evitamos a todo custo: o que nos resta quando abandonamos as ilusões que
alimentam a nossa existência? A resposta, segundo ele, é uma liberdade nua,
despojada de ornamentos que nos coloca diante da vastidão silenciosa do
universo. Essa liberdade não é uma dádiva, mas um peso que exige coragem; como
ele bem disse, ser livre é poder viver sem esperança; mas o que significa viver
sem esperança?
Para
muitos, isso soa como uma sentença de desespero. Para Cioran, é uma forma de
transcendência; é abrir mão da necessidade de controle e de redenção; e ao
fazê-lo, encontrar uma espécie de leveza insuspeitada, e essa leveza não é
confortável: ela exige que confrontemos nossa insignificância com uma
honestidade brutal; e que aceitemos que tudo o que construímos, amamos e
desejamos é, no fundo, transitório; em um mundo onde a busca pelo sentido é
quase uma religião; onde somos bombardeados por narrativas que prometem sucesso,
felicidade é plenitude.
Cioran é
uma voz dissonante, que nos lembra que essas promessas são no melhor dos casos,
paliativos. Ele diz que história de cada um de nós é uma longa tentativa de
preencher o vazio: uma afirmação que soa como um golpe, pois nos força
reconhecer que talvez estejamos correndo atrás de algo que nunca existiu; mas,
será que isso é motivo para desistir, ou será que ao aceitar o vazio,
encontramos uma forma mais autêntica de viver? Para Cioran, aceitar a ausência
de sentido, não é resignar-se à apatia, mas, sim, um ato de rebeldia é recusar
as amarras impostas pelas convenções, e ao mesmo tempo encontrar uma beleza
inesperada na própria fragilidade da vida.
Ele
sugere que há algo quase sublime, na impermanência; na ideia de que somos como
folhas carregadas pelo vento, sem direção fixa, mas ainda, assim, vibrantes em
nossa transitoriedade, que é uma visão que nos desafia a abandonar a
necessidade de finais felizes; e a nos concentrar no instante, no aqui e agora;
ele afirma que não é a eternidade que buscamos, mas um momento que faça o tempo
parar; e não é verdade? Não é por isso que nos apaixonamos? Que criamos? Que
choramos? Não é no efêmero que encontramos os momentos mais intensos da vida? O
maior paradoxo da filosofia de Cioran é que ao nos despirmos das ilusões que
sustentam a nossa existência, ele também nos dá algo que poucos pensadores
conseguem oferecer: a permissão para vivermos sem justificativas; é como se ele
dissesse que não precisamos de um motivo para existir; e o simples fato de
estarmos aqui, de sermos capazes de sentir, já é suficiente; mas, isso não
significa que ele nos poupe do peso da consciência; pelo contrário, ele nos
força a carregá-lo, e com dignidade encarar o vazio, sem tentar preenchê-lo com
respostas fáceis ou dogmas reconfortantes.
A única
maneira de suportar a vida é aceitar o absurdo dela. Isto, ele escreveu em um
chamado que não é para os fracos de espírito, mas para aqueles que estão
dispostos a abraçar a complexidade da existência; e, assim, ao final de sua
obra, Cioran não nos deixa respostas. Ele nos faz perguntas e nos desafia a
encontrar o nosso próprio caminho no labirinto da existência; e nos incita a
viver sabendo que não há um destino final que nos redime. Para ele, o ato de
viver já é em si um ato de resistência. E quanto a nós? Estamos dispostos a
abandonar as muletas que sustentam as nossas crenças? Estamos dispostos a
encarar a vida, pelo que ela realmente é... sua sequência de momentos fugazes,
sem garantia de sentido... Se chegamos até aqui, estamos prontos para ver o
vazio, não como um inimigo, mas como um campo aberto de possibilidades?
O que você
enxerga, quando olha para o abismo? Quanto a Cioran, ele era um sábio ou apenas
um cínico genial? Quanto aos mistérios e contradições da mente humana? Lembre-se
de que o vazio é também uma forma de se libertar de si mesmo.
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