terça-feira, 6 de outubro de 2026

 

Dostoievski – e o Idiota Moderno

 

Você já se sentiu um idiota?

Quem de nós, já não deixou um determinado ambiente, pisando nas alturas, vestindo a pele de um idiota?

Sim. Aquele tolo mesmo. O idiota no sentido mais existencial da palavra.

E por que algo que corrói a nossa alma nos deixa assim?

Porque as sutilezas, sobretudo a nossa áurea sensível, percebem o absurdo da vida, e naqueles instantes, os sentimentos aflorados, é mais fácil enxergar a miséria, do que a beleza do mundo.

Todos nós, em algum instante de nossas vidas nos sentimos assim.

Se todos concordam, parabéns. Todos nós já flertamos com o pensamento de Dostoiévski:

Dostoievski, o homem, o pensador, o escritor que fez do seu livro, O Idiota, um dos arquétipos mais complexos da literatura e da filosofia.

Na visão de Dostoievski, ser idiota é a única saída para a sociedade doente em que vivemos.

Ele não escreveu para adoçar a alma com uma possível beleza. Não. Ele nunca se arvorou em salvar

o mundo.

Ele escreveu para ferir, para abrir feridas que preferimos manter fechadas.

Suas palavras são bisturis afiados que cortam fundo a carne da existência humana.

Em seu romance, O Idiota, ele não se limita a contar uma história. Ali, o russo defende uma tese filosófica embasada em tragédia, em estudo brutal sobre o que acontece, quando um homem genuinamente bom é jogado no meio de um mundo que só entende a linguagem do egoísmo e da corrupção.

O príncipe Michkin, figura central da narrativa, é o último romântico de um tempo que já havia trocado a paixão pela moeda; a bondade pelo cálculo e a inocência pela esperteza cínica.

Qual foi o erro do seu personagem?

Foi acreditar na pureza de coração, em uma sociedade que aprendeu a esmagar tudo o que não pode explorar.

Michkin era para os outros personagens, um tolo, um alienígena emocional. Para os seus pares, ele não passava de um erro de programação, num sistema que só aceita jogadores dispostos a trapacear.

A pergunta que Dostoiévski nos força a encarar é desconcertante.

 

Quem é de fato o verdadeiro idiota?

 

O homem que se mantém íntegro e paga o preço de ser correto, ou aqueles que traem, manipulam e corrompem a própria alma, para sobreviver?

O que mais inquieta, em Michkin, não é apenas sua ingenuidade, mas a sua capacidade de enxergar a dor alheia com uma sensibilidade quase sobrenatural.

Michkin não vê apenas a miséria dos outros. Ele sente essa miséria, como se fosse sua – este fato é o que o filósofo romeno, Emil Cioran, chamou de o tormento de existir:

 

Tormento do existir o vem a ser?

 

É aquela capacidade rara e devastadora de experimentar a angústia do outro, como se fosse sua.

E é exatamente essa característica que o torna alguém tão insuportável, para aqueles que o rodeiam.

Michkin expõe suas máscaras, desmonta as suas defesas, arranca as suas ilusões de controle,

mas não acusa, não grita, nada impõe.

A sua mera presença é um espelho cruel revelador da feiura dos outros.

Nietzsche, que foi um leitor ávido de Dostoiévski, disse que ninguém mente tanto quanto o indignado. A indignação, muitas vezes, não é uma resposta à injustiça, mas um escudo contra a própria culpa.

Sabem aquelas reações: Estou bem, estou bem, estou calmo, quando nada está?

Michkin desperta essa indignação nos outros, pelo fato de ser um lembrete constante de que há algo de errado no modo como vivemos.

Essa lembrança é insuportável para quem já se acomodou ao jogo da hipocrisia social.

 

Mártir sem santidade

 

A história de um idiota parece seguir a trajetória de um mártir, mas sem a glória da santidade.

Michkin não é venerado, não é admirado e nem compreendido.

Ele é, no máximo, tolerado por alguns, ridicularizados por muitos e destruído por quase todos.

A bondade dele não o torna um herói triunfante, e sim, um cordeiro à espera do abate.

Seu amor pela beleza e sua compaixão ilimitada são vistas como fraquezas perigosas.

Por quê?

Por serem vulnerabilidades que só podem terminar em tragédia.

O pior que pode nos acontecer é aceitar que Dostoiévski está certo.

Talvez o mundo (realmente) não tenha espaço para os Michkin da vida.

A bondade absoluta não apenas desafia o status quo. Ela o ameaça.

Ela mostra que o jogo pode ser jogado de outra forma, e isso é insuportável para quem já aprendeu a vencer trapaceando.

 

E nós?

Onde nos encaixamos, nessa história?

 

Nós seriamos capazes de agir, como Michkin?

Nós seríamos capazes de aliarmos aos que o desprezam?

Vivemos num tempo em que o cinismo é confundido com inteligência, e a frieza com maturidade.

 

Simplesmente, rimos da ingenuidade, zombamos da esperança, e celebramos a esperteza como se ela fosse sinônimo de sabedoria.

 

 

A esperteza e o vazio

 

Mas será que essa suposta esperteza nos traria/ou trouxe algo, além de um vazio

difícil de suportar?

Dostoiévski nos obriga a encarar essa questão, sem nos dar respostas fáceis.

O mais inquietante é que, no fundo, já sabemos a resposta.

Sabemos que Michkin não é o idiota, o idiota somos nós, que passamos a vida

justificando a nossa própria falta de coragem.

A tragédia do príncipe Michkin não reside apenas em sua bondade, mas no tempo e lugar

em que ele existe.

 

 

A Rússia e Dostoievski

 

A Rússia do século dezenove não era um solo fértil, para as almas puras.

Era, reconhecidamente, um território de transição febril, onde o velho e o novo travaram

uma batalha silenciosa e cruel.

Se um de nós tentar sair do seu habitat.

Do mundo em que trabalhamos uma vida, o mundo asséptico criado

para junto aos nossos filhos, envelhecermos.

Se colocarmos o pé lá fora, ou perscrutá-lo de algum ponto limpo, a vida que corre

Pelo vasto mundo pode ser essa Rússia do século dezenove.

Onde a aristocracia tentava se manter no poder, enquanto os ideais revolucionários sopravam

como ventos de um futuro incerto e inevitável.

A fé ortodoxa, que um dia dera sentido à identidade russa, começava a ruir

sob o peso da modernidade e do pensamento niilista.

 

Foi nesse caldeirão de tensão que Dostoievski moldou seus personagens,

dando-lhes vozes que ecoavam dúvidas e medos, e os dilemas de uma época em colapso.

 

Império Russo

 

E ninguém compreendia esse colapso melhor do que o próprio autor.

Dostoiévski não era um mero observador distante do caos social e espiritual que o cercava.

Ele foi uma de suas vítimas.

Sua vida foi marcada por uma sequência de abismos.

Condenado à morte, por envolvimento com um grupo de intelectuais subversivos,

aos olhos do Império Russo, ele viu sua execução ser cancelada no último instante,

Trocada por anos de trabalhos forçados na Sibéria.

Ali, em meio aos criminosos e miseráveis, Dostoiévski testemunhou as profundezas

da alma humana, sem os adornos das convenções sociais.

Não havia máscaras entre os condenados.

Havia a verdade nua e brutal da existência.

Foi nesse inferno gelado, que ele descobriu que a degradação e a redenção

podiam caminhar, lado a lado, e que a monstruosidade e a santidade eram apenas

dois lados da mesma moeda.

Essa experiência moldou sua obra de maneira irrevogável.

 

A literatura russa no tempo de Dostoievski

 

Se abordarmos a História, na Literatura Russa, faremos outra palestra,

Uma vez que Napoleão alugou a mente dos escritores – vários – especialmente, Dostoievski,

Que o enalteceu em muitas de suas obras.

Retornando ao nosso texto, os escritores de então buscavam entender o homem através da razão.

Dostoiévski mergulhou na escuridão do inconsciente, antecipando ideias, que Freud e Jung

formulariam décadas depois.

Dostoievski compreendeu que o ser humano não é regido apenas pela lógica.

O homem é regido, também, por forças subterrâneas, paixões indomáveis,

desejos inconfessáveis e contradições insuportáveis.

 

Estilo realista

 

Seu realismo não era apenas social, mas psicológico. Cada personagem que criou,

era uma anatomia viva do espírito humano. Uma confissão disfarçada de ficção,

onde Michkin, o protagonista de O Idiota, era talvez a sua criação mais perturbadora.

Por quê?

 

A Bondade na concepção do mundo

 

Justamente, por encarnar algo que a sociedade sempre fingiu valorizar, mas no fundo desprezava.

O problema é que a bondade absoluta não se encaixava mais nas engrenagens do mundo.

O próprio Dostoiévski parecia cético quanto à possibilidade de um homem puro sobreviver,

sem ser dilacerado.

Michkin, com sua compaixão sem reservas, e sua incapacidade de julgar, funcionou como um espelho que refletia a hipocrisia dos que os cercavam.

Ele não acusa ninguém, porém a sua simples existência expunha a miséria moral dos outros.

Por isso, foi ridicularizado, explorado e por fim esmagado.

A bondade desarma os cínicos, e um cínico desarmado não sente gratidão.

Ele sente raiva.

Como escreveu o Baudelaire, “O mundo só perdoa aqueles que o deixam confortável

em sua própria podridão”.

Michkin não oferece esse conforto.

Ele representa uma possibilidade diferente de existência e essa possibilidade

é intolerável para aqueles que já fizeram concessões demais para manter suas máscaras intactas.

Dostoiévski compreende essa mecânica perversa melhor do que ninguém.

Ele via no ser humano, não uma criatura racional em busca da verdade, mas, um ser

de pulsões capazes de se agarrar a ilusões destrutivas, apenas para evitar encarar seu próprio vazio.

 

Inocência e esperteza

 

Em O Idiota, Dostoievski não nos dá um vilão óbvio. Todos os seus personagens, de alguma forma,

são vítimas de algozes ou prisioneiros de um sistema de valores, que premiam a esperteza e despreza a inocência.

O romance é no fim das contas um experimento brutal.

O que acontece quando jogamos um homem puro num mundo corrompido?

O resultado é que o homem puro não transforma o mundo.

O mundo o devora antes.

Se há algo que o idiota nos ensina é que a bondade, longe de ser uma virtude reverenciada,

ela é muitas vezes tratada como um erro de cálculo. Uma falha estrutural no tecido

da sobrevivência.

 

A história de Michkin, não é apenas um relato de ingenuidade esmagada pela realidade.

Ela é um estudo daquilo que acontece, quando alguém se recusa a adotar as máscaras

que o mundo exige numa sociedade movida pelo jogo de aparências, e pela competição velada.

 

Nesses ambientes, qualquer um que se recusa a jogar, torna-se alvo fácil.

O príncipe não é odiado por ser ruim, nem invejado por ser superior.

Ele é desprezado, porque não segue as regras invisíveis que sustentam a convivência

entre os que aprenderam a disfarçar suas intenções.

 

Michkin não sabe manipular. Michkin não entende as nuances das falsas cortesias.

Ele não percebe o perigo da sinceridade absoluta.

Como resultado, não apenas se torna vítima dos outros. Ele passa a ser um lembrete

incômodo de tudo o que os seus pares abandonaram, em nome da sobrevivência.

 

 

 

 

O preço de ser autêntico

 

Essa dinâmica não se limita ao romance de Dostoiévski.

Basta olhar ao redor para ver que o mundo continua funcionando exatamente

da mesma maneira.

Vivemos em um mundo onde aprendemos que há um preço a se pagar pela autenticidade.

E que a transparência emocional pode ser uma sentença de morte simbólica.

Aquele que não domina a arte da dissimulação, aquele que não aprende a jogar

o jogo social, inevitavelmente se torna um estranho no ambiente corporativo:

amizade família e trabalho.

Nesses espaços existe um código tácito que define o que pode ou não ser dito, e estabelece

os limites do que é aceitável sentir e poder expressar.

 

O Idiota, de Dostoiévski, é aquele livro que ignora esses códigos.

Ele prefere agir, como se as palavras realmente tivessem valor.

Como se a compaixão não fosse apenas um conceito abstrato, mas uma prática cotidiana,

e acontece com ele, o mesmo que acontece com qualquer um que decide ser honesto

em um mundo de negociantes

Passa a ficar isolado, humilhado, usado e descartado.

 

A bondade vista como erro

 

A lógica que rege essa estrutura social perversa é simples:

A bondade sem astúcia não é vista como uma virtude, mas como um erro de estratégia.

Há uma crença implícita de que o mundo não pode ser mudado.

Cabe a cada um adaptar-se a ele.

 

Se todos se aproveitam uns dos outros, então aquele que não o faz estará

em desvantagem:

A ovelha negra* de Italo Calvino

 

Havia um país onde todos eram ladrões. À noite, cada habitante saía, com a gazua e a lanterna, e ia

arrombar a casa de um vizinho, e voltava de madrugada, carregado, e, lógico, ele ia encontrar a sua

casa arrombada.

E assim todos viviam em paz e sem prejuízo: um roubava o outro, e este, um terceiro, e assim por

diante, até que se chegava ao último que roubava o primeiro.

O comércio naquele país era praticado só com trapaça: tanto por quem vendia como por quem

comprava.

O governo era uma associação de delinquentes vivendo à custa dos súditos, e os súditos por sua vez

só se preocupavam em fraudar o governo.

Assim, a vida prosseguia e não havia ricos nem pobres.

Ora, não se sabe como, ocorre que aparece um imigrante, e o idiota era honesto.

Por isso, há países enxotando imigrantes acorrentados.

À noite, em vez de sair com o saco e a lanterna, esse homem ficava em casa fumando e lendo

romances. Vejam, só! Não tinha o que fazer?

Vinham os ladrões, viam a luz acesa e não subiam. Essa situação durou algum tempo.

Depois foi preciso fazê-lo compreender que, se quisesse viver sem fazer nada, não seria aquela

a boa razão para não deixar os outros trabalhassem em paz.

 Cada noite que ele passava em casa, uma família não comeria no dia seguinte.  Diante desses

argumentos, o homem honesto não teve o que objetar, e passou a sair à noite, e só voltava de

madrugada. Mas, o que adiantava, se ele não roubava?  Era honesto. Era um perdido.

Não havia nada o que fazer.

Ele caminhava até a ponte e ficava vendo a água passar. Mas, ao voltar para casa, a encontrava

roubada.

Em menos de uma semana, o homem honesto ficou sem um tostão, e sem o que comer, e com a casa

vazia. Até aí, tudo bem, porque era culpa dele. Preguiçoso. Honesto!

Mas o seu comportamento criou um desequilíbrio infame. Se ele deixava que lhe roubassem tudo

e, ao mesmo tempo não roubava, havia alguém que, voltando para casa, a encontrava intacta.

Justamente, a casa que o homem honesto deveria ter roubado.

O fato é que, os que não eram roubados acabaram ficando mais ricos, e em ficando ricos, muitos não

viram mais por que roubar.

E, além disso, os que vinham para roubar a casa do homem honesto sempre a encontravam vazia de

víveres, e, assim iam ficando pobres também.

Enquanto isso, os que tinham se tornado ricos pegaram o costume de irem, também, à ponte, para ver

as águas brilhantes do rio. Isso aumentou a confusão na balança comercial, porque alguns ficaram

ricos, enquanto a maioria ficou pobre.

Aconteceu de os ricos desconfiarem que, indo de noite à ponte viverem os seus entretenimentos,

mais tarde, eles também voltariam a ser pobres. E pensaram:

“Paguemos aos pobres para irem roubar para nós”.

Fizeram-se os contratos, estabeleceram-se os salários, as percentagens.  Naturalmente, eles

continuariam a ser ladrões, mas disfarçados.

Mas, como acontece, os ladrões ricos tornavam-se cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais

pobres.

Havia ricos tão ricos que não precisavam mais roubar e montaram empresas experts em roubos, para

Se tornarem milionários. Aconteceu, destes passarem a ser roubados pelos mais pobres dos pobres e

o que fizeram? Pagaram aos miseráveis para defenderem as suas posses, contra esses novos ladrões; e,

assim, instituíram a polícia. E constituíram as prisões. Em pouco tempo ninguém se lembrava mais

de que nos primórdios, houvera um homem honesto na cidade.

E já não se falava mais em roubar ou ser roubado.

Só se falava de riqueza e pobreza.

Aquele imigrante honesto: logo, morreu de fome.

 

Esta lógica, ainda que brutal possui uma coerência interna: quem não luta pelo seu próprio espaço será empurrado para fora; quem se recusa a manipular, será manipulado; e quem insiste em estender a mão, acabará sendo puxado para o fundo, junto àqueles que tentaram salvar o sistema.

Esta é a lógica do mundo atual.

Michkin, ao longo da narrativa, personifica essa tragédia com dolorosa precisão:

Ele é incapaz de compreender os jogos de interesse, e se recusa a aprender.

Sua crença ingênua, de que a pureza pode triunfar sobre a mesquinhez, o transforma

em um sacrifício vivo: um experimento existencial que Dostoievski compôs com a precisão

cirúrgica de quem conhecia, em primeira mão, a crueldade do mundo, e não sejamos ingênuos:

Essa lógica não mudou com o passar dos séculos.

Os idiotas de hoje continuam existindo, e continuam sendo devorados.

Quem são eles?

São aqueles que não conseguem fingir; que não se importam.

São aqueles que não sabem medir palavras com frieza estratégica.

São aqueles que ainda acreditam que as pessoas podem ser melhores do que realmente são.

E o que se faz com eles?

Riem de sua ingenuidade. Exploram a sua boa vontade. Descartam sua presença.

Tornam-no inconveniente.

Isto não é um conto de fadas moralizante.

Ninguém veio aqui para ser convencido de que a pureza vence no final.

Dostoievski quis fazer do seu romance, um estudo clínico, sobre a maneira como os justos são triturados pelo cinismo coletivo.

 

Ninguém precisa responder

 

Aí vem a única pergunta que me compete, neste momento em que estou disfarçado de filósofo.

A pergunta não é se Michkin poderia ter sobrevivido, hoje.

A pergunta é:

Em sua posição, nós faríamos algo diferente, ou será que, sem perceber, já fazemos parte daqueles que ajudam a esmagar quem ousa ser verdadeiro?

 

 

 

Ninguém precisa responder, porque o espaço não é de questionamentos.

Mas de autoanálise.

A queda de Michkin não acontece de uma vez, como um golpe súbito e definitivo,

É um processo gradual quase inevitável, no qual sua pureza é lentamente corroída

pelo atrito com o mundo, que não sabe lidar com aquilo que não pode usar

ou compreender.

O príncipe não é derrubado por um inimigo declarado,

por uma conspiração bem arquitetada, ou forças externas que buscavam o aniquilar,

deliberadamente:

A sua destruição ocorre da maneira mais sutil, mais insidiosa,

que é a consequência natural de sua presença em um ambiente, onde a bondade absoluta

não encontra um solo em que possa florescer, sem ser pisoteada.

 

Michkin não precisa ser atacado para ser pisoteado: basta existir

para que sua tragédia se desenrole, por si mesma, como um relógio que avança

inexoravelmente, em direção ao colapso final.

 

O grande paradoxo que permeia a narrativa é que Michkin, ao contrário do que

seus detratores imaginaram, ele não era um tolo no sentido intelectual.

É inteligente, perspicaz e profundamente sensível às dores e inquietações

dos que os cercam.

No entanto, sua inteligência não segue os parâmetros da esperteza calculista

nem do pragmatismo social que dominam as interações humanas.

Michkin, não sabe jogar o jogo da sedução, da manipulação, do poder velado:

sua lógica é diferente e quase estranha.

Ele acredita que a sinceridade deve ser o alicerce das relações, e que a compaixão

deve guiar as escolhas, e que a beleza da alma pode redimir, mesmo os mais perversos.

 

Ser natural é a mais difícil das poses

 

É justamente essa convicção que o condena:

Como escreveu Oscar Wilde, “Ser natural é a mais difícil das poses”.

Michkin não posa, não finge, não constrói uma personagem que possa se encaixar

nas expectativas alheias.

Ele simplesmente é. Paradoxalmente, isso o torna insuportável para aqueles

que se acostumaram a viver por trás das máscaras.

Os que cruzam seu caminho, não sabem exatamente como reagir a ele:

Alguns tentam zombar, enquanto outros tentam o explorar.

Poucos são os que, no fundo, sentem uma mistura incômoda de admiração

e de desprezo.  

Rogójin, com sua paixão avassaladora e autodestrutiva, vê nele, algo que gostaria de ser,

mas não consegue.

Nastasya Ffilippovna, consumida pelo fogo da própria ruína, oscila entre vê-lo

como um redentor e um ingênuo patético.

Os outros personagens o tratam como a um enigma: uma peça deslocada no tabuleiro social.

Alguém cuja existência desafia a lógica cruel a que todos já se resignaram.

 É exatamente isso que os perturba.

Michkin não se encaixa na narrativa de que a sobrevivência exige concessões.

Que a virtude não pode coexistir com a realidade, pois sua presença escancara a mentira

que todos prefeririam continuar contando a si mesmos.

Que a corrupção é inevitável e que a bondade pura não passa de uma ilusão infantil.

Mas a verdade é que Michkin não é apenas uma vítima:

Ele é um sintoma, um reflexo das contradições que Dostoievski via na própria humanidade.

Ele é, de certa forma, uma versão extrema de Cristo, um homem que tenta carregar

o fardo do sofrimento alheio, sem pedir nada em troca.

Por isso mesmo, ele se torna insuportável para quem não suporta ser vistos tão de perto.

 

Nada é mais difícil de perdoar do que uma superioridade que nos humilha.

 

Nessa frase de Tocqueville, por mais que não tente se impor, Michkin faz lembrar que a vida poderia ser diferente, que as pessoas poderiam ser melhores que o mundo, e não precisaria ser um jogo constante de dominação e submissão.

No entanto, ele não triunfa.

Não há redenção para Michkin, porque a sua tragédia não é apenas a sua tragédia,

A sua tragédia é de toda a humanidade.

Ele não é o idiota, porque não entende o mundo:

Mas, por entender bem demais, e ainda se recusar a agir, de acordo com as regras

que garantiriam sua sobrevivência.

Diagnóstico? Não há.

Dostoiévski não era um escritor de respostas fáceis.

Ele não consola com mensagem otimista. Nem oferece caminhos de esperança.

Ele nos força a encarar o abismo da nossa própria hipocrisia, ao nos perguntar:

Se encontrássemos um Michkin hoje, será que o trataríamos de maneira diferente, ou continuaríamos a esmagar aqueles que nos fazem lembrar de tudo o que perdemos ao longo do caminho?

Tivemos políticos que abominaram a alfândega.

Relegaram o Ministério da Fazenda a um antro de conspiração insalubre.

Reduziu o Supremo, que aplica as leis, a um covil de covardes.

A conclusão da jornada de Michkin não poderia ser outra, senão a dissolução de sua própria identidade.

Ele não se torna mártir, no sentido clássico, pois sua tragédia não é enobrecedora.

Não há uma redenção catártica, nenhum sacrifício glorificado que inspire os outros a mudarem.

Michkin não morre de forma dramática nem provoca uma revolução moral no coração

daqueles que o destroem:

Sua queda é silenciosa e embalada por um esvaziamento gradual de tudo.

Uma vela consumida pela própria chama.

Ao fim, já não restava nada mais, além do espectro de um homem que tentou permanecer

Íntegro, em um mundo que não tolera aquilo que não pode ser absorvido ou corrompido.

Seu destino não é apenas triste, mas a evidência brutal de que a pureza absoluta não pode coexistir com a complexidade humana sem ser aniquilada.

Dostoiévski nos força a encarar essa verdade, sem concessões.

Ele não nos oferece um consolo tardio, uma moralidade açucarada, que restaure o equilíbrio da história, como fariam outros autores menos cruéis.

Não há uma virada final, onde os vilões percebem seus erros, nem onde os corruptos se arrependam, ou onde o mundo se curve, diante da força de um espírito genuinamente bom.

Michkin termina onde precisava terminar:

Destruído, não porque fez algo de errado. Mas, por não ter feito nada diferente:

Nietzsche nos alertou:

“Aqueles que foram vistos dançando, foram julgados insanos, justo por aqueles que não podiam ouvir a música”.

Michkin dançou sem perceber que para os olhares infiéis, sua dança era ofensiva.

A grande ironia de sua trajetória é que ele nunca tentou impor sua visão de mundo.

Ele não acreditava que poderia forjar a bondade em alguém.

Apenas existia, como deveria ser, acreditando que sua presença e a sua forma de ser

poderia ser suficiente para iluminar as trevas alheias.

E o que faremos com um espelho que nos mostra aquilo que preferíamos não ver?

O quebramos? Rimos dele?

O desprezamos, até que ele seja desfeito em fragmentos irreconhecíveis?

Não há gritos nem uma grande cena final, onde ele desafia aqueles que o traíram.

Seu fim é o de alguém que se esvai.

Que desaparece em um estado de desintegração psíquica, e é reduzido à loucura,

não porque perdeu a razão, mas, porque o mundo ao seu redor o esmagou,

ou porque não havia mais lugar para ele na realidade que o cercava.

Este talvez seja o aspecto mais aterrador de sua história.

Ele não é derrotado por um grande inimigo; por uma força externa esmagadora,

Mas pelo acúmulo de pequenas indiferenças, dos cinismos cotidianos de desprezo

disfarçados de superioridade.

E agora, o que nos resta?

Vou ser repetitivo. Dostoiévski não nos dá respostas.

Ele apenas nos obriga a encarar a pergunta que nunca deixamos de evitar:

Somos nós, os idiotas por termos nos tornados espertos?

 O mundo realmente pode ser salvo pela beleza, ou Dostoievski estava apenas se iludindo?

O poeta inglês, T. S. Eliot, disse:  “O mundo não terminará com uma grande explosão. Mas com um longo e profundo suspiro”. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nenhum comentário: