Dostoievski
– e o Idiota Moderno
Você já
se sentiu um idiota?
Quem de
nós, já não deixou um determinado ambiente, pisando nas alturas, vestindo a
pele de um idiota?
Sim. Aquele
tolo mesmo. O idiota no sentido mais existencial da palavra.
E por
que algo que corrói a nossa alma nos deixa assim?
Porque as
sutilezas, sobretudo a nossa áurea sensível, percebem o absurdo da vida, e
naqueles instantes, os sentimentos aflorados, é mais fácil enxergar a miséria,
do que a beleza do mundo.
Todos
nós, em algum instante de nossas vidas nos sentimos assim.
Se todos
concordam, parabéns. Todos nós já flertamos com o pensamento de Dostoiévski:
Dostoievski,
o homem, o pensador, o escritor que fez do seu livro, O Idiota, um dos
arquétipos mais complexos da literatura e da filosofia.
Na visão
de Dostoievski, ser idiota é a única saída para a sociedade doente em que
vivemos.
Ele não
escreveu para adoçar a alma com uma possível beleza. Não. Ele nunca se arvorou
em salvar
o mundo.
Ele
escreveu para ferir, para abrir feridas que preferimos manter fechadas.
Suas
palavras são bisturis afiados que cortam fundo a carne da existência humana.
Em seu
romance, O Idiota, ele não se limita a contar uma história. Ali, o russo
defende uma tese filosófica embasada em tragédia, em estudo brutal sobre o que
acontece, quando um homem genuinamente bom é jogado no meio de um mundo que só
entende a linguagem do egoísmo e da corrupção.
O
príncipe Michkin, figura central da narrativa, é o último romântico de um tempo
que já havia trocado a paixão pela moeda; a bondade pelo cálculo e a inocência
pela esperteza cínica.
Qual foi
o erro do seu personagem?
Foi acreditar
na pureza de coração, em uma sociedade que aprendeu a esmagar tudo o que não
pode explorar.
Michkin era
para os outros personagens, um tolo, um alienígena emocional. Para os seus
pares, ele não passava de um erro de programação, num sistema que só aceita
jogadores dispostos a trapacear.
A
pergunta que Dostoiévski nos força a encarar é desconcertante.
Quem é
de fato o verdadeiro idiota?
O homem
que se mantém íntegro e paga o preço de ser correto, ou aqueles que traem,
manipulam e corrompem a própria alma, para sobreviver?
O que
mais inquieta, em Michkin, não é apenas sua ingenuidade, mas a sua capacidade
de enxergar a dor alheia com uma sensibilidade quase sobrenatural.
Michkin não
vê apenas a miséria dos outros. Ele sente essa miséria, como se fosse sua –
este fato é o que o filósofo romeno, Emil Cioran, chamou de o tormento de
existir:
Tormento
do existir o vem a ser?
É aquela
capacidade rara e devastadora de experimentar a angústia do outro, como se
fosse sua.
E é
exatamente essa característica que o torna alguém tão insuportável, para
aqueles que o rodeiam.
Michkin
expõe suas máscaras, desmonta as suas defesas, arranca as suas ilusões de
controle,
mas não
acusa, não grita, nada impõe.
A sua
mera presença é um espelho cruel revelador da feiura dos outros.
Nietzsche,
que foi um leitor ávido de Dostoiévski, disse que ninguém mente tanto quanto o
indignado. A indignação, muitas vezes, não é uma resposta à injustiça, mas um
escudo contra a própria culpa.
Sabem
aquelas reações: Estou bem, estou bem, estou calmo, quando nada está?
Michkin
desperta essa indignação nos outros, pelo fato de ser um lembrete constante de
que há algo de errado no modo como vivemos.
Essa
lembrança é insuportável para quem já se acomodou ao jogo da hipocrisia social.
Mártir
sem santidade
A
história de um idiota parece seguir a trajetória de um mártir, mas sem a glória
da santidade.
Michkin
não é venerado, não é admirado e nem compreendido.
Ele é,
no máximo, tolerado por alguns, ridicularizados por muitos e destruído por
quase todos.
A
bondade dele não o torna um herói triunfante, e sim, um cordeiro à espera do
abate.
Seu amor
pela beleza e sua compaixão ilimitada são vistas como fraquezas perigosas.
Por quê?
Por serem
vulnerabilidades que só podem terminar em tragédia.
O pior que
pode nos acontecer é aceitar que Dostoiévski está certo.
Talvez o
mundo (realmente) não tenha espaço para os Michkin da vida.
A
bondade absoluta não apenas desafia o status quo. Ela o ameaça.
Ela
mostra que o jogo pode ser jogado de outra forma, e isso é insuportável para
quem já aprendeu a vencer trapaceando.
E nós?
Onde nos
encaixamos, nessa história?
Nós seriamos
capazes de agir, como Michkin?
Nós
seríamos capazes de aliarmos aos que o desprezam?
Vivemos
num tempo em que o cinismo é confundido com inteligência, e a frieza com
maturidade.
Simplesmente,
rimos da ingenuidade, zombamos da esperança, e celebramos a esperteza como se
ela fosse sinônimo de sabedoria.
A
esperteza e o vazio
Mas será
que essa suposta esperteza nos traria/ou trouxe algo, além de um vazio
difícil
de suportar?
Dostoiévski
nos obriga a encarar essa questão, sem nos dar respostas fáceis.
O mais
inquietante é que, no fundo, já sabemos a resposta.
Sabemos
que Michkin não é o idiota, o idiota somos nós, que passamos a vida
justificando
a nossa própria falta de coragem.
A
tragédia do príncipe Michkin não reside apenas em sua bondade, mas no tempo e
lugar
em que
ele existe.
A Rússia
e Dostoievski
A Rússia
do século dezenove não era um solo fértil, para as almas puras.
Era,
reconhecidamente, um território de transição febril, onde o velho e o novo
travaram
uma batalha
silenciosa e cruel.
Se um de
nós tentar sair do seu habitat.
Do mundo
em que trabalhamos uma vida, o mundo asséptico criado
para
junto aos nossos filhos, envelhecermos.
Se colocarmos
o pé lá fora, ou perscrutá-lo de algum ponto limpo, a vida que corre
Pelo
vasto mundo pode ser essa Rússia do século dezenove.
Onde a aristocracia
tentava se manter no poder, enquanto os ideais revolucionários sopravam
como
ventos de um futuro incerto e inevitável.
A fé
ortodoxa, que um dia dera sentido à identidade russa, começava a ruir
sob o
peso da modernidade e do pensamento niilista.
Foi
nesse caldeirão de tensão que Dostoievski moldou seus personagens,
dando-lhes
vozes que ecoavam dúvidas e medos, e os dilemas de uma época em colapso.
Império
Russo
E ninguém
compreendia esse colapso melhor do que o próprio autor.
Dostoiévski
não era um mero observador distante do caos social e espiritual que o cercava.
Ele foi
uma de suas vítimas.
Sua vida
foi marcada por uma sequência de abismos.
Condenado
à morte, por envolvimento com um grupo de intelectuais subversivos,
aos
olhos do Império Russo, ele viu sua execução ser cancelada no último instante,
Trocada
por anos de trabalhos forçados na Sibéria.
Ali, em
meio aos criminosos e miseráveis, Dostoiévski testemunhou as profundezas
da alma
humana, sem os adornos das convenções sociais.
Não
havia máscaras entre os condenados.
Havia a
verdade nua e brutal da existência.
Foi
nesse inferno gelado, que ele descobriu que a degradação e a redenção
podiam
caminhar, lado a lado, e que a monstruosidade e a santidade eram apenas
dois
lados da mesma moeda.
Essa
experiência moldou sua obra de maneira irrevogável.
A
literatura russa no tempo de Dostoievski
Se
abordarmos a História, na Literatura Russa, faremos outra palestra,
Uma vez
que Napoleão alugou a mente dos escritores – vários – especialmente,
Dostoievski,
Que o
enalteceu em muitas de suas obras.
Retornando
ao nosso texto, os escritores de então buscavam entender o homem através da
razão.
Dostoiévski
mergulhou na escuridão do inconsciente, antecipando ideias, que Freud e Jung
formulariam
décadas depois.
Dostoievski
compreendeu que o ser humano não é regido apenas pela lógica.
O homem
é regido, também, por forças subterrâneas, paixões indomáveis,
desejos
inconfessáveis e contradições insuportáveis.
Estilo
realista
Seu
realismo não era apenas social, mas psicológico. Cada personagem que criou,
era uma
anatomia viva do espírito humano. Uma confissão disfarçada de ficção,
onde Michkin,
o protagonista de O Idiota, era talvez a sua criação mais perturbadora.
Por quê?
A
Bondade na concepção do mundo
Justamente,
por encarnar algo que a sociedade sempre fingiu valorizar, mas no fundo
desprezava.
O problema
é que a bondade absoluta não se encaixava mais nas engrenagens do mundo.
O
próprio Dostoiévski parecia cético quanto à possibilidade de um homem puro
sobreviver,
sem ser
dilacerado.
Michkin,
com sua compaixão sem reservas, e sua incapacidade de julgar, funcionou como um
espelho que refletia a hipocrisia dos que os cercavam.
Ele não
acusa ninguém, porém a sua simples existência expunha a miséria moral dos
outros.
Por isso,
foi ridicularizado, explorado e por fim esmagado.
A
bondade desarma os cínicos, e um cínico desarmado não sente gratidão.
Ele
sente raiva.
Como
escreveu o Baudelaire, “O mundo só perdoa aqueles que o deixam confortável
em sua
própria podridão”.
Michkin
não oferece esse conforto.
Ele
representa uma possibilidade diferente de existência e essa possibilidade
é
intolerável para aqueles que já fizeram concessões demais para manter suas
máscaras intactas.
Dostoiévski
compreende essa mecânica perversa melhor do que ninguém.
Ele via no
ser humano, não uma criatura racional em busca da verdade, mas, um ser
de
pulsões capazes de se agarrar a ilusões destrutivas, apenas para evitar encarar
seu próprio vazio.
Inocência
e esperteza
Em O Idiota,
Dostoievski não nos dá um vilão óbvio. Todos os seus personagens, de alguma
forma,
são
vítimas de algozes ou prisioneiros de um sistema de valores, que premiam a
esperteza e despreza a inocência.
O romance
é no fim das contas um experimento brutal.
O que
acontece quando jogamos um homem puro num mundo corrompido?
O
resultado é que o homem puro não transforma o mundo.
O mundo
o devora antes.
Se há
algo que o idiota nos ensina é que a bondade, longe de ser uma virtude
reverenciada,
ela é
muitas vezes tratada como um erro de cálculo. Uma falha estrutural no tecido
da
sobrevivência.
A
história de Michkin, não é apenas um relato de ingenuidade esmagada pela
realidade.
Ela é um
estudo daquilo que acontece, quando alguém se recusa a adotar as máscaras
que o
mundo exige numa sociedade movida pelo jogo de aparências, e pela competição
velada.
Nesses
ambientes, qualquer um que se recusa a jogar, torna-se alvo fácil.
O
príncipe não é odiado por ser ruim, nem invejado por ser superior.
Ele é
desprezado, porque não segue as regras invisíveis que sustentam a convivência
entre os
que aprenderam a disfarçar suas intenções.
Michkin não
sabe manipular. Michkin não entende as nuances das falsas cortesias.
Ele não
percebe o perigo da sinceridade absoluta.
Como
resultado, não apenas se torna vítima dos outros. Ele passa a ser um lembrete
incômodo
de tudo o que os seus pares abandonaram, em nome da sobrevivência.
O preço
de ser autêntico
Essa
dinâmica não se limita ao romance de Dostoiévski.
Basta
olhar ao redor para ver que o mundo continua funcionando exatamente
da mesma
maneira.
Vivemos
em um mundo onde aprendemos que há um preço a se pagar pela autenticidade.
E que a
transparência emocional pode ser uma sentença de morte simbólica.
Aquele
que não domina a arte da dissimulação, aquele que não aprende a jogar
o jogo
social, inevitavelmente se torna um estranho no ambiente corporativo:
amizade
família e trabalho.
Nesses
espaços existe um código tácito que define o que pode ou não ser dito, e
estabelece
os
limites do que é aceitável sentir e poder expressar.
O Idiota,
de Dostoiévski, é aquele livro que ignora esses códigos.
Ele prefere
agir, como se as palavras realmente tivessem valor.
Como se
a compaixão não fosse apenas um conceito abstrato, mas uma prática cotidiana,
e
acontece com ele, o mesmo que acontece com qualquer um que decide ser honesto
em um
mundo de negociantes
Passa a
ficar isolado, humilhado, usado e descartado.
A
bondade vista como erro
A lógica
que rege essa estrutura social perversa é simples:
A
bondade sem astúcia não é vista como uma virtude, mas como um erro de
estratégia.
Há uma
crença implícita de que o mundo não pode ser mudado.
Cabe a
cada um adaptar-se a ele.
Se todos
se aproveitam uns dos outros, então aquele que não o faz estará
em
desvantagem:
A ovelha negra* de Italo Calvino
Havia um país onde todos eram
ladrões. À noite, cada habitante saía, com a gazua e a lanterna, e ia
arrombar a casa de um vizinho, e
voltava de madrugada, carregado, e, lógico, ele ia encontrar a sua
casa arrombada.
E assim todos viviam em paz e
sem prejuízo: um roubava o outro, e este, um terceiro, e assim por
diante, até que se chegava ao
último que roubava o primeiro.
O comércio naquele país era
praticado só com trapaça: tanto por quem vendia como por quem
comprava.
O governo era uma associação de
delinquentes vivendo à custa dos súditos, e os súditos por sua vez
só se preocupavam em fraudar o
governo.
Assim, a vida prosseguia e não
havia ricos nem pobres.
Ora, não se sabe como, ocorre
que aparece um imigrante, e o idiota era honesto.
Por isso, há países enxotando
imigrantes acorrentados.
À noite, em vez de sair com o
saco e a lanterna, esse homem ficava em casa fumando e lendo
romances. Vejam, só! Não tinha o
que fazer?
Vinham os ladrões, viam a luz
acesa e não subiam. Essa situação durou algum tempo.
Depois foi preciso fazê-lo
compreender que, se quisesse viver sem fazer nada, não seria aquela
a boa razão para não deixar os
outros trabalhassem em paz.
Cada noite que ele passava em casa, uma
família não comeria no dia seguinte. Diante desses
argumentos, o homem honesto não
teve o que objetar, e passou a sair à noite, e só voltava de
madrugada. Mas, o que adiantava,
se ele não roubava? Era honesto. Era um
perdido.
Não havia nada o que fazer.
Ele caminhava até a ponte e
ficava vendo a água passar. Mas, ao voltar para casa, a encontrava
roubada.
Em menos de uma semana, o homem
honesto ficou sem um tostão, e sem o que comer, e com a casa
vazia. Até aí, tudo bem, porque
era culpa dele. Preguiçoso. Honesto!
Mas o seu comportamento criou um
desequilíbrio infame. Se ele deixava que lhe roubassem tudo
e, ao mesmo tempo não roubava, havia
alguém que, voltando para casa, a encontrava intacta.
Justamente, a casa que o homem
honesto deveria ter roubado.
O fato é que, os que não eram
roubados acabaram ficando mais ricos, e em ficando ricos, muitos não
viram mais por que roubar.
E, além disso, os que vinham
para roubar a casa do homem honesto sempre a encontravam vazia de
víveres, e, assim iam ficando
pobres também.
Enquanto isso, os que tinham se
tornado ricos pegaram o costume de irem, também, à ponte, para ver
as águas brilhantes do rio. Isso
aumentou a confusão na balança comercial, porque alguns ficaram
ricos, enquanto a maioria ficou
pobre.
Aconteceu de os ricos
desconfiarem que, indo de noite à ponte viverem os seus entretenimentos,
mais tarde, eles também
voltariam a ser pobres. E pensaram:
“Paguemos aos pobres para irem
roubar para nós”.
Fizeram-se os contratos,
estabeleceram-se os salários, as percentagens.
Naturalmente, eles
continuariam a ser ladrões, mas
disfarçados.
Mas, como acontece, os ladrões ricos
tornavam-se cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais
pobres.
Havia ricos tão ricos que não
precisavam mais roubar e montaram empresas experts em roubos, para
Se tornarem milionários. Aconteceu,
destes passarem a ser roubados pelos mais pobres dos pobres e
o que fizeram? Pagaram aos miseráveis
para defenderem as suas posses, contra esses novos ladrões; e,
assim, instituíram a polícia. E
constituíram as prisões. Em pouco tempo ninguém se lembrava mais
de que nos primórdios, houvera
um homem honesto na cidade.
E já não se falava mais em
roubar ou ser roubado.
Só se falava de riqueza e
pobreza.
Aquele imigrante honesto: logo,
morreu de fome.
Esta
lógica, ainda que brutal possui uma coerência interna: quem não luta pelo seu
próprio espaço será empurrado para fora; quem se recusa a manipular, será
manipulado; e quem insiste em estender a mão, acabará sendo puxado para o fundo,
junto àqueles que tentaram salvar o sistema.
Esta é a
lógica do mundo atual.
Michkin,
ao longo da narrativa, personifica essa tragédia com dolorosa precisão:
Ele é
incapaz de compreender os jogos de interesse, e se recusa a aprender.
Sua
crença ingênua, de que a pureza pode triunfar sobre a mesquinhez, o transforma
em um
sacrifício vivo: um experimento existencial que Dostoievski compôs com a
precisão
cirúrgica
de quem conhecia, em primeira mão, a crueldade do mundo, e não sejamos ingênuos:
Essa
lógica não mudou com o passar dos séculos.
Os
idiotas de hoje continuam existindo, e continuam sendo devorados.
Quem são
eles?
São
aqueles que não conseguem fingir; que não se importam.
São
aqueles que não sabem medir palavras com frieza estratégica.
São
aqueles que ainda acreditam que as pessoas podem ser melhores do que realmente
são.
E o que se
faz com eles?
Riem de
sua ingenuidade. Exploram a sua boa vontade. Descartam sua presença.
Tornam-no
inconveniente.
Isto não
é um conto de fadas moralizante.
Ninguém
veio aqui para ser convencido de que a pureza vence no final.
Dostoievski
quis fazer do seu romance, um estudo clínico, sobre a maneira como os justos
são triturados pelo cinismo coletivo.
Ninguém
precisa responder
Aí vem a
única pergunta que me compete, neste momento em que estou disfarçado de
filósofo.
A pergunta
não é se Michkin poderia ter sobrevivido, hoje.
A
pergunta é:
Em sua
posição, nós faríamos algo diferente, ou será que, sem perceber, já fazemos
parte daqueles que ajudam a esmagar quem ousa ser verdadeiro?
Ninguém
precisa responder, porque o espaço não é de questionamentos.
Mas de
autoanálise.
A queda
de Michkin não acontece de uma vez, como um golpe súbito e definitivo,
É um
processo gradual quase inevitável, no qual sua pureza é lentamente corroída
pelo
atrito com o mundo, que não sabe lidar com aquilo que não pode usar
ou
compreender.
O
príncipe não é derrubado por um inimigo declarado,
por uma
conspiração bem arquitetada, ou forças externas que buscavam o aniquilar,
deliberadamente:
A sua
destruição ocorre da maneira mais sutil, mais insidiosa,
que é a
consequência natural de sua presença em um ambiente, onde a bondade absoluta
não
encontra um solo em que possa florescer, sem ser pisoteada.
Michkin
não precisa ser atacado para ser pisoteado: basta existir
para que
sua tragédia se desenrole, por si mesma, como um relógio que avança
inexoravelmente,
em direção ao colapso final.
O grande
paradoxo que permeia a narrativa é que Michkin, ao contrário do que
seus
detratores imaginaram, ele não era um tolo no sentido intelectual.
É inteligente,
perspicaz e profundamente sensível às dores e inquietações
dos que
os cercam.
No
entanto, sua inteligência não segue os parâmetros da esperteza calculista
nem do
pragmatismo social que dominam as interações humanas.
Michkin,
não sabe jogar o jogo da sedução, da manipulação, do poder velado:
sua
lógica é diferente e quase estranha.
Ele
acredita que a sinceridade deve ser o alicerce das relações, e que a compaixão
deve
guiar as escolhas, e que a beleza da alma pode redimir, mesmo os mais perversos.
Ser
natural é a mais difícil das poses
É
justamente essa convicção que o condena:
Como
escreveu Oscar Wilde, “Ser natural é a mais difícil das poses”.
Michkin não
posa, não finge, não constrói uma personagem que possa se encaixar
nas
expectativas alheias.
Ele
simplesmente é. Paradoxalmente, isso o torna insuportável para aqueles
que se
acostumaram a viver por trás das máscaras.
Os que
cruzam seu caminho, não sabem exatamente como reagir a ele:
Alguns
tentam zombar, enquanto outros tentam o explorar.
Poucos
são os que, no fundo, sentem uma mistura incômoda de admiração
e de desprezo.
Rogójin,
com sua paixão avassaladora e autodestrutiva, vê nele, algo que gostaria de ser,
mas não consegue.
Nastasya
Ffilippovna, consumida pelo fogo da própria ruína, oscila entre vê-lo
como um
redentor e um ingênuo patético.
Os
outros personagens o tratam como a um enigma: uma peça deslocada no tabuleiro
social.
Alguém
cuja existência desafia a lógica cruel a que todos já se resignaram.
É exatamente isso que os perturba.
Michkin
não se encaixa na narrativa de que a sobrevivência exige concessões.
Que a
virtude não pode coexistir com a realidade, pois sua presença escancara a
mentira
que
todos prefeririam continuar contando a si mesmos.
Que a
corrupção é inevitável e que a bondade pura não passa de uma ilusão infantil.
Mas a
verdade é que Michkin não é apenas uma vítima:
Ele é um
sintoma, um reflexo das contradições que Dostoievski via na própria humanidade.
Ele é,
de certa forma, uma versão extrema de Cristo, um homem que tenta carregar
o fardo
do sofrimento alheio, sem pedir nada em troca.
Por isso
mesmo, ele se torna insuportável para quem não suporta ser vistos tão de perto.
Nada é
mais difícil de perdoar do que uma superioridade que nos humilha.
Nessa
frase de Tocqueville, por mais que não tente se impor, Michkin faz lembrar que
a vida poderia ser diferente, que as pessoas poderiam ser melhores que o mundo,
e não precisaria ser um jogo constante de dominação e submissão.
No
entanto, ele não triunfa.
Não há redenção
para Michkin, porque a sua tragédia não é apenas a sua tragédia,
A sua
tragédia é de toda a humanidade.
Ele não
é o idiota, porque não entende o mundo:
Mas, por
entender bem demais, e ainda se recusar a agir, de acordo com as regras
que
garantiriam sua sobrevivência.
Diagnóstico?
Não há.
Dostoiévski
não era um escritor de respostas fáceis.
Ele não
consola com mensagem otimista. Nem oferece caminhos de esperança.
Ele nos
força a encarar o abismo da nossa própria hipocrisia, ao nos perguntar:
Se
encontrássemos um Michkin hoje, será que o trataríamos de maneira diferente, ou
continuaríamos a esmagar aqueles que nos fazem lembrar de tudo o que perdemos
ao longo do caminho?
Tivemos
políticos que abominaram a alfândega.
Relegaram
o Ministério da Fazenda a um antro de conspiração insalubre.
Reduziu
o Supremo, que aplica as leis, a um covil de covardes.
A conclusão
da jornada de Michkin não poderia ser outra, senão a dissolução de sua própria
identidade.
Ele não
se torna mártir, no sentido clássico, pois sua tragédia não é enobrecedora.
Não há
uma redenção catártica, nenhum sacrifício glorificado que inspire os outros a
mudarem.
Michkin
não morre de forma dramática nem provoca uma revolução moral no coração
daqueles
que o destroem:
Sua
queda é silenciosa e embalada por um esvaziamento gradual de tudo.
Uma vela
consumida pela própria chama.
Ao fim, já
não restava nada mais, além do espectro de um homem que tentou permanecer
Íntegro,
em um mundo que não tolera aquilo que não pode ser absorvido ou corrompido.
Seu
destino não é apenas triste, mas a evidência brutal de que a pureza absoluta
não pode coexistir com a complexidade humana sem ser aniquilada.
Dostoiévski
nos força a encarar essa verdade, sem concessões.
Ele não
nos oferece um consolo tardio, uma moralidade açucarada, que restaure o
equilíbrio da história, como fariam outros autores menos cruéis.
Não há
uma virada final, onde os vilões percebem seus erros, nem onde os corruptos se
arrependam, ou onde o mundo se curve, diante da força de um espírito
genuinamente bom.
Michkin
termina onde precisava terminar:
Destruído,
não porque fez algo de errado. Mas, por não ter feito nada diferente:
Nietzsche
nos alertou:
“Aqueles
que foram vistos dançando, foram julgados insanos, justo por aqueles que não
podiam ouvir a música”.
Michkin
dançou sem perceber que para os olhares infiéis, sua dança era ofensiva.
A grande
ironia de sua trajetória é que ele nunca tentou impor sua visão de mundo.
Ele não
acreditava que poderia forjar a bondade em alguém.
Apenas
existia, como deveria ser, acreditando que sua presença e a sua forma de ser
poderia
ser suficiente para iluminar as trevas alheias.
E o que
faremos com um espelho que nos mostra aquilo que preferíamos não ver?
O quebramos?
Rimos dele?
O
desprezamos, até que ele seja desfeito em fragmentos irreconhecíveis?
Não há
gritos nem uma grande cena final, onde ele desafia aqueles que o traíram.
Seu fim
é o de alguém que se esvai.
Que
desaparece em um estado de desintegração psíquica, e é reduzido à loucura,
não
porque perdeu a razão, mas, porque o mundo ao seu redor o esmagou,
ou
porque não havia mais lugar para ele na realidade que o cercava.
Este
talvez seja o aspecto mais aterrador de sua história.
Ele não
é derrotado por um grande inimigo; por uma força externa esmagadora,
Mas pelo
acúmulo de pequenas indiferenças, dos cinismos cotidianos de desprezo
disfarçados
de superioridade.
E agora,
o que nos resta?
Vou ser
repetitivo. Dostoiévski não nos dá respostas.
Ele
apenas nos obriga a encarar a pergunta que nunca deixamos de evitar:
Somos
nós, os idiotas por termos nos tornados espertos?
O mundo realmente pode ser salvo pela beleza,
ou Dostoievski estava apenas se iludindo?
O poeta
inglês, T. S. Eliot, disse: “O mundo
não terminará com uma grande explosão. Mas com um longo e profundo suspiro”.
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