segunda-feira, 6 de julho de 2009


O SOLITÁRIO BEAT, JACK KEROUAC
Allen Ginsberg e Jack Kerouac foram amigos, poetas que lideraram os beatniks, um movimento de jovens intelectuais que delinqüiram uma geração de adeptos. Ocorre que, nem tudo que Kerouac e Guinsberg pensaram, viveram ou escreveram carregava-se no principio ácido da verve beat. Desde a postura filosófica à concepção religiosa o mito da influência ou da escola se esvai. Por exemplo, Ginsberg tinha aversão à mãe, enquanto que Kerouac endeusava a sua. Se Ginsberg incorporou-se à boemia em sua tenra juventude, Kerouac dedicou-a ao esporte: foi jogador de futebol com bolsa de estudos na Universidade de Columbia. Ginsberg afrontava enquanto Kerouac afinava.
Kerouac começou a escrever um romance falando sobre os tormentos que sofria para equilibrar a vida selvagem da cidade com os seus valores do velho mundo. Um fracasso de venda. Aconselhado por Neal Cassady, um amigo dos tempos de Columbia, ele passou a viajar de costa a costa, americana. Ainda era bastante jovem e as surpreendentes viagens, em companhia desse amigo, resultou “On the road”. JK experimentando formas mais livres e espontâneas de escrever, contando as suas viagens exatamente como elas tinham acontecido, sem parar para pensar ou formular frases. Durante esse período, ele escreveria, não só este, mas, vários romances, os quais carregava na mochila, enquanto vagava de um lado a outro do país.
O manuscrito de “On the road” ainda sofreria sete anos de rejeição até ser publicado; porém, ao chegar às livrarias, se transformou em seu primeiro grande romance, comercialmente. Kerouac tornou-se uma celebridade entre os jovens, que ainda sofria com a desconfiança da crítica e dos editores. Até voltar a publicar novamente, ele pegou a sua vida e recolheu-a no esquecimento; na pacata rotina dos casamentos. Em 1957, quando Allen Ginsberg e outros escritores de sua categoria começaram a celebrizar-se como a "Geração Beat" (termo que o próprio Kerouac criara anos antes), os editores manifestaram interesse pelos seus manuscritos, publicando, finalmente, "Pé Na Estrada", que se tornou um estrondoso sucesso popular; não de crítica. De repente, Kerouac foi surpreendido, ao viver o papel de jovem ícone beat para o público, porém, amargado pelos cânones da rejeição, ele não soube como reagir. Os críticos literários continuaram refutando sua literatura; chegaram a ridicularizar o seu trabalho, ferindo-o profundamente. Ao adquirir uma fama não programada, JK passa por um declínio moral e espiritual. Tentando viver a imagem selvagem que tinha apresentado em "Pé Na Estrada", entregou-se ao alcoolismo, o que apagou o seu brilho natural e o envelheceu prematuramente. Seus amigos viam-no como uma pessoa carente e instável.
Percebendo o fracassa, vivendo solitário, retorna a Long Island, onde volta a viver com a mãe. Aos poucos, tenta retirar da mochila os livros escritos na estrada; o problema é que lhe faltava um editor, e os trabalhos exibiam uma alma desconectada, de um ser humano perdido em ilusões. Apesar do estereótipo de beatnik, Kerouac era um conservador, especialmente sob a influência de sua mãe católica. Frequentemente apaixonado, ele chegou a casar duas vezes ao longo da vida, mas ambos os matrimônios acabaram em pouco tempo. Na metade dos anos 60, ele casa-se novamente, agora com uma velha conhecida de infância. Após o casamento, pega a mãe e a esposa e vão morar em St. Petersburg, na Flórida, onde morreria em 21 de outubro de 1969, aos 47 anos, destruído pela bebida.
Procurando informações que confirmassem dados de memória para um texto sobre os 50 anos do livro On The Road, descobrimos que a Viking Press ainda vende 100 mil cópias do livro todos os anos. Quantos garotos e meninas arrumando a mochila com meia-dúzia de trocados, lançam-se à estrada, pegando carona com caminhoneiros, bem ou mal intencionados, em busca tão-somente da experiência de partir?... A praia, para esses jovens, é apenas questão de dias, ou semanas; dormir ou comer mal são contingências que os levarão à última carona ou ao fim da força da aventura. Quantos americanos cruzando a fronteira com o México, dormindo no teto de automóveis em meio aos insetos, suportando um calor inacreditável e esperando pela noite em que tudo acontecerá se espelhou no ideal de Kerouac?... Quantos guris ainda saem do Rio Grande do Sul de carona, em direção às praias paradisíacas do Nordeste, viajando durante semanas, até que tudo se dê, até o primeiro albergue ou à primeira transa?... On the road inspirou o filme Easy Rider, que lançou ao estrelato Peter Fonda e Jack Nicholson.
Se Kerouac não tivesse quebrado a perna, quando era um expoente do futebol americano, na Universidade de Columbia, como seriam os beatniks, os hippies, os desbundados dos quatro cantos do mundo? Se ele ficasse em seu canto, uma estrela local do esporte americano, nós viveríamos a era dos milagres?... Foram-se os dias do sossega-leão; os tarados estão na pior; os ousados trapezistas quebraram as vértebras. Era de maravilhas, quando os cientistas, em cumplicidade com os sumos sacerdotes do Pentágono, ensinam de graça a técnica da destruição mútua, porém total. Progresso, pois sim! Faz disso um romance legível, se conseguir. Mas não me vem reclamar das misturas de vida com literatura direitinha e limpa – sem lixo radioativo. Que falem os poetas. Eles são beat, mas não são os donos da bomba. Pode crer: não tem nada limpo, nada saudável, nada promissor nessa nossa era de maravilhas – é só cantá-la. E a última palavra, provavelmente, vai ser dos Kerouac da vida.” O texto supra é de Guinsberg. Kerouac, mesmo, disse o seguinte: “Daqui a mil anos, se houver História
os Estados Unidos serão lembrados como um paisinho antipático cheio de panacas, espinhenta rosa de estufa cultivada por jardineiros covardes.”
Morrendo prematuramente, Jack Kerouac ficou no entremeio do anjo torto com o bad boy. Dizem seus biografistas que o verdadeiro Kerouac ainda está contido nos livros ainda não publicados, nos quais desvendou seus sentimentos mais recônditos; seu eu mais real, mais honesto e filosófico. Segundo consta, tais escritos datam dos seus 25 aos 32 anos, retratando o artista quando jovem; período crucial e vida intrépida do romancista por acontecer.
Enquanto não temos acesso a essa alma cativa, resta-nos aquilo que veio ao nosso conhecimento, ao conhecimento universal: um jovem como tantos outros, com idéias, medos e dúvidas; repletas inocências juvenis e a incansável busca pela mulher de sua vida; a luta para amadurecer e fazer sentido em um mundo de pecados. Tenho para mim que a crítica não duvidava das intenções de um jovem beatnik, ao repudiar o seu lado católico, exacerbado. Ela não queria era justamente esse tipo de manifestação polida brotada de uma geração que veio para arrebentar os costumes. O problema é que, ao ignorar o religioso, esqueceu-se do artista sincero que viveu buscando sua própria voz.
Carlos Kahê

KAFKA E AS METAMORFOSES



Não fosse o seu gênio literato, quem poderia ter sido Franz Kafka?
Naquela Praga pertencente ao Império Austro-Húngaro, subordinada a Viena, presa à dinastia dos Habsburgos, ainda não existia a Tchecoslováquia, cujo nascimento, via Estado democrático, se daria somente em 1918.
E não era só: a casta a que pertencia – industriais, banqueiros e altos funcionários – falava alemão, a língua dominante, enquanto que a massa de operários falava tcheco. Ou seja, mais do que dividir dois povos distintos, a língua criava diferenças e discriminações dentro de um mesmo país, e eu me pergunto: isto era fome para o organismo de um jejuador, ou uma onda gigantesca para a cabeça de um artista?
Kafka estudou Direito e trabalhou numa seguradora italiana. Escolheu trabalhar longe da atividade literária e se negava a ganhar dinheiro escrevendo sob encomenda, alegando precisar manter sua arte pura: observando os operários humildes, acidentados, em busca do amparo do governo é que formulava a questão do conformismo da massa ante a onipotência de um Estado que esmagava.
Não teve na vida política, sequer uma posição clara que o alçasse aos diálogos e construções de ensaios na cena cultural de Praga. Jamais chegou a formular idéias propriamente socialistas e suas incursões públicas são muito tênues para serem pregadas em sua trajetória.
Kafka viveu desencantado com as próprias revoluções, não lhes punha fé; entendia que política era para quem entendia de política. Para quem dela dependesse. Em sua obra, no entanto, está registrado seu profundo incômodo com a estrutura social complexa representada pela apatia dos que se deixavam dominar (os bons oprimidos) sempre em condições inferiores à energia da engenharia dominante (os maus opressores).
Kafka não teve vida para acompanhar o assassinato de suas irmãs pelo holocausto; teve sensibilidade para se condoer com o comodismo individualista de uma sociedade interesseira, omissa, que fechou os olhos para uma realidade desenvolvida à sombra do Nazismo.
Não teve uma formação religiosa, profunda: nascido de uma família judia, não fervorosa, aproximou-se um pouco dos judeus germanizados que viviam em Praga; até interessou-se pelo sionismo, apenas por curiosidade, instigado pela última companheira, Dora Diamant.
Como a historia haveria de contar, o fervor de Dora foi insuficiente para torná-lo um homem em quem os rabinos depositariam aquele orgulho cretino próprios dos religiosos. O amor, tampouco lhe matou a fome. Namorou várias mulheres, noivou-se de algumas, trocou uma pela outra em plenos anos X do século passado; mas eram relações tratadas com o misto de esperança e de medo. Vivendo esses amores frios, anti-sentimentais; apenas um foi razoável e já nos tempos da madureza, que foi seu relacionamento com Dora, uma jovem de 18 anos.
É fato que, na casa de suas agonias, o racionalismo intelectual acabou vencendo o amor, assim como o seu eterno ceticismo em relação a Deus.
Se é verdade que escritores gostam da solidão, Kafka tinha fome de solidão e espalhou este sentimento pela vida e pela criação. Demonstrava fragilidade, incerteza, recusa em ser forte como fora o seu pai, Hermann Kafka (dito na carta que lhe fizera e não entregou) recusou em ser forte como era o Estado que o dominava, como o mundo que o amedrontava e que ele tão bem descreveu em sua literatura. Nas características de seus personagens, Kafka punha incompreensão política, deslocamento social e desapego pessoal e material... Em relação às coisas, não tinham passado nem futuro, história ou expectativa. Daí a naturalização do absurdo.
A rigor, a situação kafkiana de impotência do individuo moderno se vê as voltas com um inesperado poder que passa a controlar a sua vida; que o leva à alienação ou a um padrão de iniciativas inúteis.
Kafkiano é um atributo internacional concedido a Kafka: o termo está inclusive nos dicionários. Há, no entanto, hipertrofias que tratam mal esse atributo: fazem mau uso dele, ao transferir para o termo tudo aquilo que nos parece estranho, absurdo e impenetrável. Em Kafka, o homem comum se aproxima do empecilho banal da aceitação a tudo. O esforço de encontrar a lei está condenando-o ao fracasso, e cada vez mais distanciando-o do alvo elevado: uma parábola que descortina o apelo revolucionário de sua narrativa.
Kafka morreu aos 41 anos, tuberculoso, considerando tudo o quanto escrevera bobagens que deviam ser queimadas. Max Brod, seu grande amigo, não o atendeu; conhecia sua personalidade hesitante e o legado que o amigo deixaria ao mundo. Em seu último livro, "A construção", ele já sabia de sua doença, tanto quanto do que cometera escrevendo.
Pessoalmente, não acredito em rigor asséptico, quando tratamos de ego e de construção psicológica. Kafka sabia, sim, do seu valor. A construção de toda a sua obra nos emite este sinal de lucidez diante da fatalidade; chega a até a exibir uma espécie de testamento, pela total inconformidade com tudo e com todos.
Um artista consagrado, no alto da sua capacidade, tem condições de transferir para a sua última obra toda a sua essência. Kafka teve um lúgubre, não digamos presságio, uma vez que ele estava no sanatório lutando contra a tuberculose; porém tinha consciência plena de que o fim estava próximo. Decerto não poderia se dar ao luxo do “branco total da criação”, pois o tempo “rugia”; e nem poderia conclamar o poder de síntese. Mesmo na tentativa de consagrar e até superar tudo quanto, até então criara, Kafka fez seu último trabalho superestimando seu mais alto grau de sobriedade e de resignação. Esta resignação era dedicada àquele que nada entendeu do que ele havia escrito. Ele sabia a grandeza da sua criação, porém a modéstia imperou até no momento em que as suas forças o empurravam para clamar as asas da liberdade diante do fim eminente. Se o narrador punha em alta o sentimento de felicidade, o poder dominante do escritor o retraía com idéias de fracasso. No seu caso, para o seu domínio, grandioso seria muito pouco.
Para resumir a ópera, Kafka desejava nos impor em seu último trabalho um fragmento inacabado, nos propõe, até, um pressentimento incomprovado de que as coisas podem sinalizar a ausência de uma finalidade contida na própria meta traçada. Em A construção, fez entoar no seu distorcido canto do cisne um grito solitário que ninguém esteve disposto a atender. Esquecê-lo, quem havia de? Há superação, há consolo e há beleza; é como não houvesse fim, pois o narrador simboliza a insegurança de quem se encerra sem saber se é o caso.
Para finalizar, a metamorfose percebida na obra de Kafka testemunha um momento na história da literatura na qual já não se podia lançar mão sem escrúpulos de estratégias de representações ilusórias já desgastadas. Criando a poética da metamorfose e da parábola, o cômico e o trágico se unem e se desconstroem para derrubar o pano que escondia a face do temor e do cisma, do seu próprio fazer literário, deixando uma indisfarçável fissura sobre si mesmo, e que jamais parou de crescer.
Não vou colocar aqui que Franz Kafka é a minha grande referência literária. Como não o foi Dostoievski ou Machado ou Saramago. Gosto da emoção, gosto de ver o pendão florido. Kafka chamou-me a atenção após constatar que os maiores escritores do planeta, aqueles que me inspiraram a escrever, tinham-no como modelo. São exemplos: Borges, Cortazar, Garcia Márquez, Vargas Llosa e Carlos Fuentes. Diziam estes que a palavra estruturada marcada por conflitos insolúveis, aparentemente frias, tinham o tempo exato e o ritmo inconfundível a colocar frente a frente o espanto do eu com o mundo. Dos ícones acima citados, percebo, no entanto, que apenas Cortazar o seguiu como um discípulo fiel.
DOSTOIÉVSKI: A VIDA DE UM GRANDE PECADOR

Não sou daqueles que acreditam em mazelas da vida como fator que propõe a esse ou aquele ser humano o viés essencial à construção de uma carreira literária. Brutalidades, traumas e tragédias podem marcar o perfil de uma escrita, todavia não é essencial, pois que sensibilidade, entendimento do mundo, dom, o escritor de verdade já traz consigo. DOSTOIEVSKI era um escritor de verdade, e não era obrigado a concordar comigo. Nem eu com ele. Bem, ele creditava à sua escrita os traumas pessoais que ele mesmo chamava de afrontas, e uma dessas afrontas, conta seu biógrafo, Joseph Frank, aconteceu debaixo da janela de sua casa: o mensageiro do correio, após uns bons tragos de vodka retorna à carruagem estacionada e despeja sobre o cocheiro, que o aguardava, toda a sua brutalidade: punhos incessantes na nuca do camponês, na mesma constância em que este chicoteava, freneticamente, os cavalos, àquela altura, atabalhoados, marchando desordenadamente.
Acontece, porém, que quando lhe ocorreu tal cena, Dostoievski não era uma criança, mas um jovem aspirante, estudante da Escola de Engenharia de São Petersburgo, portanto já grandinho para colocar entre as mazelas de sua vida esse quadro de brutalidade.
A cantora Maysa, como pudemos ver através de sua história, em recente especial da Globo, punha em suas composições suas torturas de amor, a vivência diária de seus desencontros; facilidades tais que com ela nascera para compor um estilo; jamais uma soma de resultados provenientes de uma outra soma de equívocos. Ela tinha, além da bela voz, o talento para compor, e gostava (ou se sentia bem) reunindo em suas letras tudo aquilo que para o homem comum são verdadeiros traumas.
Voltando a Dostoievski, a crítica mundial confere à saúde precária do autor, sua situação financeira calamitosa, bem como as desavenças e desafios ao pai (seus famosos traumas), elementos que o elevaram à condição de maior especialista na alma humana. Há controvérsias, e estas se perfilam desde o gênero de sua escrita aos temas pesados abordados em sua obra. Neste aspecto, Marguerite Yourcenar me dá uma melhor definição de completude. Eu, particularmente, quero fugir sempre aos caldeirões existenciais, e ratifico este pensamento na própria obra desse escritor, cuja melhor colheita aconteceu quando ele viveu sua estabilidade conjugal.
Mikhail Bakhtin afirmou, com particular veemência, que as personagens de Dostoievski, “não vivem uma vida biográfica”, isto é, não nascem, passam a infância e a juventude e casam-se, geram filhos, envelhecem e morrem, pois o autor só concentra a ação nos pontos de crises, fraturas e catástrofes. Quando escrevia O Idiota, o autor chegou a dizer a um amigo que no tema abordado pelo livro ele encontrava deleite e inquietação: o título do romance já anunciava o conceito desejado como forma de compor o personagem: um indivíduo puro, superior, que acaba sendo para os demais, numa sociedade corrompida, um idiota – um inadaptado. Sabe-se que, ao criar o príncipe Míchkin, personagem de O Idiota, a obsessão de Dostoievski repousava em Cristo e em Dom Quixote. A própria ênfase no poema de Puchkin, “O cavaleiro pobre”, decorre da sua relação com Quixote. Ao levar a história para o cinema, o diretor russo, Ivan Píriev, transpôs para a tela a primeira parte da história, cuja figura do ator principal, Iúri Iácovlev era um ser hibrido, ora Jesus, ora Dom Quixote. Quando, ao recriar o mundo atormentado de Dostoiesvski, em meio à enevoada São Petersburgo, o diretor o fez com maestria a cena em que o príncipe acaricia o assassino de sua amada, ele (tra)vestira o príncipe com a indumentária de Cristo. Para o contexto dostoievsquiano, este é um paroxismo difícil de aceitar. Uma situação-limite, extrema. Em seus apontamentos, Dostoievski escreveu que os leitores souberam aceitar aquele final, mas a crítica, no entanto, refutou. Decorridos tantos anos, após tantas e tantas resenhas e teses acerca do romance, aquele desfecho continua, para alguns críticos, como Boris Schneiderman, desconcertante, abissal, “um verdadeiro desafio à nossa capacidade de aceitar as ações de uma personagem literária”.
Quando escreveu outra de suas obras famosas, Os irmãos Karamazov, a primeira que eu li de seu grande acervo, ainda nos meus tempos de alamedas floridas de Ipanema, Dostoievski estava em paz com a crítica e consigo mesmo. Este livro foi bem recebido, devido ao seu conteúdo febril, em que imprevistos e enigmas do destino dão pouca folga ao homem em geral. Nessa época, quando o autor, além do reconhecimento, passou a obter algum refresco financeiro, foi justamente quando ele se encaminhava para a morte: o romance foi publicado em 1879 e ele faleceu em 1881.
A vastidão do romance fez com que gerações de leitores entendessem que, naquele ponto, Dostoievski chegava ao Olimpo literário. Nesse livro, acredito, ele disse tudo quanto podia, e seus diálogos se sucediam em avalanches de confissões e paradoxais desabafos. Quem o lê guardará na lembrança seu caudal tortuoso, intranqüilo, depois de alguns dias e noites debruçado sobre suas 750 páginas, mas quererá ir sempre em frente, puxado por fragmentos feéricos e dramáticos que compõem o vitral de que ele é apenas um dos elementos. Explicando: Dostoievski impunha aos leitores a sua visão particular de mundo – céus e infernos; Deus e seu reverso, e para isso atribui aos seus personagens as falas de que queria dispor. Estilhaços que, junto a ele pareciam angelicais; anjos abrindo-se em revelações, contudo, deixando a ele o final que planejara.
Em Os Irmãos Karamazov os filhos, notadamente Dmitri, foram criados sob implacável negligência paterna, cuja paternidade fora representada por Grigori, criado fiel e pai afetivo dos meninos.
Em sua história pessoal, o pai de Dostoievski, aposentado após a morte da mãe, retira-se para uma pequena propriedade rural; de lá manda os filhos homens para boas escolas, sustentando seus gastos pessoais e estudos. Veio a ruína, porém Dostoievski continuou sugando os minguados recursos do pai, e este, sempre, acalentando no filho uma ilusão de poder. Vendo o pai assassinado pelos camponeses, seus empregados, por falta de pagamento, Dostoievski, enfim, toma ciência da sua situação, e se culpa pela tragédia. Eis o nexo de causa e efeito. Aqui ele começa a montar o mosaico em sua cabeça: explorando o pai, ele obrigara-o a explorar seus empregados... Enfim, inicio do estopim.
Para entender que Dostoievski creditava aos seus sofrimentos a saga de sua literatura, eis o conselho do próprio escritor a um colega iniciante: “Para escrever bem é preciso sofrer, sofrer”. Prefiro sua definição acerca do homem: “um ser que se habitua a tudo”.
Dostoievski insuflou ao gênero prosaico a poesia das paixões intelectuais; a poesia das discussões ideológicas, a poesia das análises psicológicas, iniciando-se, assim, uma época literária, universal, que caminha.
A carga emocional apoiada na estrutura espiritualista de Fiódor Dostoievski levaram-no a revigorar manuscritos, a esboços de um romance intitulado “A vida de um grande pecador”, um projeto que, como dizem, passaria a régua em sua trajetória de escritor. Como sabemos, o livro não foi levado a cabo, mas a idéia foi apanhada por Puchkin, que escreveu o poema longo, “O cavaleiro pobre”. A vida de um grande pecador, não há como não nos levar a uma autobiografia. Certo, ele optou pela biografia da família em Irmãos Karamazov, como ato involuntário de justiça. Assim, enquanto o mundo que ele profetizou não se realizar, o pecador e o santo continuam indissociáveis.
Carlos Kahê

ALLEN GINSBERG E A POÉTICA RADICAL

ALLEN GINSBERG
Abril é o mês em que a comunidade radical da poética mundial celebra a morte de Allan Ginsberg. Dizem que o reconhecimento a um poeta concentra-se mais na imagética do que na poeticidade. Será verdade? Ginsberg era inimitável, em atitude e na quebra paradigmáticas. Se Vinicius foi um poeta que viveu no limite da boêmia, Ginsberg foi o poeta que viveu no limite da quebra das correntes. “Arranquem portas e janelas para ouvirem o meu uivo!”
Allen Ginsberg foi uma criança tímida, dominada pelos estranhos e assustadores episódios de sua mãe, uma mulher completamente paranóica, que não acreditava no mundo. Do seu lado, Allen lutava para compreender a luxúria que o queimava por dentro. Na escola secundária, descobriu a poesia e a atração pelos meninos de sua idade; ao ingressar na Universidade de Columbia, fez amizade com um grupo de jovens delinquentes, filósofos de almas selvagens, entre eles Jack Kerouac, obcecados igualmente por drogas, sexo e literatura. “Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura!”
Ao mesmo tempo em que ajudava os amigos a desenvolver os seus talentos literários, Allen perdia de vez a sua ingenuidade, experimentando drogas, freqüentando bares gays em Greenwich Village e vivendo seus affairs homossexuais. Assumindo um estilo de vida bizarro, como se procurasse em si mesmo a face da loucura de sua mãe, Ginsberg acabou em tratamento psiquiátrico. Aos 29 anos, já tinha escrito muita poesia, mas quase nada publicado. Ganhou popularidade a partir de 1955, com o seu poema Howl, considerado por muitos, obsceno e pornográfico. Howl foi seguido por vários outros poemas importantes, como Kaddish, onde ele faz uma espécie de auto-exorcismo, escrevendo sobre a loucura e morte de sua mãe. Por esse período, Ginsberg viaja pelo mundo, descobre o budismo e se apaixona por Peter Orlovsky, que seria seu companheiro por 30 anos, embora sua relação não fosse monógama. No início dos anos 60, a celebridade cresce, no entanto, ele se lança na cena hippie, ajuda Thimoty Leary a divulgar o psicodélico LSD e participa de uma lista incrivelmente grande de eventos, como o Human Be-In, em 1967, em San Francisco. Allen induz a multidão a cantar o mantra OM, imitado, em seguida, pelos Beatles, na canção Across the universe. Ginsberg é também figura-chave nos protestos contra a guerra do Vietnã, na Convenção do Partido Democrático de Chicago, em 1968. Após conhecer o guru tibetano Rinpoche, aceita-o, prontamente, como seu guru pessoal. Depois, juntamente com a poeta Anne Waldman, cria uma escola de poesia. Sempre participando de eventos multiculturais, manteve sua agenda social ativa até a sua morte, em 5 de abril de 1997, em Nova Iorque.
Ginsberg tinha muitos fãs,entre eles Jim Morrison, do grupo The Doors. Morrison era tão viciado nas poesias e obras dele que dizia escrever suas músicas após ter lido algum de seus poemas. Sabe-se que Ginsberg e a banda The Clash eram fãs recíprocos. O poeta fez uma participação especial na música Ghetto Defendant, e cantou, ao lado de Joe Strummer, trechos de um de seus poemas. Ginsberg não sendo único, é no minimo histórico. Histórico porque cada obra é escrita em determinada circunstância, em determinado contexto; nem que seja para negar ou transformar esses contextos em valores, ideologias, linguagem e organização da sociedade. Não só por isso. Ginsberg também fez história, pela influencia sobre outros autores, reaparecendo em seus textos, produzindo ideologia, produzindo percepção e representação do mundo. Se a consciencia, a sociedade e o mundo são produtos de linguagem, então a operação feita pelo poema, a criação e a transformação da linguagem são transformações do real ou consciencia da realidade. A civilização grega o foi, de Homero; a romana o foi, de Virgilio; bem como a cultura lusófona o foi de Camões.
Ao se refletir sobre sua passagem, aqui na terra, ficamos com a impressão de que Allen Ginsberg foi, não apenas, o poeta norte-americano de maior prestigio da segunda metade do século XX, foi também, o grande rebelde, romântico, anarquista, contemporâneo, lider de uma geração que fez despontar Kerouac, Burroughs, Corso, Ferlinghetti, Snyder, entre outros. Fez revolução na linguagem e nos valores literários que se transformaram em rebelião coletiva, dentro da série de acontecimentos revolucionários, essência da Geração Beat, década de 50, e da contracultura e rebelião juvenis dos anos 60 e 70.
Allen Ginsberg foi um poeta de atitudes, portanto.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A vinha nas mãos dos mais justos

A VINHA NAS MÃOS DOS MAIS JUSTOS

Na Bíblia a vinha é usada para simbolizar o povo. Parábolas afins foram contadas por Jesus, textos bíblicos foram escritos por Paulo e Isaias para advertir aos governantes sobre a importância desse povo para Deus. Há uma certeza de que Deus colherá os frutos que deseja, confiando sua vinha a bons agricultores. Aos que exercem cargos de liderança indagamos: Quais frutos Deus espera de vocês para alimentar o seu povo? Não se corromper pelo poder e servir com responsabilidade ao bem coletivo já seria um excelente fruto. Sempre que surge um novo líder buscamos nele a autenticidade, responsabilidade e preocupação com o bem do povo; um bem que os leve ao protagonismo, que não os deixem entregues à sorte, que construa-lhes um destino.
A nossa cidade, aos olhos de quem bem a conhece é aquela videira fértil cantada pelo profeta Isaias: dela aguardávamos a produção de uvas de excelente qualidade, mas que só tem produzido frutos selvagens. Cabe-nos perguntar a nós mesmos: O que poderíamos ter feito a mais por nossa vinha e não o fizemos? Contávamos com uvas de verdade; mas por que só colhemos frutos selvagens? Será se não coube a nós a culpa de ter desmanchado a cerca? Decerto ela foi arrancada pelos vinhateiros; ela foi devastada, porque se sentiu no abandono, e por isso foi pisoteada, tornou-se inculta e selvagem. Tornou-se terra de ninguém. Por muitos e muitos anos, a vinha não foi podada, nem lavrada, e assim, espinhos e sarças tomam-lhe os espaços... Nem as nuvens quiseram mais derramar chuva sobre ela. Quem vai às suas ruas e praças não é difícil deparar-se com soldados jactansiosos e um monte de parasitas lamentando o triste fim de “Policarpo Quaresma”; nos bares encontramos jovens esbanjadores refazendo a apologia das meretrizes; pais avarentos fazendo “aos poderosos” as últimas recomendações da filha amorosa, sempre interrompido pelo servo idiota com um recado da alcoviteira...
A vinha com o passar dos anos troca de mãos e a multiplicação dos últimos quadros nas praças e ruas já é esperada, embora aconteçam algumas baixas: há a graça de morrer o hipócrita, há a tristeza de o soldado ser substituído pela filha referendada e o idiota ser ultrapassado pelo astrólogo. A população se renova, os jornalistas morrem um após outro, entretanto nascem aqueles que assumirão seus lugares no diálogo...
Quando alguém assume um novo papel e chega à praça pela primeira vez, verificam-se mudanças em cadeia, até que todos os papéis sejam novamente redistribuídos; enquanto isso, o velho irado continua a retorquir a camareira espirituosa, o usurário não pára de extorquir o jovem deserdado, a enfermeira entende de consolar a enteada, e não notamos em nenhum deles os olhos atentos à cena precedente.
Descobrimos, entre os documentos abandonados, a pasta de um velho dialogador ocupando dois ou mais papéis: tirano, benfeitor, mensageiro... Com o passar do tempo, os papéis não são mais exatamente os mesmos; sem dúvida a ação que estes levam adiante, por meio de intrigas e reviravoltas, conduz a algum tipo de desfecho, que continua a se aproximar mesmo quando a intriga parece se complicar-se cada vez que os obstáculos entendem de aumentar. Quem vai às praças e ruas diariamente nota que as cenas se deterioram, de ato em ato, ainda que a vida dos habitantes seja medíocre demais para perceber.
“A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular... Quando voltar os donos da vinha, o reino de Deus vos será tirado e entregue a um povo que produzirá frutos”. Portanto, a você que veio para herdar essa vinha, encontrará uma cidade tomada pelos pavões de barro; ela, que outrora fora um celeiro de esperança, da água limpa do rio até seu estuário, transformou-se nesse buraco negro de moscas e pernilongos: a cidade das ruas empoeiradas e sujas de papel de excrementos e de sarcasmos... “Ocupai-vos com tudo que é verdadeiro, respeitável, justo, puro e honroso. Tudo que é virtude e que mereça louvor, a fim de que possamos ver a pronta transformação do nosso reino particular, o bom cultivo da nossa vinha e o florescimento da justiça.
Carlos Kahê

A mulher do tenente francês

A mulher do tenente francês
A mulher do tenente francês é um dos mais cultuados romances de John Fowles (1926–2005). A história se passa na Inglaterra, em 1867. Charles Smithson é um nobre inglês, noivo de Ernestina, filha de um comerciante. A diferença de berços é significativa: enquanto Charles é um cavalheiro, sua noiva faz parte da burguesia emergente, classe cada vez mais poderosa financeiramente, mas que ainda era ridicularizada pela fidalguia. Para Charles, é um casamento oportuno, embora a mistura de classes não seja o melhor dos mundos: aos olhos de quem possui a nobreza no sangue, unir-se à classe trabalhadora, aos novos ricos cuja educação será sempre um arremedo da fidalguia é um inegável sinal de declínio. Nas palavras do narrador, em Londres, em meados do século, já começara uma estratificação plutocrática da sociedade. Naturalmente, nada podia substituir uma boa linhagem, mas, em geral, já se admitia que o dinheiro e a inteligência eram capazes de produzir artificialmente um sucedâneo bem razoável da posição social aceitável.
Esse momento histórico é descrito com muitos detalhes. O narrador atenta para as vestimentas das boas moças, bem como para as diferenças entre a moda londrina e a provinciana; divaga sobre os valores conservadores que fazem dos personagens vitorianos o que são; comenta as origens dos movimentos pela igualdade de direitos da mulher, e lembra o leitor mais distraído que, no momento histórico descrito, O capital de Karl Marx estava para ser publicado, enquanto A origem das espécies, de Charles Darwin, mudava lentamente o modo de pensar daqueles intelectuais.
John Fowles escreveu o que muitos chamariam de romance histórico. Embora não haja aqui nenhum grande acontecimento histórico que possamos chamar de paradigmático (como a queda de Napoleão em A Cartuxa de Parma, ou a Revolução Francesa em O conto de duas cidades), há um recorte histórico preciso, de um momento de transformação social determinante na vida íntima dos personagens, e do qual estes, por sua vez, se tornam representativos.
O passado, em A mulher do tenente francês, é visto com distanciamento: o narrador comenta insistentemente as diferenças entre o tempo da narração (1967) e o tempo narrado (1867), debatendo as idiossincrasias da época vitoriana, sem poupar comentários irônicos. “Bem, a gente ri”, afirma o narrador; afinal, “nada é mais incompreensível para nós que esse comportamento metódico dos vitorianos”.
O trato irônico com a matéria histórica é um dos fatores que renderam a John Fowles a alcunha de romancista pós-moderno. Teóricos como Linda Hutcheon vêem no comportamento de seu narrador um exemplo bastante representativo de como a ficção histórica contemporânea (a chamada “metaficção historiográfica”, para usar uma expressão cara à autora) não revisita a História com nostalgia, mas com ironia e senso crítico. Não vale a pena dissertarmos aqui sobre os imperativos do que se convencionou chamar de narrativa pós-moderna, até porque o próprio conceito de pós-modernidade está, ainda, bastante aberto ao debate. Mas seria impossível comentarmos A mulher do tenente francês sem nos referirmos a alguns dos procedimentos literários normalmente associados à ficção dita pós-moderna. Dentre eles, a obsessão pelas referências intertextuais e pela metalinguagem.
O intertextos são muitos: estão nas epígrafes, todas retiradas de obras clássicas do século 19 (poemas, tratados científicos, romances) e no corpo do texto, em referências mais ou menos veladas a cenários e heroínas da época, saídas dos livros de Jane Austen. São referências que ajudam não apenas na reconstituição histórica, como também na elaboração de um modelo literário e de pensamento com o qual o romance dialoga criticamente.
Já o narrador de John Fowles, além de ironizar o passado histórico que descreve, debate sem pudor as opções dos personagens, suas inseguranças, mesquinharias e caprichos. E não hesita em, por exemplo, condenar um personagem particularmente odioso ao fogo dos infernos. Além disso, o narrador também comenta suas próprias opções estilísticas, desde o uso supostamente exagerado de pontos de exclamação até certos comentários paralelos à ação, a serviço da “cultura inútil” do leitor.
Alguns dos momentos mais célebres do romance são, precisamente, aqueles em que o narrador discorre mais detidamente sobre a literatura. Por exemplo, quando disserta sobre os motivos que levam os romancistas a criarem suas histórias:
Só há um motivo compartilhado por todos nós: Desejamos criar mundos reais como aquele em que vivemos, mas diferentes. Por isso não podemos fazer planos. Sabemos que o mundo é um organismo, não uma máquina. Também sabemos que um mundo genuinamente criado deve ser independente de seu criador; um mundo planejado (um mundo que revele totalmente seu planejamento) é um mundo morto. Nossos personagens e nossa trama só adquirem vida quando começam a nos desobedecer. [...] A questão é que, além de ele [Charles] ter começado a ganhar independência, eu devo respeitá-la e renunciar aos planos quase divinos que concebi para ele, se quiser que ele seja real [...]. O romancista ainda é um deus, uma vez que cria (e nem mesmo o mais aleatório romance moderno de vanguarda conseguiu eliminar totalmente o autor). O que mudou é que já não somos mais os deuses da imagem vitoriana, oniscientes e prepotentes, mas sim os de um a nova imagem teológica, em que nosso primeiro princípio é a liberdade, não a autoridade.
Um narrador onipotente?
É esse princípio da liberdade um dos temas mais importantes do romance. Apesar do casamento iminente, Charles se vê atraído pela estranha figura de Sarah Woodruff, uma empregada conhecida como “a mulher do tenente francês”. Isso porque, de acordo com a população local, ela teria tido um caso amoroso com um oficial francês que a teria abandonado. Esse passado a qualifica como uma prostituta aos olhos do puritanismo vitoriano (e algumas das observações mais divertidas por parte do narrador dizem respeito à vida sexual vitoriana). De modo que Sarah é quase uma pária local. E a atração de Charles por essa misteriosa moça parece ser proporcional a sua aversão ao mundo burguês ao qual está fadado.
A metáfora mais importante do romance talvez seja a da evolução das espécies de Darwin. O homem vitoriano, a exemplo de qualquer outra espécie, precisa se adaptar para não sucumbir aos imperativos da evolução. Ou seja: Charles precisa se adaptar para sobreviver, o que significa abraçar o trabalho e sua nova vida burguesa. Mas o narrador insiste no contrário. Que os personagens são independentes, e não estão totalmente sujeitos aos imperativos de sua época. E que, de certa forma, o personagem é tão mais forte quanto mais resiste à adaptação, buscando seu próprio caminho. É uma idéia compartilhada por muitos autores contemporâneos, a de que o personagem tem liberdade de ação, e não está submetido aos caprichos do autor. Funciona como metáfora para a idéia de que a obra literária está sempre em aberto, e a história permanece incompleta, a ser concluída pelo leitor. Ou como recusa ao determinismo realista do 19.
John Fowles aproxima-se do modelo do romance vitoriano para negá-lo, ao final. Não sem antes lhe reservar um último golpe: o final em aberto. Não que o romance termine inconcluso; mas possui dois finais possíveis. Na verdade três, incluindo outro desfecho alternativo insinuado pelo narrador mais de 50 páginas antes do fim. E, para comentar essa estrutura inusitada, o narrador toma uma atitude igualmente insólita: torna-se ele próprio um personagem, adentrando a história e observando os eventos a uma certa distância. É claro que o apenas o leitor mais apressado confundiria o narrador e sua persona com o autor do livro, John Fowles. Não podemos sequer garantir que pensem da mesma forma.
Portanto, é o narrador personificado na narrativa, e não John Fowles, que conclui sua tese ao final do romance, e que pode ser resumida em uma de suas últimas epígrafes: “A evolução é simplesmente o processo pelo qual o acaso (...) colabora com a lei natural para criar formas vivas melhores e mais aptas à sobrevivência”. Fica-nos a impressão de que estivemos lendo um romance de tese, e que o narrador submeteu personagens determinados por sua época a uma experiência ― ao modo do romance naturalista ― para ao final afirmar a independência desses seres. E o papel do acaso na adaptação das espécies literárias.
Mas esse não é um romance realista, e as conclusões não são tão óbvias. O leitor mais atento pode-se perguntar, por exemplo: a maneira como o narrador adentra o romance e manipula deliberadamente seu encerramento, não termina por ser mais uma declaração de onipotência divina do que uma atitude de sujeição aos desígnios do acaso? Ou seja: embora negue ser um Deus onisciente, não termina por sê-lo, agindo como um titeriteiro, que manipula suas criaturas em favor de uma tese literária?
A questão fica em aberto. Como em todos os grandes romances.
Referência:
FOWLES, John. A mulher do tenente francês. Trad. Adalgisa Campos da Silva. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

VEREADOR SEM SALÁRIO

VEREADOR SEM SALÁRIO
O festival de horrores e de mau gosto assalta mais uma vez as ruas com a polifonia infernal a profanar os alicerces das cidades brasileiras com suas lengalengas cansativas: homens éticos e mulheres guerreiras (des)comprometidos com a verdade e amor à verdadeira causa política, nos aparece com promessas vãs de ocupar o Olimpo e transportar as nossas vidas para o Paraíso.
A Biblia equivicou-se, ao nos sinalizar com a volta do anjo bom; ao que parece, o que nos aguarda é essa horda de interesseiros a nos privar do direito à paz. Gostaria de ver perpetuado em nosso desejo um decreto apagando o salário dessa corja, a fim de presenciarmos o declinio de amor e outros malempregados sentimentos tão "afamados" nesses últimos dias.
Em vez de legisladores pagos com dinheiro público, a grande maioria dos países membros da ONU têm conselhos de cidadãos formados por representantes comunitários: pessoas destacadas na sociedade, mas sem remuneração pela atividade; portanto o cargo de vereador é praticamente uma exclusividade da legislação brasileira. Na grande maioria dos países, a figura do legislador municipal inexiste; em seu lugar há os conhecidos conselhos de cidadãos que trabalham sem ônus para os cofres públicos.
Esses conselhos são reconhecidos pela população e sua formação obedece a uma convocação superior. Isto já funciona em todas as cidades brasileiras: peguem como exemplo o colégio de cidadãos (homens e mulheres) que trabalham em parceria com o judiciário, na instância cível, quando da necessidade de se constituir um corpo de jurados. Dentre os colegiados, convoca-se um contingente, cujos nomes são submetidos a sorteio, momentos antes da seção, a fim de que a seleção não fuja aos verdadeiros preceitos da ética, da isenção e do exercício de direito.
Voltando ao que acontece em todos os países e em algumas cidades brasileiras, nenhum desses conselheiros (vereadores) sobrevive da política e sim de suas atividades profissionais. Geralmente são juízes, promotores, gerentes de banco, advogados, líderes comunitários, membros de clubes de serviço, associações de bairros e outros cidadãos verdadeiramente interessados nos trâmites legais dos projetos do Executivo municipal.
As reuniões, a exemplo do que já ocorre em algumas cidades do sul do País, acontecem em auditórios públicos, sem a estrutura física de uma Câmara Municipal, nem servidores ou comissionados à disposição dos conselheiros.
Esta idéia não gera nenhuma novidade, mesmo no Brasil, onde o formato legislativo é único. Recentemente, mas precisamente em julho deste ano, a prefeita Iracelis da Fonseca Borghi, do município paranaense de Iraí, sancionou uma lei que extingue o salário dos vereadores para a próxima legislatura. Com a sanção, os vereadores eleitos na cidade, no pleito deste ano, não terão mais rendimentos pelo desempenho da função pública. O município, localizado no norte do Estado do Paraná, tem cerca de 12 mil eleitores e oito vereadores, além do presidente da Câmara Municipal. A lei foi proposta e aprovada pelos próprios vereadores da cidade, sendo cinco votos a favor e três contra, no dia 22 de junho.
Até meados de 1977, o trabalho de vereadores não era remunerado, à exceção das capitais e cidades com mais de 500 mil eleitores. Somente após o Pacote de Abril – conjunto de leis outorgado pelo general Geisel, em abril de 1977, visando evitar o avanço da oposição ao regime, foi que os vereadores passaram a receber proventos. Portanto, vereadores são assistentes sociais de luxo e não há nada que eles fazem que um conselheiro isento de remuneração não faça.
Muito mais trabalho tem, por exemplo, um provedor de um hospital, como o da Santa Casa de Itabuna, cujo trabalho é sem remuneração, o que nos remete ao modelo do cidadão que pode e deve participar do tal conselho aqui abordado.
Prestem atenção ao perfil dos candidatos de sua cidade e tentem encaixá-los no moderno sistema de trabalho produtivo, cuja aplicabilidade passa pelo estágio, pela experiência e pela lisura. Ninguém que chegue para uma entrevista de emprego, na atual conjuntura, estará isento de provar sua capacidade e sua experiência no setor pretendido. Estar com a faculdade concluída, de preferência com um curso de pós-graduação é o requisito básico; as demais exigências passam pelo conhecimento de mais uma língua, obviamente, o conhecimento da língua portuguesa tem que ser inerente ao candidato; a ficha pessoal limpa, ou seja, sem antecedentes criminais ou o nome incluído em qualquer cadastro de inadimplência, fatores naturais em qualquer cidadão que se pretenda apto a assumir um cargo, quer no regime estatal ou nas empresas multinacionais, cujas exigências são ainda mais rigorosas.
O povo, para quem as leis e os serviços são criados é quem deveria tomar a iniciativa pública de exigir que mudanças, como esta, venham acontecer no legislativo, mas um ser magnânimo, em pleno gozo do direito, também poderá fazer este bem a sua cidade, a exemplo de Irai no Paraná: a iniciativa partiu de um vereador do PDT. Sem o respaldo financeiro, fica mais fácil identificar aqueles que realmente amam sua cidade. Esta é maneira mais eficaz de se aferir uma aptidão para a causa pública, afinal a vereança seria o estágio adequado para a capacitação profissional de um político de verdade. Depois viriam os pleitos definitivos: prefeito, deputado, senador...
PS: Em todas as cidades brasileiras existe uma verdadeira legião de homens e mulheres de bem que abraçaria o papel de conselheiro, dentro da verdadeira ética, do amor e da moral, sem exacerbações populares. E pasmem! Sem salário!

Carlos Kahê