segunda-feira, 6 de julho de 2009

O CONTO TEORIZADO






O CONTO é uma narrativa curta, um texto em prosa que dá o seu recado em reduzido número de páginas, linhas ou palavras. Sua maior qualidade técnica é a concisão e sua grande eficácia o impacto. Este é um efeito que tanto pode resultar da natureza insólita do que foi contado, da feição surpreendente do episódio ou do modo como foi contado. Concisão e impacto, porém, não podem comprometer a qualidade do texto, cuja relação com o leitor deve ter a mesma competência dos contos mais longos.
Do prisma de sua história e de sua essência, o conto é a matriz da novela e do romance, e isto não significa que ele deva, necessariamente, transformar-se em romance ou novela. Como a novela e o romance, o conto é irreversível. Trata-se, pois, de uma narrativa unívoca, univalente. Constitui uma unidade, uma célula dramática. Portanto, contém somente uma unidade, de conflito, de drama e de ação.
Todos os ingredientes do conto levam a um mesmo objetivo, convergem para o mesmo ponto. Assim, a existência dum único conflito, duma única “história” está intimamente relacionada a essa concentração de efeitos e de pormenores. O conto aborrece as digressões, as divagações, os excessos. Ao contrário, exige que todos os seus componentes estejam galvanizados numa única direção e ao redor dum só drama. Esteja enxuto.
Quanto a esse objetivo exclusivo para o qual deve tender a fabulação, podemos compreendê-lo considerando o seguinte: a soma dos objetivos, parciais e absolutos, que vamos tendo pela vida a fora, poderia dar uma série de pequenos dramas. A unidade de ação condiciona as demais características do conto. Assim, a noção de espaço é a primeira que cabe examinar. O lugar geográfico, por onde as personagens circulam é sempre de âmbito restrito; à noção de espaço, segue-se imediatamente a de tempo; e aqui também se observa igual unidade.
Com efeito, os acontecimentos narrados não se podem dar em espaço longo de tempo, já que não interessam o passado e o futuro: as coisas se passam em horas, ou dias. Sendo duradouro, pode se trata de um embrião de romance ou novela; ou o longo tempo referido aparece na forma de síntese dramática, pois esta envolve, habitualmente, o passado da personagem.
O conto caracteriza-se por ser objetivo, atual; vai diretamente ao ponto, sem deter-se em pormenores secundários. Essa objetividade salta aos olhos com as três unidades: de ação, lugar e tempo. Tratando-se das personagens, poucas são as que intervêm como decorrência natural das características apontadas, as unidades de ação, tempo e espaço.
Só não parece possível o conto com uma única personagem. Ainda que uma só apareça, uma ou mais figuras devem estar atuando direta ou indiretamente, ou vir a atuar na formulação do conflito de que nasce a história. A linguagem em que o conto é vazado também deve ser objetiva, plástica e utilizar metáforas de curto espectro, de imediata compreensão para o leitor; despede-se de abstração e de toda preocupação pelo rendilhado ou pelos esoterismos.
O conto quer-se narrado em linguagem direta, concreta, objetiva. Dentre os componentes da linguagem, o diálogo, sendo o mais importante de todos, merece ser referido em primeiro lugar. O conto por seu estofo eminentemente dramático, deve ser, tanto quanto possível dialogado. De acordo com as diferentes formas que se apresentam os contos, ou seja, a proporção interna em que serão trabalhadas as unidades, podemos definir cinco tipos de contos: o conto de ação – onde predomina basicamente a aventura, o que não significa a ausência total dos demais componentes. É um tipo de conto linear e menos importante do que os outros, embora seja quantitativamente mais freqüente;
O conto de personagem – este é menos comum e totalmente centrado no exame da personagem, mas nunca deixando de obedecer a conjuntura própria do conto, visando sua unidade;
O conto de cenário é raro. A tônica dramática transfere-se para o espaço, para o ambiente. Este se torna praticamente o herói;
O conto de idéia – embora o escritor se utilize de personagens, conflito, etc., serve para mostrar uma visão de mundo: é um instrumento da idéia que pretende transmitir;
O conto de emoção tem o objetivo de transmitir uma emoção ao leitor; geralmente vem mesclado ao da idéia.

A ORQUESTRA DOS MORTOS - Romance de Carlos Kahê



Este é um livro moderno, quer pela linguagem poético/musical de sua narrativa, ou pela beleza de imagens evocadas em seu tema. A obra está dividida em três partes:
1º. Livro – Os Melhores anos de nossas vidas;
2º. Livro – A Água em flor;
3º. Livro – O Tempo vence o rei;
O texto de abertura invoca a história de amor proibido entre uma dona de casa e o seu médico, amigo do seu esposo: um amor platônico, no inicio do século XX, com requintes demoníacos de desonra. Amores, outros, impossíveis, hão de pespontar o enredo deixando espaço para que o tempo ordene o destino de cada um. Aqui o tempo é senhor do homem, como pode ser, também, esse senhor, o demônio, uma vez que na medida em que nos apaixonamos pelo personagem ele aparece riscando-o da narrativa.
O ambiente é o inusitado universo sul baiano, tão conhecido em todo o mundo por ser o local da descoberta do Brasil, portanto reconhecido mundialmente, em nível turístico, jamais pelo viés literário.
O tempo, além de dominar os homens, apresenta-se marcado por fatos históricos e situações sociais e ambientais que vão do definhamento da Mata Atlântica ao descaso em relação ao índio, "oriundi", personagem de fundação da Costa do Descobrimento.
Como elemento adicional aos personagens fictícios – os donos reais da história - veremos, também, personagens tão ricos como o presidente Artur Bernardes, Getúlio e Lampião, entre outros...
Não é certo que todas as personagens morrerão. De certeza há apenas que o leitor vai se envolver com todos eles; porém como formar a utópica orquestra? Com elementos vivos? Impossível! E então?... O autor entrou em angústia. Ao terminar de escrever este livro, teve necessidade de retomar o texto para retomar as sua relação com as personagens.
O leitor não poderá fazê-lo.
Em sendo assim, este não é um livro moderno. Este é um livro indomável!
Romance: UM RIO PERENE
3ª publicação de Carlos Kahê
Editora americana SEVEN&SYSTEM
Pedidos:
www.biblioteca24x7.com.br




Nota do autor:

Os pais são sinceros quando dizem não existir um filho de sua preferência, que todos são iguais diante do seu coração. O sentimento de paternidade também paira sobre a arte, sobre aquilo que extraímos de nós; aquilo a que chamamos de essência, inspiração ou o que de mais substantivo (abstrato) conseguimos perceber em nossa habilidade pessoal. Arte ou dom, não importa o nome. Inegavelmente, tenho uma queda pelo livro UM RIO PERENE, mas não posso dizer que ele seja o meu trabalho maior. Tenho o mesmo sentmeno pelo O SANTO SELVAGEM. Neste livro imprimi, naturalmente, os mais requintados tons da simbologia literária. Ao chegarmos ao seu desfecho, o nó na garganta é quase inevitável. Quando terminei de escrever A ORQUESTRA DOS MORTOS – precisei mexer no cerne de sua história, precisei mexer nos móveis da criação: voltar a conviver com as personagens para confortar a minha melancolia. Tenho muito orgulho de ter escrito e publicado o BAILADO HUMANO – desde sua feitura, da estrutura em que ele foi montado até o resultado de algumas resenhas profissionais favoráveis. Relendo a ROSA DO TEMPO, não saberia dizer onde estariam contidos os melhores contos, se neste ou naquele.

A minha relação com UM RIO PERENE é de uma emoção contida, mas efetiva. Pesquisei, coloquei-o em estado de fusão, escrevi, revisei, apaguei, renovei, publiquei, li-o trezentas vezes e todas as vezes em que chego ao seu final me emociono.
Tomei conhecimento de sua história real aos 11 anos. Numa noite de sábado, de chuva pesada, na minha pequena Itagimirim, minha mãe pedalava sua máquina de costura e eu, sem ter o que fazer, fiquei deitado riscando o chão, ouvindo a chuva, ouvindo a conversa dos vizinhos, que entrava pelas nossas paredes. De repente minha mãe parou a costura e se concentrou na narrativa do viajante.
Seu nome era Abraão, fazendeiro rico do norte de Minas. Desconfiado do assédio generalizado ele passou a se desfazer de seus bens. Antes de tomar tal decisão, Abraão contava com uma atenção exagerada de fazendeiros, de políticos, de empresários, pseudos-amigos, pares importantes para o seu negócio. Em sua narrativa, dizia esse senhor possuir em cada local de pouso, além de uma atenção acima do normal, um pijama novo, uma escova dental personalizada, o melhor banquete, o mais requintado sarau, estes, sempre eivados dos olhares mais estrigídeos. Inquieto com tais excessos, ele resolve anunciar sua falsa queda nos negócios, uma dispersão de bens, incontrolável, repetidos fracassos, maus negócios, dissabores, enfim, a bancarrota.
O resultado foi a clara mudança de atitude e de apreço.
O vizinho, para quem ele contava a sua história, fora seu vaqueiro por mais de trinta anos e teria sido a única pessoa a disponibilizar todo o seu plantel de muares e de reses para que ele recomeçasse a vida. Foi mais além: tudo o que possuía fora conquistado com a ajuda do ex-patrão, devido a sua bondade, sua lisura, sua amizade. Por isso, o internalizara no seu mais luxuoso lugar, no coração: “Tudo isso lhe pertence, meu patrão!”
Abraão não retornara àquela casa somente para ratificar o seu apreço, mas anunciar que o patrimônio, ainda mis revigorado, após sua morte, pertenceria à família do seu antigo empregado.
No romance, vou precisar de exatas 39 páginas para explicar e proceder as transmutações de minhas personagens (Dostoievski precisou de 420 páginas para explicar a relação dos Karamazov). Resgato o Abraão (bíblico) que a mim interessa: tento humanizá-lo, embora ele jamais vá deixar de exercer o seu papel de patriarca hebreu.
Utilizo as alegorias de sua Aliança com Deus para poder explicar as alianças possíveis entre os homens: rasgo a túnica de um rei em quatro pedaços. Em minha história, o tempo que é senhor de tudo vai me valer quando tento fazer um recorte sobre 4 homens para chegar à essência daquilo que pretendo que é traçar o itinerário de um individuo destemido: sua aliança com Deus revigorando sua religiosidade; a sua relação social expondo, em páginas abertas, o tom de sua personalidade; sua atitude diante do trabalho explicando sua relação com a família, com o outro e com o acúmulo de riqueza; por fim, o amor, que o tempo lhe roubara nos melhores anos, chega quando a luz que lhe parecia apagada aparece vigorosa, mas expondo a falta de ternura. Como o próprio Abraão definiu esse momento: “Havia em minhas mãos uma mulher capaz de colorir uma primavera, mas eu não sabia como conquistá-la”.

2. Resenha

Tomei conhecimento do trabalho de Kahê, durante a Copa do Mundo na Alemanha, onde estudo. Pelas mãos de um amigo, li o seu excelente, Sangue na Rua das flores, após, criei coragem de lhe pedir outros trabalhos, como o seu romance, O Santo Selvagem, além das crônicas que escrevia para o caderno cultural de um jornal de sua região. O Bailado Humano publicado há dois anos, pela Editora 7Letras, Rio veio confirmar a trajetória de um autor que prima pela musicalidade, pela expressão verbal cingida de conceitos eficazes, densos de significados. Considerei Um Rio Perene, um romance apaixonante, pós-moderno, em todos os aspectos, e há os inéditos A Noiva da Cidade, A Orquestra dos Mortos e Pássaros Mudos, trabalhos a serem concluídos, e que o alçarão ao grande público.
Carlos Kahê confessou-me sentir a presença de certas entidades, quando escreve. Cavaleiros voláteis apeiam diante dele, lhe sorriem e depois se evaporam como bonecos de nuvens. Assim, acontece em a Rosa do Tempo onde há passagens que ele mesmo lê arrepiado, incomodado com a presença quase palpável de Drummond, de Clarice, de Neruda... Enfim, Kahê, que é professor de literatura e pós-graduado em jornalismo, mais uma vez, surpreende com seu estilo ultra-moderno, utilizando expressões necessárias, únicas, densas, concisas, memoráveis.
Gabriel Lima Passos


Orelha – 3.
Carlos Kahê nasceu em Itagimirim, Extremo-sul baiano. Tão logo se acercou do sentimento do mundo, mudou-se para Itabuna, quem sabe atraído pela aura literária dos filhos ilustre da região cacaueira, Jorge Amado, Adonias, Telmo Padilha, Valdelice e Firmino Rocha. Kahê é músico, compositor, letrista denso, uma espécie de intelectual “gauche” devido a suas incursões instáveis pelas universidades. Começou na Arquitetura, onde vislumbrou a estética concretizada nas Letras. Deixou a Economia, por medo da dispersão, pela aridez, porém, jamais se afastou da sua teoria, volta e meia, invocada por uma de suas personagens. Pós-graduou-se em Jornalismo, porém, no retrato do artista, quando, ainda, bem jovem, há algumas nuances de Engenharia, cuja aplicação equilibra-o, sempre e mais na coesão, embora ele afirme que esta seja água bebida nas fontes de Graciliano, Fuentes, Lispector, Yourcenar e os grandes poetas do mundo. De sua região ele elege Telmo Padilha.
O Editor


Texto do livro:

A história de minha vida é uma canção que o tempo não apaga. O exercício de lapidar palavras e imagens faz com que cada verso seja um trabalho de reconciliação do presente, que ora anuncio, com o passado bíblico aninhado em minha história. Refazer esta canção, não apenas, ressalta a paciência com que me abandono ao ofício de rebuscar frases esquecidas, mas ajuda-me a reviver tudo o que antes parecia inútil paisagem. Se algo passa ao largo das minhas lembranças, tento segurar o impulso de renovar a minha canção, justamente por saber que a opção do homem pelo novo é uma avalanche. Assim, ao invés de mudar o olhar sobre antigas leituras, refaço o ponto adormecido bordando imagens, tecendo as mesmas idéias, até sentir que retomei veredas e trilhas de sua letra original.
Quem poderá dizer que retornar ao passado inviabiliza uma aproximação com o moderno? Sou perseguidor da novidade e acredito que ser fiel ao original é suavizar a ansiedade com que me impulsiono a tocar em versos importantes de minha canção; é saber que posso cantá-la com a voz tocada pelo emocional sentindo uma espécie de punhal arranhando fundo sua melodia, dissuadindo o tênue véu que encobre uma importante luz de sentimento. Essa é a minha maneira de sentir as veias desaguando de emoção, e é desta maneira que refaço cada passo de minha primeira passagem pela Terra. Os primeiros versos fogem ao livro do Gênese. Nesta canção, busco tecer apenas o momento em que, ainda vivendo em Ur, antecedeu a minha “Aliança” com Deus.

A Rosa do Tempo

A ROSA DO TEMPO – CONTOS
4º. LIVRO publicado por CARLOS KAHÊ
ISBN 978-85-62426-06-3 – catalogação SNEL, Rio
Pedidos: Editora LIVRONOVO, São Paulo, 2009
www.livronovo.com.br

Que imagem A ROSA DO TEMPO celebra em nosso manancial?
A singela rosa da utopia borda os ideais deste poeta prosador celebrando a vida do homem pós-moderno - aquele que sangra nas filas, que aperta o cinto e faz silo no cós das mãos - um equilibrista nato que confirma seus ideais com aquilo que lhe parece possível tirar do absurdo.
O mundo solfeja que a grande utopia não é mais desejável.
Mas quem acredita num semeador triste?
Quem atravessaria campos de ácidos eivados de seu passado?
Nos tempos modernos, sabemos, reinam o medo e o preconceito, os nossos valores são negados, ignorados, porém o que importa é perceber a aurora nos olhos das pessoas, importa é que as sementes do sol estejam nas mãos da juventude...
Ao escrever A Rosa do Tempo, à minha maneira, tento ratificar a arte literária pela limpeza distribuindo, através do baralho de cores dos meus sentimentos, velhas cartas e meus antigos segredos.

2. Resenha
Tomei conhecimento do trabalho de Kahê, durante a Copa do Mundo na Alemanha, onde estudo. Pelas mãos de um amigo, li o seu excelente, Sangue na Rua das flores, após, criei coragem de lhe pedi outros trabalhos, como o seu romance, O Santo Selvagem, além das crônicas que escrevia para o caderno cultural de um jornal de sua região. O Bailado Humano publicado há dois anos, pela Editora 7Letras, Rio veio confirmar a trajetória de um autor que prima pela musicalidade, pela expressão verbal cingida de conceitos eficazes e densos de significados. Considerei Um Rio Perene, um romance apaixonante, pós-moderno, em todos os aspectos, e há os inéditos A Noiva da Cidade, A Orquestra dos Mortos e Pássaros Mudos, trabalhos a serem concluídos, e que o alçarão ao grande público.
Kahê confessou-me sentir a presença de certas entidades, quando escreve. Cavaleiros voláteis apeiam diante dele, lhe sorriem e depois se evaporam como bonecos de nuvens. Pois, nesta Rosa do Tempo, há passagens que ele mesmo lê arrepiado, incomodado com a presença quase palpável de Drummond, de Clarice, de Neruda... Enfim, Kahê, que é professor de literatura e pós-graduado em jornalismo, mais uma vez, surpreende com seu estilo ultra-moderno, utilizando expressões necessárias, únicas, densas, concisas, memoráveis.
Gabriel Lima Passos

Orelha – 3.
Carlos Kahê nasceu em Itagimirim, Extremo-sul baiano. Tão logo se acercou do sentimento do mundo, mudou-se para Itabuna, quem sabe atraído pela aura literária dos filhos ilustre da região cacaueira, Jorge Amado, Adonias, Telmo Padilha, Valdelice e Firmino Rocha. Kahê é músico, compositor, letrista denso, uma espécie de intelectual “gauche” devido a suas incursões instáveis pelas universidades. Começou na Arquitetura, onde vislumbrou a estética concretizada nas Letras. Deixou a Economia, por medo da dispersão, pela aridez, porém, jamais se afastou da sua teoria, volta e meia, invocada por uma de suas personagens. Pós-graduou-se em Jornalismo, porém, no retrato do artista, quando, ainda, bem jovem, há algumas nuances de Engenharia, cuja aplicação equilibra-o, sempre e mais na coesão, embora ele afirme que esta seja água bebida nas fontes de Graciliano, Fuentes, Lispector, Yourcenar e os grandes poetas do mundo. De sua região ele elege Telmo Padilha.
O Editor







4ª Capa.
Acordo e ouço a voz de Caetano murmurada entre casarões senzalas e solares invocando a tua negra presença... “Paralisa meu momento em que tudo começa a tua presença...” Salvador está a pouco tempo de mim.
O luar paira sobre o Recôncavo brilhando na pancada da cachoeira. Estando feliz o meu santo, eu me calo e se cala o Paraguaçu na pedra do cavalo.
As águas revolvem o mangue, em cujos labirintos a lua dança entre as canoas. Pastores dormem sobre as margaridas e São Jorge passeia com seu cavalo branco pelas salinas de Goa.
As luzes de Candeias iluminam o Bomfim; os remos cortam as águas da baía trazendo a canção da lua vagando entre as ilhas. Salvador está a poucas águas de mim. Posso senti-la. Vejo seu rosário de luzes, imagino-a quente, gingando com seus tambores verdes, amarelos, vermelhos e pretos – olhares africanos escondidos em sua trilha, em sua selva de arte, de ritmos, de crenças e de caos...
Se teus deuses um dia entenderem de te fazeres triste, subleve os deuses, Bahia! Deuses são estrangeiros! Não cale seus tambores! Não ponha outra vez a tua doçura na lábia do negociante! Não ponha nos bolsos do seu rico capote dogmas inúteis! O sagaz estrangeiro não alcançando a complexidade de tua magia, vai zarpar com sua máquina mercante...
O Autor

O SOLITÁRIO BEAT, JACK KEROUAC
Allen Ginsberg e Jack Kerouac foram amigos, poetas que lideraram os beatniks, um movimento de jovens intelectuais que delinqüiram uma geração de adeptos. Ocorre que, nem tudo que Kerouac e Guinsberg pensaram, viveram ou escreveram carregava-se no principio ácido da verve beat. Desde a postura filosófica à concepção religiosa o mito da influência ou da escola se esvai. Por exemplo, Ginsberg tinha aversão à mãe, enquanto que Kerouac endeusava a sua. Se Ginsberg incorporou-se à boemia em sua tenra juventude, Kerouac dedicou-a ao esporte: foi jogador de futebol com bolsa de estudos na Universidade de Columbia. Ginsberg afrontava enquanto Kerouac afinava.
Kerouac começou a escrever um romance falando sobre os tormentos que sofria para equilibrar a vida selvagem da cidade com os seus valores do velho mundo. Um fracasso de venda. Aconselhado por Neal Cassady, um amigo dos tempos de Columbia, ele passou a viajar de costa a costa, americana. Ainda era bastante jovem e as surpreendentes viagens, em companhia desse amigo, resultou “On the road”. JK experimentando formas mais livres e espontâneas de escrever, contando as suas viagens exatamente como elas tinham acontecido, sem parar para pensar ou formular frases. Durante esse período, ele escreveria, não só este, mas, vários romances, os quais carregava na mochila, enquanto vagava de um lado a outro do país.
O manuscrito de “On the road” ainda sofreria sete anos de rejeição até ser publicado; porém, ao chegar às livrarias, se transformou em seu primeiro grande romance, comercialmente. Kerouac tornou-se uma celebridade entre os jovens, que ainda sofria com a desconfiança da crítica e dos editores. Até voltar a publicar novamente, ele pegou a sua vida e recolheu-a no esquecimento; na pacata rotina dos casamentos. Em 1957, quando Allen Ginsberg e outros escritores de sua categoria começaram a celebrizar-se como a "Geração Beat" (termo que o próprio Kerouac criara anos antes), os editores manifestaram interesse pelos seus manuscritos, publicando, finalmente, "Pé Na Estrada", que se tornou um estrondoso sucesso popular; não de crítica. De repente, Kerouac foi surpreendido, ao viver o papel de jovem ícone beat para o público, porém, amargado pelos cânones da rejeição, ele não soube como reagir. Os críticos literários continuaram refutando sua literatura; chegaram a ridicularizar o seu trabalho, ferindo-o profundamente. Ao adquirir uma fama não programada, JK passa por um declínio moral e espiritual. Tentando viver a imagem selvagem que tinha apresentado em "Pé Na Estrada", entregou-se ao alcoolismo, o que apagou o seu brilho natural e o envelheceu prematuramente. Seus amigos viam-no como uma pessoa carente e instável.
Percebendo o fracassa, vivendo solitário, retorna a Long Island, onde volta a viver com a mãe. Aos poucos, tenta retirar da mochila os livros escritos na estrada; o problema é que lhe faltava um editor, e os trabalhos exibiam uma alma desconectada, de um ser humano perdido em ilusões. Apesar do estereótipo de beatnik, Kerouac era um conservador, especialmente sob a influência de sua mãe católica. Frequentemente apaixonado, ele chegou a casar duas vezes ao longo da vida, mas ambos os matrimônios acabaram em pouco tempo. Na metade dos anos 60, ele casa-se novamente, agora com uma velha conhecida de infância. Após o casamento, pega a mãe e a esposa e vão morar em St. Petersburg, na Flórida, onde morreria em 21 de outubro de 1969, aos 47 anos, destruído pela bebida.
Procurando informações que confirmassem dados de memória para um texto sobre os 50 anos do livro On The Road, descobrimos que a Viking Press ainda vende 100 mil cópias do livro todos os anos. Quantos garotos e meninas arrumando a mochila com meia-dúzia de trocados, lançam-se à estrada, pegando carona com caminhoneiros, bem ou mal intencionados, em busca tão-somente da experiência de partir?... A praia, para esses jovens, é apenas questão de dias, ou semanas; dormir ou comer mal são contingências que os levarão à última carona ou ao fim da força da aventura. Quantos americanos cruzando a fronteira com o México, dormindo no teto de automóveis em meio aos insetos, suportando um calor inacreditável e esperando pela noite em que tudo acontecerá se espelhou no ideal de Kerouac?... Quantos guris ainda saem do Rio Grande do Sul de carona, em direção às praias paradisíacas do Nordeste, viajando durante semanas, até que tudo se dê, até o primeiro albergue ou à primeira transa?... On the road inspirou o filme Easy Rider, que lançou ao estrelato Peter Fonda e Jack Nicholson.
Se Kerouac não tivesse quebrado a perna, quando era um expoente do futebol americano, na Universidade de Columbia, como seriam os beatniks, os hippies, os desbundados dos quatro cantos do mundo? Se ele ficasse em seu canto, uma estrela local do esporte americano, nós viveríamos a era dos milagres?... Foram-se os dias do sossega-leão; os tarados estão na pior; os ousados trapezistas quebraram as vértebras. Era de maravilhas, quando os cientistas, em cumplicidade com os sumos sacerdotes do Pentágono, ensinam de graça a técnica da destruição mútua, porém total. Progresso, pois sim! Faz disso um romance legível, se conseguir. Mas não me vem reclamar das misturas de vida com literatura direitinha e limpa – sem lixo radioativo. Que falem os poetas. Eles são beat, mas não são os donos da bomba. Pode crer: não tem nada limpo, nada saudável, nada promissor nessa nossa era de maravilhas – é só cantá-la. E a última palavra, provavelmente, vai ser dos Kerouac da vida.” O texto supra é de Guinsberg. Kerouac, mesmo, disse o seguinte: “Daqui a mil anos, se houver História
os Estados Unidos serão lembrados como um paisinho antipático cheio de panacas, espinhenta rosa de estufa cultivada por jardineiros covardes.”
Morrendo prematuramente, Jack Kerouac ficou no entremeio do anjo torto com o bad boy. Dizem seus biografistas que o verdadeiro Kerouac ainda está contido nos livros ainda não publicados, nos quais desvendou seus sentimentos mais recônditos; seu eu mais real, mais honesto e filosófico. Segundo consta, tais escritos datam dos seus 25 aos 32 anos, retratando o artista quando jovem; período crucial e vida intrépida do romancista por acontecer.
Enquanto não temos acesso a essa alma cativa, resta-nos aquilo que veio ao nosso conhecimento, ao conhecimento universal: um jovem como tantos outros, com idéias, medos e dúvidas; repletas inocências juvenis e a incansável busca pela mulher de sua vida; a luta para amadurecer e fazer sentido em um mundo de pecados. Tenho para mim que a crítica não duvidava das intenções de um jovem beatnik, ao repudiar o seu lado católico, exacerbado. Ela não queria era justamente esse tipo de manifestação polida brotada de uma geração que veio para arrebentar os costumes. O problema é que, ao ignorar o religioso, esqueceu-se do artista sincero que viveu buscando sua própria voz.
Carlos Kahê

KAFKA E AS METAMORFOSES



Não fosse o seu gênio literato, quem poderia ter sido Franz Kafka?
Naquela Praga pertencente ao Império Austro-Húngaro, subordinada a Viena, presa à dinastia dos Habsburgos, ainda não existia a Tchecoslováquia, cujo nascimento, via Estado democrático, se daria somente em 1918.
E não era só: a casta a que pertencia – industriais, banqueiros e altos funcionários – falava alemão, a língua dominante, enquanto que a massa de operários falava tcheco. Ou seja, mais do que dividir dois povos distintos, a língua criava diferenças e discriminações dentro de um mesmo país, e eu me pergunto: isto era fome para o organismo de um jejuador, ou uma onda gigantesca para a cabeça de um artista?
Kafka estudou Direito e trabalhou numa seguradora italiana. Escolheu trabalhar longe da atividade literária e se negava a ganhar dinheiro escrevendo sob encomenda, alegando precisar manter sua arte pura: observando os operários humildes, acidentados, em busca do amparo do governo é que formulava a questão do conformismo da massa ante a onipotência de um Estado que esmagava.
Não teve na vida política, sequer uma posição clara que o alçasse aos diálogos e construções de ensaios na cena cultural de Praga. Jamais chegou a formular idéias propriamente socialistas e suas incursões públicas são muito tênues para serem pregadas em sua trajetória.
Kafka viveu desencantado com as próprias revoluções, não lhes punha fé; entendia que política era para quem entendia de política. Para quem dela dependesse. Em sua obra, no entanto, está registrado seu profundo incômodo com a estrutura social complexa representada pela apatia dos que se deixavam dominar (os bons oprimidos) sempre em condições inferiores à energia da engenharia dominante (os maus opressores).
Kafka não teve vida para acompanhar o assassinato de suas irmãs pelo holocausto; teve sensibilidade para se condoer com o comodismo individualista de uma sociedade interesseira, omissa, que fechou os olhos para uma realidade desenvolvida à sombra do Nazismo.
Não teve uma formação religiosa, profunda: nascido de uma família judia, não fervorosa, aproximou-se um pouco dos judeus germanizados que viviam em Praga; até interessou-se pelo sionismo, apenas por curiosidade, instigado pela última companheira, Dora Diamant.
Como a historia haveria de contar, o fervor de Dora foi insuficiente para torná-lo um homem em quem os rabinos depositariam aquele orgulho cretino próprios dos religiosos. O amor, tampouco lhe matou a fome. Namorou várias mulheres, noivou-se de algumas, trocou uma pela outra em plenos anos X do século passado; mas eram relações tratadas com o misto de esperança e de medo. Vivendo esses amores frios, anti-sentimentais; apenas um foi razoável e já nos tempos da madureza, que foi seu relacionamento com Dora, uma jovem de 18 anos.
É fato que, na casa de suas agonias, o racionalismo intelectual acabou vencendo o amor, assim como o seu eterno ceticismo em relação a Deus.
Se é verdade que escritores gostam da solidão, Kafka tinha fome de solidão e espalhou este sentimento pela vida e pela criação. Demonstrava fragilidade, incerteza, recusa em ser forte como fora o seu pai, Hermann Kafka (dito na carta que lhe fizera e não entregou) recusou em ser forte como era o Estado que o dominava, como o mundo que o amedrontava e que ele tão bem descreveu em sua literatura. Nas características de seus personagens, Kafka punha incompreensão política, deslocamento social e desapego pessoal e material... Em relação às coisas, não tinham passado nem futuro, história ou expectativa. Daí a naturalização do absurdo.
A rigor, a situação kafkiana de impotência do individuo moderno se vê as voltas com um inesperado poder que passa a controlar a sua vida; que o leva à alienação ou a um padrão de iniciativas inúteis.
Kafkiano é um atributo internacional concedido a Kafka: o termo está inclusive nos dicionários. Há, no entanto, hipertrofias que tratam mal esse atributo: fazem mau uso dele, ao transferir para o termo tudo aquilo que nos parece estranho, absurdo e impenetrável. Em Kafka, o homem comum se aproxima do empecilho banal da aceitação a tudo. O esforço de encontrar a lei está condenando-o ao fracasso, e cada vez mais distanciando-o do alvo elevado: uma parábola que descortina o apelo revolucionário de sua narrativa.
Kafka morreu aos 41 anos, tuberculoso, considerando tudo o quanto escrevera bobagens que deviam ser queimadas. Max Brod, seu grande amigo, não o atendeu; conhecia sua personalidade hesitante e o legado que o amigo deixaria ao mundo. Em seu último livro, "A construção", ele já sabia de sua doença, tanto quanto do que cometera escrevendo.
Pessoalmente, não acredito em rigor asséptico, quando tratamos de ego e de construção psicológica. Kafka sabia, sim, do seu valor. A construção de toda a sua obra nos emite este sinal de lucidez diante da fatalidade; chega a até a exibir uma espécie de testamento, pela total inconformidade com tudo e com todos.
Um artista consagrado, no alto da sua capacidade, tem condições de transferir para a sua última obra toda a sua essência. Kafka teve um lúgubre, não digamos presságio, uma vez que ele estava no sanatório lutando contra a tuberculose; porém tinha consciência plena de que o fim estava próximo. Decerto não poderia se dar ao luxo do “branco total da criação”, pois o tempo “rugia”; e nem poderia conclamar o poder de síntese. Mesmo na tentativa de consagrar e até superar tudo quanto, até então criara, Kafka fez seu último trabalho superestimando seu mais alto grau de sobriedade e de resignação. Esta resignação era dedicada àquele que nada entendeu do que ele havia escrito. Ele sabia a grandeza da sua criação, porém a modéstia imperou até no momento em que as suas forças o empurravam para clamar as asas da liberdade diante do fim eminente. Se o narrador punha em alta o sentimento de felicidade, o poder dominante do escritor o retraía com idéias de fracasso. No seu caso, para o seu domínio, grandioso seria muito pouco.
Para resumir a ópera, Kafka desejava nos impor em seu último trabalho um fragmento inacabado, nos propõe, até, um pressentimento incomprovado de que as coisas podem sinalizar a ausência de uma finalidade contida na própria meta traçada. Em A construção, fez entoar no seu distorcido canto do cisne um grito solitário que ninguém esteve disposto a atender. Esquecê-lo, quem havia de? Há superação, há consolo e há beleza; é como não houvesse fim, pois o narrador simboliza a insegurança de quem se encerra sem saber se é o caso.
Para finalizar, a metamorfose percebida na obra de Kafka testemunha um momento na história da literatura na qual já não se podia lançar mão sem escrúpulos de estratégias de representações ilusórias já desgastadas. Criando a poética da metamorfose e da parábola, o cômico e o trágico se unem e se desconstroem para derrubar o pano que escondia a face do temor e do cisma, do seu próprio fazer literário, deixando uma indisfarçável fissura sobre si mesmo, e que jamais parou de crescer.
Não vou colocar aqui que Franz Kafka é a minha grande referência literária. Como não o foi Dostoievski ou Machado ou Saramago. Gosto da emoção, gosto de ver o pendão florido. Kafka chamou-me a atenção após constatar que os maiores escritores do planeta, aqueles que me inspiraram a escrever, tinham-no como modelo. São exemplos: Borges, Cortazar, Garcia Márquez, Vargas Llosa e Carlos Fuentes. Diziam estes que a palavra estruturada marcada por conflitos insolúveis, aparentemente frias, tinham o tempo exato e o ritmo inconfundível a colocar frente a frente o espanto do eu com o mundo. Dos ícones acima citados, percebo, no entanto, que apenas Cortazar o seguiu como um discípulo fiel.
DOSTOIÉVSKI: A VIDA DE UM GRANDE PECADOR

Não sou daqueles que acreditam em mazelas da vida como fator que propõe a esse ou aquele ser humano o viés essencial à construção de uma carreira literária. Brutalidades, traumas e tragédias podem marcar o perfil de uma escrita, todavia não é essencial, pois que sensibilidade, entendimento do mundo, dom, o escritor de verdade já traz consigo. DOSTOIEVSKI era um escritor de verdade, e não era obrigado a concordar comigo. Nem eu com ele. Bem, ele creditava à sua escrita os traumas pessoais que ele mesmo chamava de afrontas, e uma dessas afrontas, conta seu biógrafo, Joseph Frank, aconteceu debaixo da janela de sua casa: o mensageiro do correio, após uns bons tragos de vodka retorna à carruagem estacionada e despeja sobre o cocheiro, que o aguardava, toda a sua brutalidade: punhos incessantes na nuca do camponês, na mesma constância em que este chicoteava, freneticamente, os cavalos, àquela altura, atabalhoados, marchando desordenadamente.
Acontece, porém, que quando lhe ocorreu tal cena, Dostoievski não era uma criança, mas um jovem aspirante, estudante da Escola de Engenharia de São Petersburgo, portanto já grandinho para colocar entre as mazelas de sua vida esse quadro de brutalidade.
A cantora Maysa, como pudemos ver através de sua história, em recente especial da Globo, punha em suas composições suas torturas de amor, a vivência diária de seus desencontros; facilidades tais que com ela nascera para compor um estilo; jamais uma soma de resultados provenientes de uma outra soma de equívocos. Ela tinha, além da bela voz, o talento para compor, e gostava (ou se sentia bem) reunindo em suas letras tudo aquilo que para o homem comum são verdadeiros traumas.
Voltando a Dostoievski, a crítica mundial confere à saúde precária do autor, sua situação financeira calamitosa, bem como as desavenças e desafios ao pai (seus famosos traumas), elementos que o elevaram à condição de maior especialista na alma humana. Há controvérsias, e estas se perfilam desde o gênero de sua escrita aos temas pesados abordados em sua obra. Neste aspecto, Marguerite Yourcenar me dá uma melhor definição de completude. Eu, particularmente, quero fugir sempre aos caldeirões existenciais, e ratifico este pensamento na própria obra desse escritor, cuja melhor colheita aconteceu quando ele viveu sua estabilidade conjugal.
Mikhail Bakhtin afirmou, com particular veemência, que as personagens de Dostoievski, “não vivem uma vida biográfica”, isto é, não nascem, passam a infância e a juventude e casam-se, geram filhos, envelhecem e morrem, pois o autor só concentra a ação nos pontos de crises, fraturas e catástrofes. Quando escrevia O Idiota, o autor chegou a dizer a um amigo que no tema abordado pelo livro ele encontrava deleite e inquietação: o título do romance já anunciava o conceito desejado como forma de compor o personagem: um indivíduo puro, superior, que acaba sendo para os demais, numa sociedade corrompida, um idiota – um inadaptado. Sabe-se que, ao criar o príncipe Míchkin, personagem de O Idiota, a obsessão de Dostoievski repousava em Cristo e em Dom Quixote. A própria ênfase no poema de Puchkin, “O cavaleiro pobre”, decorre da sua relação com Quixote. Ao levar a história para o cinema, o diretor russo, Ivan Píriev, transpôs para a tela a primeira parte da história, cuja figura do ator principal, Iúri Iácovlev era um ser hibrido, ora Jesus, ora Dom Quixote. Quando, ao recriar o mundo atormentado de Dostoiesvski, em meio à enevoada São Petersburgo, o diretor o fez com maestria a cena em que o príncipe acaricia o assassino de sua amada, ele (tra)vestira o príncipe com a indumentária de Cristo. Para o contexto dostoievsquiano, este é um paroxismo difícil de aceitar. Uma situação-limite, extrema. Em seus apontamentos, Dostoievski escreveu que os leitores souberam aceitar aquele final, mas a crítica, no entanto, refutou. Decorridos tantos anos, após tantas e tantas resenhas e teses acerca do romance, aquele desfecho continua, para alguns críticos, como Boris Schneiderman, desconcertante, abissal, “um verdadeiro desafio à nossa capacidade de aceitar as ações de uma personagem literária”.
Quando escreveu outra de suas obras famosas, Os irmãos Karamazov, a primeira que eu li de seu grande acervo, ainda nos meus tempos de alamedas floridas de Ipanema, Dostoievski estava em paz com a crítica e consigo mesmo. Este livro foi bem recebido, devido ao seu conteúdo febril, em que imprevistos e enigmas do destino dão pouca folga ao homem em geral. Nessa época, quando o autor, além do reconhecimento, passou a obter algum refresco financeiro, foi justamente quando ele se encaminhava para a morte: o romance foi publicado em 1879 e ele faleceu em 1881.
A vastidão do romance fez com que gerações de leitores entendessem que, naquele ponto, Dostoievski chegava ao Olimpo literário. Nesse livro, acredito, ele disse tudo quanto podia, e seus diálogos se sucediam em avalanches de confissões e paradoxais desabafos. Quem o lê guardará na lembrança seu caudal tortuoso, intranqüilo, depois de alguns dias e noites debruçado sobre suas 750 páginas, mas quererá ir sempre em frente, puxado por fragmentos feéricos e dramáticos que compõem o vitral de que ele é apenas um dos elementos. Explicando: Dostoievski impunha aos leitores a sua visão particular de mundo – céus e infernos; Deus e seu reverso, e para isso atribui aos seus personagens as falas de que queria dispor. Estilhaços que, junto a ele pareciam angelicais; anjos abrindo-se em revelações, contudo, deixando a ele o final que planejara.
Em Os Irmãos Karamazov os filhos, notadamente Dmitri, foram criados sob implacável negligência paterna, cuja paternidade fora representada por Grigori, criado fiel e pai afetivo dos meninos.
Em sua história pessoal, o pai de Dostoievski, aposentado após a morte da mãe, retira-se para uma pequena propriedade rural; de lá manda os filhos homens para boas escolas, sustentando seus gastos pessoais e estudos. Veio a ruína, porém Dostoievski continuou sugando os minguados recursos do pai, e este, sempre, acalentando no filho uma ilusão de poder. Vendo o pai assassinado pelos camponeses, seus empregados, por falta de pagamento, Dostoievski, enfim, toma ciência da sua situação, e se culpa pela tragédia. Eis o nexo de causa e efeito. Aqui ele começa a montar o mosaico em sua cabeça: explorando o pai, ele obrigara-o a explorar seus empregados... Enfim, inicio do estopim.
Para entender que Dostoievski creditava aos seus sofrimentos a saga de sua literatura, eis o conselho do próprio escritor a um colega iniciante: “Para escrever bem é preciso sofrer, sofrer”. Prefiro sua definição acerca do homem: “um ser que se habitua a tudo”.
Dostoievski insuflou ao gênero prosaico a poesia das paixões intelectuais; a poesia das discussões ideológicas, a poesia das análises psicológicas, iniciando-se, assim, uma época literária, universal, que caminha.
A carga emocional apoiada na estrutura espiritualista de Fiódor Dostoievski levaram-no a revigorar manuscritos, a esboços de um romance intitulado “A vida de um grande pecador”, um projeto que, como dizem, passaria a régua em sua trajetória de escritor. Como sabemos, o livro não foi levado a cabo, mas a idéia foi apanhada por Puchkin, que escreveu o poema longo, “O cavaleiro pobre”. A vida de um grande pecador, não há como não nos levar a uma autobiografia. Certo, ele optou pela biografia da família em Irmãos Karamazov, como ato involuntário de justiça. Assim, enquanto o mundo que ele profetizou não se realizar, o pecador e o santo continuam indissociáveis.
Carlos Kahê

ALLEN GINSBERG E A POÉTICA RADICAL

ALLEN GINSBERG
Abril é o mês em que a comunidade radical da poética mundial celebra a morte de Allan Ginsberg. Dizem que o reconhecimento a um poeta concentra-se mais na imagética do que na poeticidade. Será verdade? Ginsberg era inimitável, em atitude e na quebra paradigmáticas. Se Vinicius foi um poeta que viveu no limite da boêmia, Ginsberg foi o poeta que viveu no limite da quebra das correntes. “Arranquem portas e janelas para ouvirem o meu uivo!”
Allen Ginsberg foi uma criança tímida, dominada pelos estranhos e assustadores episódios de sua mãe, uma mulher completamente paranóica, que não acreditava no mundo. Do seu lado, Allen lutava para compreender a luxúria que o queimava por dentro. Na escola secundária, descobriu a poesia e a atração pelos meninos de sua idade; ao ingressar na Universidade de Columbia, fez amizade com um grupo de jovens delinquentes, filósofos de almas selvagens, entre eles Jack Kerouac, obcecados igualmente por drogas, sexo e literatura. “Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura!”
Ao mesmo tempo em que ajudava os amigos a desenvolver os seus talentos literários, Allen perdia de vez a sua ingenuidade, experimentando drogas, freqüentando bares gays em Greenwich Village e vivendo seus affairs homossexuais. Assumindo um estilo de vida bizarro, como se procurasse em si mesmo a face da loucura de sua mãe, Ginsberg acabou em tratamento psiquiátrico. Aos 29 anos, já tinha escrito muita poesia, mas quase nada publicado. Ganhou popularidade a partir de 1955, com o seu poema Howl, considerado por muitos, obsceno e pornográfico. Howl foi seguido por vários outros poemas importantes, como Kaddish, onde ele faz uma espécie de auto-exorcismo, escrevendo sobre a loucura e morte de sua mãe. Por esse período, Ginsberg viaja pelo mundo, descobre o budismo e se apaixona por Peter Orlovsky, que seria seu companheiro por 30 anos, embora sua relação não fosse monógama. No início dos anos 60, a celebridade cresce, no entanto, ele se lança na cena hippie, ajuda Thimoty Leary a divulgar o psicodélico LSD e participa de uma lista incrivelmente grande de eventos, como o Human Be-In, em 1967, em San Francisco. Allen induz a multidão a cantar o mantra OM, imitado, em seguida, pelos Beatles, na canção Across the universe. Ginsberg é também figura-chave nos protestos contra a guerra do Vietnã, na Convenção do Partido Democrático de Chicago, em 1968. Após conhecer o guru tibetano Rinpoche, aceita-o, prontamente, como seu guru pessoal. Depois, juntamente com a poeta Anne Waldman, cria uma escola de poesia. Sempre participando de eventos multiculturais, manteve sua agenda social ativa até a sua morte, em 5 de abril de 1997, em Nova Iorque.
Ginsberg tinha muitos fãs,entre eles Jim Morrison, do grupo The Doors. Morrison era tão viciado nas poesias e obras dele que dizia escrever suas músicas após ter lido algum de seus poemas. Sabe-se que Ginsberg e a banda The Clash eram fãs recíprocos. O poeta fez uma participação especial na música Ghetto Defendant, e cantou, ao lado de Joe Strummer, trechos de um de seus poemas. Ginsberg não sendo único, é no minimo histórico. Histórico porque cada obra é escrita em determinada circunstância, em determinado contexto; nem que seja para negar ou transformar esses contextos em valores, ideologias, linguagem e organização da sociedade. Não só por isso. Ginsberg também fez história, pela influencia sobre outros autores, reaparecendo em seus textos, produzindo ideologia, produzindo percepção e representação do mundo. Se a consciencia, a sociedade e o mundo são produtos de linguagem, então a operação feita pelo poema, a criação e a transformação da linguagem são transformações do real ou consciencia da realidade. A civilização grega o foi, de Homero; a romana o foi, de Virgilio; bem como a cultura lusófona o foi de Camões.
Ao se refletir sobre sua passagem, aqui na terra, ficamos com a impressão de que Allen Ginsberg foi, não apenas, o poeta norte-americano de maior prestigio da segunda metade do século XX, foi também, o grande rebelde, romântico, anarquista, contemporâneo, lider de uma geração que fez despontar Kerouac, Burroughs, Corso, Ferlinghetti, Snyder, entre outros. Fez revolução na linguagem e nos valores literários que se transformaram em rebelião coletiva, dentro da série de acontecimentos revolucionários, essência da Geração Beat, década de 50, e da contracultura e rebelião juvenis dos anos 60 e 70.
Allen Ginsberg foi um poeta de atitudes, portanto.