sábado, 12 de janeiro de 2008

A CEGUEIRA, EM SARAMAGO

Ensaio Sobre a Cegueira

Ao escrever o romance, Ensaio sobre a cegueira, o escritor português, José Saramago, unificou o universo romanesco e transformou, em princípio de construção artística, uma obra articulada pelo processo social, de modo a viabilizar e a tornar inteligível a coerência e a força organizadora, como pontos de partida à reflexão: “Tudo havia sido recolhido, as coisas menores metidas dentro das coisas maiores; as mais sujas metidas dentro das menos sujas...” As palavras assim dispostas parecem uma determinação regulamentar de uma higiene racionalizada; mas ocorre que a linguagem poética possui uma densidade que a distancia das coisas, para se colocar num plano em que as correspondências são obscuras e precárias para aquele que pretendeu tudo compreender, mas que, todavia, jamais conseguiu compreender a sua essência. Assim, o papel que nos cabe é ir mais além das palavras; buscar o que está além do enunciado: “Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais”.
Este é, talvez, o grande mote do romance. Esta é, talvez, a senha que Saramago utilizou para tratar as inquietações sociais generalizadas como uma metástase que impregnava todos os flancos e tomava o cerne da questão: uma doença terrível que toma um corpo de assalto, para o golpe fatal.
Enquanto obra literária, Ensaio sobre a cegueira, possibilitou a José Saramago relatar a realidade por ele vivida: “Vi o que vi, não tive outro remédio... Cada um deve falar do que sabe... Estou de passagem, e estes eram os sinais que iam deixando ao passar”. Saramago demonstra, ao ingerir-se na fala de suas criaturas, o anseio de imortalizar o quadro estarrecedor implantado em sua terra, até se insinuando como personagem de sua própria obra: “Os cegos não precisam de nome, eu sou a voz que tenho; o resto não é importante... Um escritor acaba por ter na vida a paciência de que precisou para escrever”.
A diáspora cultural acontecendo e a nação se desfazendo culturalmente, em virtude de os seus intelectuais, impelidos pela recusa ao regime totalitário, buscarem a liberdade do pensamento em outras plagas. As pessoas viviam a sonhar que eram pedras, ignorando o quanto é profundo e comprometedor o sono delas. Portugal vivia, então, sob a marca da sociedade patriarcal e machista que impunha a situação da mulher à exploração, mantendo-a oprimida e discriminada. As colônias ultramarinas revoltadas, ao verem os seus filhos sacrificados, sem sequer entenderem o sentido e a justiça de tantas guerras: "Se matava e se morria para conservar os privilégios de ricos".
Como escreveu a escritora Teolinda Gersão, "Os presos iniciam seu retorno a Portugal: entre eles, escritores, professores cientistas, intelectuais exilados, vindos dos mais diversos países... Um povo perdido pelo mundo reunindo os pedaços diversos do seu corpo. Eles retornam, pisando outra vez a terra abandonada; mas agora outra vez sua, finalmente sua, se a luta das suas mãos não afrouxar.
Lutas agrárias, diáspora cultural, estertor salazarista, extinção da Sociedade Portuguesa de Escritores, são exemplos de atentados à liberdade do cidadão; porém nada foi mais estarrecedor do que o silêncio imposto à nação. Essa mordaça, aos poucos foi minando a capacidade reacionária de cada um, seja intelectual, artística ou do próprio homem comum. Tudo o que era produzido carecia de sutileza ou enveredava-se para a marginalidade cultural, porque os raros documentos que vinham à tona eram produzidos através da linguagem cifrada, deixando entrever a fala estrangulada, a opinião engasgada na escrita sorrateira, apertada em torno das casas: a mordaça do silêncio e a sua mão castradora retiravam do povo a força da revolta.
A lama negra do medo que se abateu sobre os portugueses, os acondicionou em um refúgio de silêncio e os cegou: “O medo cega... Já éramos cegos no momento em que cegamos!" Diz a rapariga, a personagem que não se desvencilhava dos seus óculos escuros. "O medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos...” Como não se sabe qual o número preciso de cegos para se fazer uma cegueira, Saramago atira essa questão para o alto, e brinca com as palavras num jogo de inversões: “Cego é aquele que vê adiante”. O escritor português foge a estereótipos e açula os seus personagens cegos a tornarem aos seus postos de guerreiros, ao dizer que os cegos estão sempre em guerra, sempre estiveram em guerra: “Tornarás a matar, se tiver de ser... Dessa cegueira já não me livrarei!”. Não é sem propósito que o escritor planta uma mulher a conduzir o primeiro grupo que cegara: criando tal genealogia, ele faz jus à plêiade de escritoras que levantaram a voz contra o regime, enquanto os homens silenciavam.
Assim, a mulher do médico, em todo o desenrolar de sua narrativa, foi os olhos do grupo trancafiado na colônia: “Tu não estás cega, por isso tem sido a que manda e organiza... Cegos são os que mandam e os que são mandados... Sou unicamente os olhos que vocês deixaram de ter!”
A forma dominante que imperava, como está salientada no romance, comporta e incorpora a realidade acionada no campo imaginário, contudo, não se trata de um realismo espelhista, embora possa combinar elementos historicamente incaracterísticos, que o leva para o lado fabuloso. Ensaio sobre a cegueira, não pretende passar por um documento de realismo documental, mas se tornar uma manifestação representativa da sua inquietação histórica e cultural presente em suas lembranças, e marcar com clarividência a ânsia e o inconformismo dos portugueses, no justo instante em que eles abrem os olhos para a realidade:
“Entretanto nasceu a lua. Alguns dos que ali estavam já o sabiam e tinham-se calado, outros andavam desde há tempos com suspeita e agora as viam confirmadas... Inesperado foi o alheamento dos restantes (...) talvez o não devamos estranhar (...) Noutra altura a revelação teria sido causa de um enorme alvoroço, de uma comoção sem freio... Ajuda-me a sair dessa prisão!”
Como um apanhador em um campo de idéias, saímos catando as frases do autor, no intuito de ligar palavra soltas, de propósito, ao longo da narrativa, com o fim de juntá-las e concretizar o seu veredicto, nesse universal resgate.
Ao indagar o nome das gotas que se põe nos olhos, Saramago propõe o desabafo generalizado de suas personagens massacradas pelo silêncio, ao implorar: “Dá-me a direção do seu médico! Ajuda-me a sair desta prisão!” O grito de socorro, aqui tratado com muita propriedade, como uma reação dos ungidos pela cegueira branca, simboliza o fim das trevas: agora não é mais a indiferença e a alienação que assomam o instante; o povo se liberta, enfim, dos grilhões impostos pelo sistema e passa a entender como é simples o enunciado do Eclesiastes: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. O signo bíblico, utilizado como epígrafe, leva o escritor a encontrar o desígnio de sua própria narrativa, ao confirmar o que a história da humanidade tem mostrado, não raro, que coisas ruins trazem consigo coisas boas, e vice-versa, como uma forma contraditória de se tocar um mundo que se pretende paritário.
O escritor e médico, Miguel Torga, desabafa: "Golpe militar! Assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que, durantes os últimos macerados cinqüenta anos pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam e asseguraram com baionetas o poder à tirania. Quem poderá esquecê-los?
Uma grande obra literária é um acontecimento para a teoria cientificista, em função da sua relação com a sociedade se estabelecer através da fórmula entendida como um processo mediador que organiza, que não se aprofunda tanto em dados, uma vez que a linguagem moderna suscita mais a imagem do que a expressividade. Em literatura, ficção e realidade buscam os seus equilíbrios, visando a dar cunho de legitimidade à proposta de quem vai manipulá-la através das palavras. O papel do escritor é utilizar um recurso artístico para tecer as suas verdades, municiando o seu romance de sentimento com fundo de realidade; ao mesmo tempo em que vai propor uma realidade inserida de caos, sobre um fundo de romance. Todavia, para que isto aconteça, será preciso que, ao se conceber essa obra, o seu idealizador esteja imbuído do propósito estético e da crítica social. Nesse contexto, a importância de se abrir os olhos para a realidade, não obstante a ironia nos mostrar que, paradoxalmente, foi de dentro das grades, onde foram trancafiados os primeiros ditosos, de onde emergiu o caminho da liberdade. “Organizar-se já é de certa maneira começar a ter olhos!” Num átimo, meio século de trevas foi posto em colisão com o sol, ao ver proclamado o fim do mundo. Todo o passado estava morto; a multidão pisava as lembranças de tudo que representava a sua morte, sem as ver. Alguns olhos lúcidos passaram, no mesmo instante, a ligar os pontos do passado e do presente, deparando-se com uma fenda aberta que os possibilitavam registrar um recorte de opressão vivida por essa parte da humanidade. Portugal saía, enfim, da cegueira das trevas para a cegueira da luz, ao ver o sol nascer sobre uma cidade em festa, no dia da sua salvação penitencial; no dia da visão do sétimo dia, do advento do anjo, da seiva da mandrágora, da virtude do signo, da disciplina do vento, do perfume da lua... Porém, o fato mais importante, nesse renascimento, foi o próprio renascer da palavra, o resgate da lucidez e do afeto em cada um, individualmente: “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome. Essa coisa é o que somos”.
Carlos Kahê

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